“(…) Respeito a opinião das pessoas. Sei que há pessoas que compreendem o que aconteceu e pessoas que me abominam, que me julgam. E tudo bem. É a opinião delas. (…)” – MATSUNAGA, Elize.
A pandemia do novo Coronavírus mudou significativamente o rumo de diversas empresas e, claro, no que diz respeito ao contexto da teledramaturgia, não seria diferente. Gravações interrompidas, elenco sendo testado semanalmente e preparação de forma on-line foram as várias medidas adotadas para tentar seguir em frente. Apesar disso, houve positivamente, no Brasil, a ascensão do true crime, que, em tradução livre, significa “crime real, verdadeiro”, em virtude de famosos podcasts, conteúdos em áudio – muito baixados, ultimamente -, que narram crimes famosos, sejam os nacionais, sejam os internacionais.
Nesse sentido, podemos citar como exemplo a minissérie Tiger King (2020), da Netflix, mais conhecida como A Máfia dos Tigres. Ela conta a história real de Joseph Maldonado, o famoso “Joe Exotic”, dono de um zoológico de tigres, localizado no estado de Oklahoma, nos Estados Unidos da América (EUA). Sua vida muda quando a ativista Carole Baskin ameaça os seus negócios e, a partir disso, figuras excêntricas e crimes são contados no documentário, em diversos ângulos, inclusive. Segundo uma notícia publicada aqui, no Série Maníacos, cerca de 34 milhões de pessoas assistiram ao seriado, apenas dez (10) dias após o seu lançamento, em março do ano passado.
Mais recentemente, o Globoplay lançou O Caso Evandro, que conta o que ocorreu com Evandro Ramos Caetano, garoto que desapareceu em 1992, na cidade de Guaratuba – litoral do estado do Paraná -, com o seu corpo encontrado em condições desumanas em um matagal. Foram sete (7) acusados, sendo todos inocentes, inclusive as “Bruxas de Guaratuba”, Celina e Beatriz Abagge – esposa e filha, respectivamente, do então prefeito da cidade, Aldo Abagge – condenadas por terem matado Evandro, em um dos julgamentos. O sucesso foi tão grande que a plataforma de streaming da Rede Globo, lançou um episódio extra, tendo nele o depoimento de Osvaldo Marceneiro, um dos inocentes torturados.

Diante da positiva repercussão, é claro que as plataformas digitais não iriam perder a oportunidade de investir no ramo, não é mesmo?! A “gigante do streaming”, Netflix, por exemplo, lançou – em quatro episódios em sua primeira temporada – a série documental Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime, com direção de Eliza Capai (Espero Tua (Re)Volta). O contexto é em torno do crime intitulado para o mundo – em 2012 – como o “Caso Yoki”, no qual Marcos Kitano Matsunaga, herdeiro de uma das empresas de alimentos mais conhecidas do país, a Yoki, foi morto e esquartejado, isto é, cortado em várias partes, pela própria esposa, no dia 20 de maio daquele ano. Evidentemente que, na época, a barbárie chocou o país e a repercussão foi colossal. E desde a divulgação do novo seriado, a expectativa sobre como esse fato triste iria ser re(contado) estava em alta entre os aficionados por esse tipo de produção. Contudo, a docussérie deixou a desejar, e muito. Vamos de Crítica?
É evidente que o sucesso de seriados de “crimes verdadeiros” está no fato em como a história é mostrada ao telespectador, afinal de contas, a grande maioria da população já sabe os desdobramentos. Logo, é de fundamental relevância destacar o caminho até o final, pois muitos, assim como quem vos escreve este texto, acreditam que o segredo está nos detalhes da jornada, e não na chegada final em si. Pois bem, no caso de Elize Araújo Kitano Matsunaga, a expectativa era em torno de seu depoimento, uma vez que era a primeira vez que ela falaria sobre o crime, em público, desde o dia em que foi presa. Entretanto, a revisitação ao seu passado criminoso, apesar da tentativa de humanização da Netflix, além de não ter causado qualquer empatia para com ela, não mostrou algo diferente da repercussão midiática dos telejornais da época, como o SBT, a Record, a Band e a Rede Globo, emissoras mostradas em vários momentos ao longo das cenas.
