
My Name Is Earl, Seinfeld, um pouco de Arrested Development e muitas decisões problemáticas. Só falta a imagem de um cego para termos a metáfora perfeita para esse Season Finale.
Spoilers Abaixo:
É complicado olhar para esse Season Finale sem levar em consideração um dos últimos episódios de uma das comédias mais subestimadas da década passada, My Name Is Earl, que fez algo muito parecido em episódio com o mesmo título que a primeira parte desse fim de temporada, que conseguiu dar o tom necessário para que o cliffhanger do Series Finale funcionasse, algo que o “Inside Probe” de Raising Hope acaba não conseguindo. É bastante comum ver uma série flertar com novos recursos, navegar por mares que não costuma explorar para tentar sair da mesmice de vez em quando e essa série nunca teve problemas tão graves com isso até agora.
Em “Inside Probe”, não existe certo segmento (ULTRA-MEGA-HIPER-SUPER necessário aqui) para que os diálogos se tornem um pouco mais ágeis e a série passe a explorar as características dos seus personagens, que acabam girando em torno de nada. Sem certa linha unificadora para guiar o episódio, tudo acaba se tornando uma narrativa vazia que quer porque quer despejar eventos que aparecem sem aparente motivo e falham em repercutir os lados interessantes dos seus personagens, chegando até a transformar Burt em um Homer Simpson irritante, ao invés de adorável, como a série costuma fazer. É praticamente impossível desenvolver um episódio de uma série de comédia quando todos os personagens acabam se tornando apenas arquétipos, sendo que a interação entre eles não é desenvolvida, dando espaço para inúmeras fotos sem sentido e uma apresentadora que falha em tudo que faz (um dos momentos mais felizes da primeira parte é quando Sabrina confronta Jimmy sobre o seu casamento com Lucy, algo que segue a maneira como Raising Hope funciona e a série faz o favor de desconstruir com a reviravolta no fim do primeiro episódio).
Não existem motivos para falar sobre os flashbacks e as imagens dos episódios, pois eles acabam com toda a expectativa que é criada diante do mistério que o episódio é incapaz de construir de forma eficiente e acaba recorrendo a algumas piadas metas, o que parece ser mais um momento de autoconsciência em que o roteiro admite a sua própria mediocridade até o momento, exterminando o foco que o público deveria dar a situação. Mesmo com a recapitulação do programa trazendo um ou dois momentos engraçados, como o interrogatório de Maw Maw, eles acabam sendo esquecíveis diante do efeito que a série inconsequentemente alcança ao atirar para todo lado com um infinito oceano de piadas e cortes que vão de personagem X até personagem Y sem motivação alguma e geram um impacto nulo na revelação de que Lucy ainda está viva, o que acaba fazendo com o que o tom investigativo que é criado não funcione.
Raising Hope é inconsistente quando tenta introduzir novos personagens ao universo que criou e desenvolve competentemente. Enquanto essa temporada tenha apresentado algumas caras novas que rezamos para ver mais uma vez, como o casal adolescente de “Poking Holes in the Story”, vimos outras que não são tão bem vindas, como, por exemplo, a personagem de Katty Perry em “Single White Female Role Model”. Nancy Grace, apresentadora de Inside Probe, entra para o segundo grupo, um tipo de personagem que não funciona como piada e nem como um tipo de metáfora para o que a situação quer passar, o que não seria grande problema se 70% do final não fosse centrado nela. Assim como grande parte do episódio, a ambição por trás dela é destruída pela mentalidade de que a volta de Lucy iria trazer algum tipo de choque ou aumentaria os riscos que a segunda parte trás. Sempre fui fã da série, mas todo o primeiro episódio desse final de temporada poderia ser substituído por uma cold open onde todos os personagens descobrem que Lucy está viva graças a algo muito bizarro. Algo mais fiel ao que a série vem construindo ao longo dos dois últimos anos.
Antes de prosseguir, lembrarei que o nome do Jimmy é James Bon Jovi Chance (Melhor piada do Season Finale ou melhor piada do Season Finale?) e que Frank roubou o donut gigante, um momento feliz em que a narrativa usa um pouco da pouco aproveitada história da cidade para criar o humor que esperamos dessa série e acaba sendo o elemento genial desse episódio.
“I Want My Baby Back, Baby Back, Baby Back” são vinte minutos de televisão tão problemáticos como “Inside Probe”, mas o último ato do episódio, que se estendeu desde o resultado do tribunal até o fim, provavelmente é uma das melhores coisas da segunda temporada da série. Sim, a resolução e a história como um todo são indolentes, mas a série faz um trabalho inteligente ao criar um contraste com uma música que passa de forma sutil como um carro alegórico toda a situação de dúvida de Jimmy Chance.
Essa segunda parte nada mais é que um clip show enfeitado, algo parecido com o que foi o Series Finale de Seinfeld, conseguindo desenvolver um sentimento de nostalgia bem agradável mesmo não sendo nada impressionante, com uma dificuldade imensa ao exibir como os personagens vêm crescendo ao longo do tempo e tendo recorrer a diálogos clichês, o que para esse objetivo é o mesmo que nada. Mesmo que os dois episódios sejam uma bagunça em vários aspectos, seria estupidez dizer que a volta de Lucy não causaria nenhum impacto. O momento em si não foi especial, mas a personagem de Bijou Phillips sempre é agradável de assistir, com todas as suas idiossincrasias e o processo de sua recuperação bem divertida. Entretanto, toda a história que tomou conta dos episódios finais nunca pareceu conectar graças aos motivos que abordei antes, soando mais como uma maneira desesperada de se criar um tipo de narrativa especial para chamar todo o elenco de My Name Is Earl para fazer participação especial. Aliás, as referências feitas à série anterior de Greg Garcia ao longo do episódio foram bem prazerosas para quem era fã da série.
Agora que Lucy não está mais entre nós (será?), não teremos um confronto apropriado entre ela e Sabrina, algo que seria mais coerente com o que a série construiu nessa segunda temporada, que mesmo sendo de alto nível, acabou deixando um gosto amargo no seu fim.
Obrigado pelos comentários ao longo da temporada. Foi um prazer escrever as reviews de Raising Hope e tomara que o sentimento tenha sido mútuo! Até a próxima temporada! J















