A esperada Dança dos Dragões finalmente começa… embalada por um bocado de ratos.
No início desse mês de Junho o showrunner Ryan Condal anunciou que House of the Dragon teria uma nova sequência de abertura. Segundo ele, a necessidade de fazê-lo veio da exigência de expandir os significados – a primeira abertura mostrava apenas a árvore genealógica da família Targaryen. As razões, contudo, soam mais estéticas que práticas, já que desde o primeiro episódio ficou claro que aquele conceito fechado e escuro não funcionava bem para a produção.
A abertura de Game of Thrones era unânime. Em uma das edições da CCXP em que estive, anos atrás, eles apresentaram uma versão presencial, em uma mesa com hologramas, daquela deslumbrante abertura… e a experiência foi catártica. Aquele era um nível de excelência que enquadrava tudo: ideia, execução, inspiração…Seria absolutamente ridículo esperar que o spinoff alcançasse esse mesmo êxito ou até mesmo que usasse a mesma ideia de abertura. Por mais tênue que pareça a linha que separa os dois produtos, ela existe.
A primeira evidência dessa separação está no ritmo das coisas. O trabalho de Ryan Condal e Miguel Sapochnik na primeira temporada era quase frenético. O interesse da HBO sempre foi o de mostrar apenas os eventos da Dança dos Dragões, mas foi necessário preparar o terreno; e ao invés de adiar passagens de tempo que preenchessem temporadas, eles não se intimidaram e entregaram tudo que compreendia os anos pré-dança em apenas 10 episódios.
E adaptar House of the Dragon não é fácil… O livro de onde se originou a série é complexo justamente porque não tem uma narrativa determinante. Todo o imbróglio com a família Targaryen é contado por terceiros e ninguém sabe o que de fato aconteceu. Ryan e Miguel (que saiu do cargo) tomaram a decisão de usar a série como ilustração do que, então, teria realmente acontecido; o que é, enfim, excitante e preocupante na mesma medida. O entrelace dos Targaryen tem fios suficientes para tecer o tapete do universo.
E é aí que essa nova abertura quer chegar… A tapeçaria é uma técnica que usa dois fios de fibras flexíveis diferentes para – a partir do entrelace deles – formar figuras distinguíveis. É uma ideia muito boa, já que entre os Targaryens, a união de descendentes é tão forte quanto a voracidade com que eles tramam a própria desgraça. Essa estreia, inclusive, fortaleceu esse traço e apresentou um episódio bem estruturado no que une e separa os dois novos regentes.
Two Crowns
A situação está assim:
Os VERDES acreditam na soberania de Aegon II como Rei. Ele é filho do Rei anterior, Viserys, com Alicent. Ele não deveria ter sido coroado, já que Rhaenyra era a descendente direta mais velha de Viserys. Mas, por causa da ridícula interpretação do pedido de Viserys no leito de morte, Alicent se voltou contra a enteada e quis coroar o próprio filho. Ao seu lado ela tem os outros rebentos, além de Criston, Larys e o próprio pai Otto, como principais forças de apoio.
Já os PRETOS acreditam na linha de sucessão clássica, em que Rhaenyra ocupa essa posição por ser a filha mais velha do antigo Rei. Rhaenyra foi anunciada como Rainha, mas teve sua coroa invalidada pela madrasta Alicent, que acha estar atendendo o último pedido do marido morto. Rhaenyra casou com o próprio tio, Daemon, e o tem como principal aliado. Junto dele estão Lorde Corlys, Rhaenys e os próprios filhos de Rhaenyra, tanto do casamento com Daemon quanto do primeiro casamento, com Laenor Velaryon. A treta começou, inclusive, porque os filhos de Rhaenyra com ele eram, CLARAMENTE, bastardos.
Tudo até que poderia se resolver… se o dragão de Aemond (filho de Alicent), não tivesse comido o dragão de um dos bastardos de Rhaenyra… (com o bastardo junto). Foi esse o evento catalisador que fez com que a “Dança” começasse; que fez com que qualquer chance de trégua ou disputa justa fosse a pauta do conflito. A partir dali, a vingança se tornou a única maneira viável de resposta.