Todavia, para quem não se lembra do caso ou, até mesmo, para quem não o conhece é,sim, uma experiência interessante, pois o fator curiosidade é aguçado. O que leva uma mulher a não só matar, como, também, esquartejar o corpo do próprio companheiro? E aqui vai o meu primeiro estranhamento em relação ao que foi falado por ela: como assim Elize não entende o motivo pelo qual o caso teve tamanha divulgação? Chega a ser um tanto “inocente” da parte dela, para não dizer estranho, afinal de contas não é nada normal pessoas serem decepadas e jogadas no mato, não. Ah, e detalhe: na época do crime, a empresa estava sendo vendida por cerca de R$2 bilhões de reais, ou seja, somente tal transação financeira já chamava a atenção, seja de grandes empresários, seja da sociedade. E embora o título de “monstra” tenha sido retirado, com a desconstrução da cobertura sensacionalista da imprensa da época, ficou faltando algo importante, a pergunta que não quer calar: quais foram as reais motivações de Elize Matsunaga diante de um crime tão bárbaro? Por que ela o esquartejou? O seriado deixou pinceladas/indícios de vários ângulos, mas responder, de fato, não responde, nem ele, nem a própria Elize Matsunaga: completamente fria, apesar do choro incessante. Desse modo, infelizmente, isso fez com que o público criasse a sua própria interpretação diante de tal história perversa.

Além disso, o fator barbárie chocou os brasileiros, porque a frieza em colocar os membros do corpo em malas e, posteriormente, deixá-los em sacos em uma estrada, chamou e continua chamando a atenção dos cidadãos. E por mais que Marcos tenha tido os seus comportamentos questionáveis, como a traição com outra prostituta e as diversas ameaças de interná-la e de tirar a filha de seu convívio, nada – absolutamente nada – justifica o que ela fez com ele: ninguém merece tamanha atrocidade. Foi cruel e desumano! Ele pode a ter enganado com uma “vida de princesa”, tirando-a do contexto da prostitução, oferecendo-lhe tudo o que quisesse, a tempo e a hora. Entretanto, ela tinha “tudo”, mas não tinha “nada”: cadê a confiança entre o casal? Pelo que foi mostrado, tal sentimento foi se dissipando aos poucos, em um relacionamento tóxico e conturbado, repleto de brigas atrás de brigas. Logo, em um tiro fatal, Elize, de dentro do apartamento em que moravam, na Vila Leopoldina, na zona oeste da cidade de São Paulo (SP), assassina o seu cônjuge, sem direito à defesa.
Em razão de seus atos brutais e horrendos, ela foi condenada à 19 anos, 11 meses e 1 dia de prisão, em regime semiaberto. Todavia, apesar da reclusão, como todo preso “merece”, em razão das Leis Brasileiras, ela fez a sua primeira “saidinha” do presídio, em 2019. Muitos concordam, outros discordam, mas, se o preso apresenta bom comportamento e trabalho no local onde ele está recluso, juntamente ao seu regime ser progredido para o semiaberto, o detento terá esse direito concedido por um juiz. É Lei, ou seja, deve ser cumprida. Elize, então, ao lado de sua advogada, Juliana Fincatti Santoro, vai ao encontro de sua tia, Roseli de Araújo, e, depois, recebe a visita de sua avó, Maria, duas familiares que não desistiram da moça, nem por um minuto. Em meio a isso, dentre os diversos depoimentos apresentados, desde advogados até jornalistas, somos ambientados a duas versões: ou ela cometeu o “golpe do baú”, isto é, queria ficar com toda a herança, matando, assim, o seu parceiro, ou, na versão de seus defensores, ela foi motivada pela emoção, pelo ciúmes do momento.
