
Quando o desenvolvimento dos personagens é mais importante que o humor.
Spoilers Abaixo:
Existe uma interminável discussão sobre o papel dos episódios de sitcoms dentro de uma temporada. Muitos afirmam ser inaceitável que uma comédia não provoque sonoras gargalhadas durante todos os seus vinte minutos de exibição. E, na maioria das vezes, essa teoria está de fato correta. No entanto, existem episódios que precisam deixar o humor de lado em alguns momentos, para poder explorar seus personagens de maneira sólida, sem que a necessidade de criar piadas a cada instante prejudique esse objetivo. How I Met Your Mother é uma série que se apoia principalmente em seus personagens e nas relações entre eles. Justamente por esse motivo, seria impossível evitar episódios como Symphony of Illumination,
mais um exemplar digno de nota desta excelente sétima temporada da série.
Iniciando exatamente após o final de The Rebound Girl, o episódio coloca em destaque as reações de Robin e Barney à perturbadora notícia de que a primeira estaria grávida, mas ainda não tem certeza disso. Prometendo não revelar o segredo a ninguém, os dois vão ao consultório da Dra. Sonya, e descobrem que não terão um bebê. Pior que isso, Robin em seguida recebe a notícia de que jamais poderá ter um filho. Para não provocar reações incômodas em seus amigos, ela prefere não revelar o fato a ninguém, mas não consegue esconder o chateamento com a situação.
É interessante perceber como HIMYM tem adotado uma estrutura diferenciada nesta temporada. Primeiramente, com episódios como The Stinson Missile Crisis e Tick Tick Tick…, onde a série alterou sua narrativa de acordo com a necessidade. Mas a empreitada mais ousada da temporada acontece neste Symphony of Illumination. Abandonando de vez sua estrutura comum, o episódio utiliza uma Future Robin para contar sua história, conferindo à “nova” personagem uma função narrativa executada de maneira impecável (chegarei a ela mais tarde). Além disso, confirma a tese de que, se os anos anteriores dedicaram-se principalmente a Barney e Marshall, agora é a vez de Robin receber o carinho do roteiro.
E é inegável que a personagem tenha crescido de maneira impressionante, ganhando uma importância que ela não tinha nos primeiros anos.
Grande parte desse foco se deve ao relacionamento dela com Barney, que ganha ares cada vez mais misteriosos. Com o casamento deste se aproximando, é natural que o espectador comece a procurar não apenas a noiva, mas também os motivos que levarão a esse evento. E HIMYM consegue brincar de maneira excepcional com as expectativas de seu público, levando-o a acreditar em coisas que não são (ou foram, já que se trata de um flashback) reais. É aí que Future Robin cumpre sua função, iniciando o episódio com a certeza de que ela de fato estava grávida, provocando um sentimento de estranheza ao exibir a notícia contrária, e estabelecendo um momento de autorreflexão para a personagem ao revelar a inexistência dos garotos.
Por isso, os minutos finais do episódio, em que Robin comunica não ter problemas com o fato de jamais poder construir uma família, ao mesmo tempo em que suas atitudes revelam exatamente o oposto disso, constroem um panorama interessantíssimo para a personagem, que se torna cada vez mais uma personagem forte e de extrema relevância para a série justamente por conta desses momentos dedicados a ela. Além disso, o desfecho do curto arco da gravidez dela mostra uma consistência monstruosa de Carter Bays e Craig Thomas, que parecem ter total controle sobre sua narrativa, evitando criar momentos que o espectador possa chamar de incoerentes. Por isso, é correto dizer que, se a dupla de roteiristas não possui a história toda planejada, eles sabem exatamente o que estão fazendo no momento em que tomam determinada decisão.
Mesmo sem focar-se no humor como de costume, é inegável que Symphony of Illumination tenha seus momentos hilários, como na precisa descrição de Robin sobre a reação de cada personagem a uma má notícia. Mas sem dúvidas é Marshall que consegue se destacar nesse aspecto. Adotando, como de costume, uma postura inocente e adorável para o personagem, o roteiro retrata a relação dele com Scott de maneira deliciosamente agradável, fazendo o espectador rir com situações como o garoto ameaçando o Mr. E de acusa-lo de pedofilia, ou pedindo a Lily para mandar uma foto com seus seios a mostra.
Além disso, o episódio ainda aproveita para destacar pontos importantes de seus personagens, e desenvolvê-los de maneira apropriada. Barney, por exemplo, mais uma vez dá um passo rumo a uma vida mais tranquila, tendo uma reação inusitada à possibilidade de ter um filho. Aliás, o roteiro tem explorado a evolução dele de maneira precisa, evitando que o personagem mude de maneira excessivamente repentina, como na quarta temporada. Assim, quando ele finalmente juntar-se a Robin (ainda acredito nessa possibilidade), o resultado poderá ser mais produtivo, graças a um trabalho mais apropriado do roteiro.
Mas é Ted quem recebe o grande destaque. Mesmo aparecendo relativamente pouco, e não participando de nenhuma história de maneira concreta, é a ele que os roteiristas dão a missão de encerrar HIMYM em 2011. Procurando dar um maior enfoque na força da amizade entre Ted e Robin (algo natural para uma série que caminha para seu final), é interessante ver como ela rejeita o amigo em um primeiro momento, procurando ficar sozinha diante da sempre explorada carência dele. Mas, a série acerta em cheio ao encerrar Symphony of Illumination refutando essa tese, em um catártico momento ao som de Highway to Hell, do AC/DC, abordando de maneira brilhante o relacionamento entre os dois amigos.
Assim, How I Met Your Mother coroa uma excelente primeira metade da temporada com um episódio que procura fugir do impacto provocado por The Rebound Girl, investindo em um eficiente apelo emocional, que funciona por conta da identificação do espectador com o grupo de amigos. Mesmo não sendo o melhor da temporada, cumpre sua função de maneira extremamente eficaz, deixando o público ansioso pela continuação dessa história, em janeiro.













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