Episódios de regeneração são, na sua grande maioria, marcos dentro da lore de Doctor Who. São momentos em que vemos o encerramento da jornada da encarnação atual do personagem título, trazendo consigo questões existenciais e dramáticas que permearam toda a sua existência até ali. E na série moderna essas despedidas ganham um fator emocional e dramático muito mais apurado do que aquele que havia durante a fase Clássica do show.
No mundo das artes existe um termo conhecido como “catarse”, que se refere ao momento em que o espectador libera as emoções que estavam sendo acumuladas durante a apreciação de determinado espetáculo. Simplificando: quando você chora ao ver a morte de personagem querido ou de um cãozinho em um filme, você está presenciando uma catarse. O sentimento que esse acontecimento causa é tão forte que é quase impossível conter a emoção que isso cria dentro de você. As regenerações de Doctor Who são, em maior ou menor grau, momentos catárticos.
Acontece que para que essa catarse aconteça é necessário que você, como espectador, se identifique com aquilo que está sendo contado. É preciso criar um clima de urgência para despertar ansiedade, uma atmosfera de perigo para gerar medo ou uma ambientação pacífica para trazer o relaxamento. E nesse sentido é necessário que exista uma boa história.
“The Power Of The Doctor” serve muito mais como uma forma que Chris Chibnall encontrou para referenciar as suas próprias criações dentro da série, somando a isso uma homenagem a Doctor Who em geral, devido as comemorações relacionadas com o centenário da própria BBC do que de fato fazer um estudo mais aprofundado da própria Doutora. A personagem defendida por Jodie Whitakker tem a sua importância diluída dentro do seu derradeiro episódio, sendo sufocada por uma infinidade de referências e fanservice que pipocam na tela a cada minuto. Não me entendam mal, eu gosto do carinho com que velhos personagens são tratados nesse episódio, mas existe um excesso que acaba prejudicando a história.
Será que era realmente necessário o retorno de Vinder? O personagem não teve real importância durante o evento Flux e volta para fazer absolutamente nada. Ou o reforço de imagem que existe em cima da Ace? Já conhecemos a personagem e é ótimo vê-la de volta, mas o roteiro precisa colocar a Ace com a sua jaqueta icônica. E seu bastão de baseball. E espancando um Dalek. E usando Nitro9 para explodir tudo (é o famoso bolo de chocolate, com calda de chocolate, cobertura de chocolate e recheio de chocolate). É quase como se Chibnall não soubesse como escrever uma versão mais madura da personagem (e que está em outro momento da vida) sem copiar aquilo que existia na série Clássica.

Essa dificuldade em conseguir separar os elementos realmente indispensáveis daqueles que não agregam relevância alguma acaba impactando o desenvolvimento da Doutora. Ela ainda sofre com uma decisão horrível ao ser retirada da história por uma parte considerável de tempo, sendo substituída por versões holográficas extremamente energéticas que no final não contribuem para sua evolução. Essa é uma saída que serve para cobrir um problema de estruturação que já havia dados as caras em Flux: na tentativa de criar um cenário épico, Chibnall separa a ação em inúmeras frentes e precisa que a Doutora esteja presente em todas elas para conseguir resolver o problema, dessa forma surge um artifício de roteiro que cobre essa necessidade, mas que acaba expondo outros pontos.
Esse por sinal não é o único problema de roteiro existente. Várias outras questões surgem quando analisadas mais friamente como, por exemplo, a falta de lógica dentro do plano do Mestre. É difícil de encontrar uma justificativa do motivo que fez com que o plano da regeneração forçada fosse posto em prática e como os Cybermen e os Daleks aceitaram fazer parte de toda essa loucura. Mesmo assim, é preciso ressaltar o trabalho impecável feito por Sacha Dhawan. Ele está simplesmente monstruoso em cena e consegue elevar a potência do material que lhe foi dado, uma tarefa árdua e que muitos atores não conseguem cumprir.
Outro ponto que me incomoda é a saída precoce de Dan, logo no início do episódio. Embora a justificativa para isso seja extremamente palpável, ela acaba me passando a sensação que o showrunner não sabia como incluí-lo nas cenas que antecedem a regeneração da Doutora. Nós sabemos da relação existente entre a Doutora e a Yaz e que isso precisaria ser finalizado, logo a presença dele poderia atrapalhar esse momento íntimo entre as duas, mas também não faria sentido que o companion mais atual desaparecesse em uma simples transição de cena como aconteceu com todos os demais personagens. É como se “precisássemos resolver essa questão o mais rápido possível, para não nos preocuparmos com ela mais para frente”.
E já que chegamos nesse ponto, vamos falar sobre o enorme elefante na sala: a regeneração. Deixando de lado todos os pontos envolvendo a falta de desenvolvimento que afligiram a Doutora, todas as escolhas que dificultaram um apego emocional maior a essa personagem, é inconcebível que em um dos momentos mais importantes ela acabe sendo jogada de escanteio. O retorno de David Tennant acaba eclipsando por completo qualquer resquício de dignidade que esse momento poderia ter. Eu adoro o trabalho feito por ele, sua versão do Doutor é uma das minhas favoritas e é obvio que existe uma decisão burocrática por parte dos chefões para esse retorno, devido a motivos que todos nós podemos imaginar, mas é algo que acaba por ser desrespeitoso em vários níveis.
A jornada protagonizada por Jodie Whitakker pode não ter sido das melhores, mas isso não é culpa dela. A sua entrada nesse universo, dando vida ao personagem título é histórica e existe ali um peso gigante, mas parece que os executivos não ligam para esse fato. Nem mesmo o próprio showrunner parece reconhecer isso, pois mesmo sabendo o que viria a seguir, não conseguiu criar um momento que, mesmo derradeiro, fosse marcante. A despedida da atriz ficará esquecida, já que tudo o que será discutido daqui para frente serão teorias sobre o que o retorno do Décimo Doutor representa. Faltou um cuidado maior, uma representação sobre como uma das encarnações mais solares, mas ao mesmo tempo mais introspectivas se sentia diante de uma situação tão traumática como a regeneração ou um momento de reflexão que fizesse com que a nossa imersão na história fosse bem sucedida, mas é tudo muito raso.
A saída de Jodie Whitakker é visualmente linda, mas emocionalmente vazia.
E essa é uma boa forma de resumir a Era Chibnall como um todo.