“E agora, José?” Em qual versão os telespectadores vão acreditar? Será que ela conseguirá sensibilizar as pessoas? Seria a sua facilidade em caçar animais que a ajudou a cometer o crime? Ou será a sua experiência como enfermeira de centro cirúrgico? Foi ou não premeditado? Ah, não posso me esquecer: será que teve um cúmplice? Fica difícil “escolher” um lado, porque ambos não foram aprofundados suficientemente para que tenhamos uma conclusão palpável. É claro que a Justiça Brasileira é a única que tem o poder de acusar ou de inocentar alguém por um crime, e isso foi feito em 2016, com a condenação de Elize. Mas eu acredito que o fato de a temporada ter tido somente quatro (4) episódios, de 50 minutos, cada, atrapalhou o seu desenrolar. Poderia ter tido mais dois (2) a quatro (4) episódios, de modo a aprofundar o caso, aumentando os seus detalhes e os seus depoimentos. É claro que a série – produzida pela Boutique Filmes – apresenta um material honesto, sem qualquer indício de sensacionalismo diante de um fato tão sério, com belas cenas e um roteiro coeso de Diana Golts (The Last Defense). Eliza, portanto, não despertou comoção, tampouco estimulou empatia.

Por tudo o que foi revelado, Elize não se sentiu à vontade em dizer todos os detalhes, afinal de contas, ela deseja – um dia – contar isso à sua filha, que está atualmente sob a guarda dos avós paternos. Isso ocorreu, pois, assim que ela foi presa, Elize perdeu a guarda da filha e não pode exigir o direito de visitas da menina à Penitenciária Feminina I de Tremembé (SP), por exemplo. Ela tem esse direito, sim, longe de mim duvidar do amor de uma mãe para com uma criança que saiu de seu ventre, jamais. Ela tem o direito de conviver com a filha, uma vez que Elize já está pagando pelos seus atos – todo mundo merece uma redenção – e tomara que um juiz revise o pedido de visitas. Apenas questiono a falta de maiores minúcias do caso que não nos foram apresentadas, caso das reais motivações, apesar de conhecermos a sua origem humilde, no interior, e as dificuldades ao longo de sua vida até o seu atual momento.
“Ainda não sei dizer que tipo de emoção fez eu apertar aquele gatilho.” – MATSUNAGA, Elize.
Enfim, a Netflix arriscou em reviver o caso e mostrar um lado mais humano de Elize. Em contrapartida, nós, como telespectadores, devemos ter em mente o cuidado de não esquecer de que se trata de um crime bárbaro e assustador. Marcos pode ter sido um homem com convicções e comportamentos desrespeitosos, mas ele foi a vítima, enquanto Elisa, a assassina. É realidade, e não ficção!
OBSERVAÇÕES:
p.s.01: É pertinente o questionamento feito por Elize no final se o crime tivesse sido invertido: Marcos como réu e ela, assassinada. Por que a mídia sempre dá destaque ao público feminino quando ele comete algum crime, mas quando elas são as vítimas, todo mundo silencia? Vale a reflexão!;
p.s.02: Seguindo essa linha de raciocínio, foi triste saber que Elize foi abusada sexualmente no começo de sua adolescência em Chopinzinho, no interior do Paraná. Isso – tristemente – ainda está acontecendo no país, sejam com meninas, sejam com meninos;
p.s.03: Não conhecia a origem da palavra “penitenciária”, tampouco eu sabia sobre a sua ligação com a Igreja Católica. Interessante, né?!;
p.s.04: Arsenal de armas, de vinhos e de charutos cubanos, com a presença, até mesmo, de uma cobra de estimação. Uma família realmente excêntrica e misteriosa, hein?!;
p.s.05: Emocionante foi o reencontro de Elize com a sua avó. Família é tudo nas nossas vidas;
p.s.06: Alguém me explica, por gentileza, nos comentários, por qual motivo ela ficou andando de vestido preto pelo matagal? Não entendi bulhufas;














