Em um esforço mais do que perceptível para restaurar a popularidade que Doctor Who perdeu nos últimos anos, a BBC fez uma jogada curiosa: trouxe Russel T. Davies de volta ao comando da série e ao invés de seguir direto com as aventuras da encarnação representada por Ncuti Gatwa (Sex Education), houve a decisão de trazer de volta dois atores extremamente populares na história do show. David Tennant (vivendo uma nova encarnação do Doctor) e Catherine Tate (reprisando o papel de Donna Noble) revivem a icônica parceria que fez sucesso há 15 anos em um esforço de resgatar os antigos fãs que deixaram de acompanhar o programa ao longo da era Chibnall ao mesmo tempo em que busca atrair uma nova leva de espectadores apostando no carisma e química inigualável que a dupla exala.
Por mais que “The Star Beast” faça parte da comemoração de sessenta anos de Doctor Who, o episódio não parece fazer jus à grandiosidade que a data representa. Diferente de “The Day of The Doctor”, que comemorava a surpreendente marca de cinquenta anos, essa primeira parte das festividades de seis décadas não se mostra muito interessada em celebrar o legado da série. O que vemos aqui poderia ser enquadrado mais como uma história de transição, uma forma de preparar o terreno para a nova era e resgatar uma sensação de familiaridade que muitos afirmam ter sido perdida nos últimos anos.
A história é mais focada em revisitar rostos conhecidos e entender como suas vidas mudaram desde o último encontro entre eles. Assim vemos um Tennant viver uma versão mais madura e calejada do Time Lord, com diferenças sutis que podem ser percebidas no andar e na forma como ele observa o que acontece ao seu redor, enquanto Tate revive toda a acidez e humor que fizeram de Donna (agora mais responsável e empática) uma das personagens mais populares da franquia. A forma como esses dois se complementam em cena é um deleite de se ver e isso ajuda a deixar que certos didatismos e exposições repetitivas presentes no texto não fiquem tão maçantes.

Tramas familiares sempre foram pontos importantes na construção dos personagens que Davies introduziu ao show e esse é o fio condutor do episódio. Donna se tornou uma mãe extremamente acolhedora e compreensiva para Rose (Yasmin Finney), muito diferente da forma que era tratada por Sylvia (Jacqueline King). E é nessa relação entre mãe e filha que Davies encontrou uma forma de reverter o final trágico que Donna teve ao término da quarta temporada. Ao se fundir com o DNA de Time Lord, Donna precisou ter todas as suas memórias relacionadas ao Doctor apagadas para que ela pudesse permanecer viva. A ideia de relacionar a não-binaridade de Rose com a forma de gênero fluído dos Time Lords para resolver a situação na qual Donna se encontra é bem interessante, mas a forma como o desfecho acontece é extremamente decepcionante. A cena se constrói de forma artificial, com um diálogo estranho e se resolve com um simples “deixar ir” (“let it go” no original). A impressão que fica é a que essa cena foi construída em cima da hora apenas para preencher um espaço de tempo.
A parte técnica chama a atenção por trazer uma mistura de estilos que beneficia a ambientação do episódio. Temos claramente um aumento de verba disponível e graças a isso somos capazes de presenciar o pequeno Beep, The Meep ser trazido à vida pela primeira vez na mídia televisa (o pequeno monstro peludo é um personagem clássico das HQs de Doctor Who) de uma forma muito realista, em um misto de efeitos práticos e computação gráfica. Do outro lado temos os Wrarth Warriors com uma estética mais simplista, lembrando muito a forma e a caracterização que os monstros recebiam na época na qual a série contava com um orçamento mais “modesto”. É quase como um meio que Davies encontrou para mostrar que as raízes da série ainda estão presentes.
Talvez a expectativa em torno desse especial fosse muito grande e isso possa explicar um pouco a sensação de que “faltou algo” no produto final. Ainda assim “The Star Beast” fica em uma posição longe de ser considerado um episódio ruim. Poderia ser mais polido e audacioso? Claro, mas se considerarmos que ele faz parte de uma história em três partes pode ser uma maneira de introduzir e trabalhar certos conceitos e personagens para o possível ápice que venha acontecer no episódio final. Por enquanto ficaremos na expectativa de saber como o veterano Davies conduzirá essa nova era de Doctor Who.