Ryan Condal tomou a decisão de não evidenciar para os espectadores qual foi a versão que Aemond deu dos fatos; se ele fez seu dragão comer o filho de Rhaenyra ou se tudo foi um acidente. Alicent chega a comentar sobre ter enviado cartas, mas não ter sido respondida, o que aumenta a hipótese de Aemond ter contado as coisas como elas aconteceram.
O primeiro episódio dessa nova temporada se chama “A son for a son” (um filho por um filho) por muito mais do que só o que aconteceu na última sequência. A gente não pode se esquecer que Rhaenyra e Aegon II são meio-irmãos. Ambos são filhos de Viserys e agora reinam concomitantemente, deixando vulneráveis, justamente, os seus próprios filhos. É por isso que uma guerra é sempre tão tenebrosa; porque a grande maioria das perdas inclui inocentes que não sabem porque estão morrendo, enquanto os protagonistas permanecem protegidos pelas táticas de dominação de ambos os grupos.
Foi bom ver que essa estreia também organizou melhor o episódio. Na primeira temporada, a pressa para chegar até o início da “Dança” por vezes bagunçou a estrutura narrativa. O roteiro desse primeiro episódio se dividiu bem entre mostrar Rhaenyra e Aegon II sendo apresentados como regentes; assim como em mostrar como os aliados dos dois estão se distribuindo.
Isso é importante, porque as melhorias em torno de House of the Dragon não poderiam ser somente técnicas. Ainda precisamos que a tal “noite americana” seja banida do mercado para sempre, mas ao menos os efeitos especiais com os dragões também mostraram mais polidez (com direito a uma inesperada cena de Rhaenyra descendo do seu). A melhor organização dos acontecimentos também ajuda a fazer com que as grandes viradas tenham mais sentido para a trama e mais impacto para os espectadores.
Outro bom exemplo disso foi a inserção de Alyn e Hugh durante o episódio. Alyn apareceu em uma cena com Lorde Corlys, no porto. Hugh apareceu como um dos que foram até o Rei Aegon II para uma audiência. Estão cada um de um lado, mas com uma coisa em comum: eles provavelmente estão sendo apresentados para compor o contingente que montará dragões ainda não reclamados; e que precisarão aparecer nos momentos mais críticos da “Dança”. Alyn é um possível filho bastardo de Corlys e Hugh é o ferreiro de Porto Real. A gente sabe que dragões não se deixam montar por qualquer um, mas, ao mesmo tempo, também sabemos que os Targaryens vão se tornando mais e mais escassos em Westeros. Novos montadores serão essenciais para essa guerra.

Sangue e Queijo
Esse primeiro episódio tinha duas grandes promessas de fan service: a chegada de Jacaerys (filho bastardo sobrevivente de Rhaenyra) em Winterfell e o arco que os fãs do livro conhecem como Sangue e Queijo. O encontro de Jacaerys e Cregan Stark foi apenas isso mesmo: uma oportunidade de revermos a muralha de gelo que anos depois seria destruída pelo primeiro dragão-zumbi da história daquele mundo. A amizade entre Jacaerys e Cregan também foi contada de maneiras conflitantes no livro; e só nos resta esperar para saber qual possibilidade o showrunner vai desenvolver.
E enquanto Alicent resiste a ter uma relação carnal com Criston (o que não surpreende ninguém), a morte do filho de Rhaenyra a devastou em todas as frentes. É do desejo de se vingar querendo a cabeça de Aemond que surge o plano de Daemon de enviar alguém para dentro do castelo para dar cabo do serviço.
É aqui, então, que a estreia da segunda temporada encontra seu ponto de fragilidade. Talvez tivesse sido bom para os planos da adaptação, dar mais tempo de tela para Helaena Targaryen e seus filhos. Na primeira temporada ela quase não apareceu e apesar da cena premonitória em que ela diz ter medo de ratos, sua presença nessa estreia foi discreta e insuficiente para que construíssemos qualquer relação emocional que fizesse diferença na hora de acompanhar seu destino.
Além disso, a sequência final se divide entre dois tipos de espectadores: aqueles que não conhecem o material original e por isso desfrutaram da sequência de um jeito; e os que conhecem e sabem que a série minimizou bastante o impacto da cena. “Sangue e Queijo” (os nomes dos dois assassinos) é descrito no livro como a coisa mais horrível que aconteceu na Dança dos Dragões. Mas, como com tudo que é contado no livro, foi contado por gente que não viu a desgraça acontecer.
Sendo assim, o que a série fez foi contar uma “verdade” a respeito do acontecimento, que inclui semelhanças fortes com o que foi descrito no livro, mas que se mantém “pé no chão”, sem o exagero sensacionalista que costuma revestir qualquer história quando ela é passada adiante por estranhos. A série foi cuidadosa (mesmo porque seria impossível mostrar uma criança passando pelo que o livro descreve), mas também acabou sendo anticlimática.
(Se você quiser saber como aconteceu no livro, é só conferir o apêndice no final desse texto)
Mesmo assim, ainda que anticlimática, a morte do pequeno Jaehaerys vai deixar as coisas muito piores. E sendo muito justo… foi um bom final para uma estreia tão esperada. Foi mais um evento catalisador, que reafirma a destruição dos entrelaces, como numa premissa batida e cansada, em que todo mundo sabe que o fim é a morte e mesmo assim ninguém para. Mesmo cientes, os Targaryens permanecem consistentes.
E aí? Qual seu lado? É o Verde ou o Preto?
Corações de Dragão (com a voz do Miguel Falabella):
<3 E o Larys, que matou o irmão e o pai para trazer Otto de volta… e agora trama um jeito de mandar Otto pra escanteio.
<3 Aliás, Otto não vai durar como Mão daquele jeito. Aegon II vai mandar pastar já já.
<3 Ainda me desnorteia um pouco ver Alicent como uma avó. Olivia Cooke era uma menina carregando um tubo de oxigênio outro dia, em Bates Motel. E tem somente 30 anos de idade. A gente sabe que não é impossível, mas é puxado.
<3 A cena em que Aegon II ordena que Tyland sirva de montaria para o pequeno Jaeharys foi só pra gente marcar na cabeça assim: ah, esse é o Jaehaerys.
<3 Agora, se NÃO quiser saber como foi Sangue e Queijo no livro, FUJA PARA AS COLINAS.
Pra começar as diferenças, Sangue e Queijo entram no castelo pelos túneis e vão parar direto no quarto de Alicent. Lá estão só ela e sua camareira. Os dois rendem Alicent e estrangulam a camareira.
Helaena costumava levar os filhos todas as noites para darem um beijo na avó e é assim que ela acaba se deparando com os assassinos. Sangue e Queijo matam o guarda que está com ela, empurram a menina Jaehaera para longe e ficam um com Jaehaerys e outro com Maelor.
Inicialmente Alicent tenta negociar com eles, mas eles se recusam. A famosa frase “um filho por um filho” é dita para Alicent quando ela pergunta o que eles foram fazer ali. Eles também dizem que foram cobrar uma dívida.
A pergunta que eles fazem para Helaena na série também existe no livro: eles querem que ela escolha um dos meninos para morrer, do contrário eles estuprarão a menina. Depois de hesitar, Helaena escolhe Maelor, o menor. Os assassinos zombam da situação reforçando para o garoto que a mãe dele não se importa com sua vida. Mas, apesar dela ter escolhido Maelor, eles matam Jaehaerys, arrancando sua cabeça com um só golpe.
É com a cabeça do garoto nas mãos que eles fogem do castelo. E tem mais coisa pela frente, mas ainda não sabemos se a série vai mostrar.
Agora, diz aí: qual a versão que você prefere? A da série ou a do livro?













