“As personagens desta série são fictícias. Os fatos aconteceram realmente”. – Aviso Prévio 01, mostrado logo no início de todos os episódios.
Desumana. Perversa. Pavorosa. Essas são uma das várias adjetivações dadas ao Hospital Colônia de Barbacena – HCB (1903-1980) – localizado no estado de Minas Gerais (MG) – após a leitura do best-seller livro-reportagem – “Holocausto Brasileiro: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil” (2013), da autora Daniela Arbex (Todo Dia a Mesma Noite: a história não contada da Boate Kiss), voltada para o ramo do jornalismo investigativo, em prol aos Direitos Humanos. A obra, em forma de denúncia, agora, é recontada em uma série ficcional, intitulada Colônia, original do Canal Brasil, em parceria com a Sombumbo Filmes e com a TC Filmes, em coprodução com a Gullane Entretenimento.
Livremente inspirada na obra citada, juntamente a diversos registros históricos, o novo seriado, que também pode receber os mesmos adjetivos que abriram as minhas Primeiras Impressões, tem como objetivo – primordial – mostrar a violência exacerbada e a falta de humanidade para com as pessoas que foram enviadas ao HCB. De tão degradante e negativo, o município de Barbacena ficou conhecido como a “Cidade dos Loucos” pelo médico e escritor João Guimarães Rosa (1908-1967), em seu conto “Sorôco, sua mãe, sua filha”, de 1947. Hoje, o endereço do HCB dá espaço ao Museu da Loucura, inaugurado em 1996, de forma a registrar essa memória genocida, em que os sobreviventes recebem indenização do Estado, inclusive.
O primeiro episódio – exibido anteontem, sexta-feira, dia 25 de junho de 2021, às 21h30, na programação da emissora de canal fechado mencionada -, inicia-se mostrando a história da protagonista: Elisa Casales de Albuquerque (Fernanda Marques de Onde Nascem os Fortes), jovem de 23 anos de idade, que chegou à unidade hospitalar em janeiro de 1971, grávida de quatro meses, em virtude de sua paixão juvenil, com Pedro (Augusto Trainotti de Boca a Boca). O seu pai, Júlio (Henrique Schafer de Treze Dias Longe do Sol) – dono da Fazenda Bambuzal, próximo à Jardinópolis, no interior do estado de São Paulo -, por não aceitar a situação, ordena que o seu funcionário, Benito (Donizeti Mazonas de Onisciente), despachasse a moça à localidade, desfazendo do casamento pré-estabelecido com um rico e velho – de idade – vizinho fazendeiro.

Além disso, os segundos iniciais – e finais, inclusive – apresentaram uma sirene, ao fundo, ensurdecedora, de modo a incomodar o telespectador sobre o que está por vir nas próximas cenas. Esse incômodo é notado desde o embarque de Elisa, no trem, pois, dentro do veículo – nomeado como “trem de doido”, também, por Guimarães Rosa -, pode-se perceber, nitidamente, a falta de humanidade para com os “indesejáveis” de um convívio social, caso de jovens grávidas, de negros, de prostitutas, de homossexuais, de alcoólatras e de tantos outros seres humanos. Vejamos: pessoas amontoadas, lado a lado, um tanto apertadas, com uma delas, até mesmo, vomitando em cima das outras presentes. Isso tudo, sem qualquer tipo de conforto, de circulação de ar ou a existência de comida e de bebida, por exemplo. Eu não sei vocês, leitores, mas me veio à mente outro período tão triste da nossa história nacional: a Escravidão (1550-1888). E, aqui, vale refletir que a sociedade contemporânea, infelizmente, ainda perpetua a banalização de mortes, uma vez que o passado – exemplificado por meio da Escravidão no Brasil Colônia (1500-1815) -, o presente, representado na série – Holocausto Brasileiro (1930-1980) – e o futuro – a pandemia do novo Coronavírus (2020-atual) – contabilizam, de lá pra cá, diariamente, milhares de mortos, concomitantemente sem ninguém se preocupar, tampouco os culpados são condenados por tais barbáries. E olha que se formos parar para pensar, só o número de mortos assusta: em torno de 2,5 milhões de africanos escravos morreram no território nacional, mais de 60 mil indivíduos perderam a vida em Barbacena, no período citado, e, infelizmente, mais de 500 mil brasileiros morreram em virtude das complicações da Covid-19. Logo, os anos passam, entretanto as mortes continuam e se materializam em diferentes configurações. O que estamos fazendo de errado? Por qual razão há um enraizamento da normalização das perdas diárias de vidas humanas? Será que somos tão egoístas a ponto de não nos compadecermos com o sofrimento das milhares de famílias enlutadas, desde as do passado, passando pelas do presente e, pelo visto, drasticamente, com o agravamento das novas variantes do novo Coronavírus, no Brasil, até as do futuro?
De forma a fazer com que continuemos a refletir sobre essa realidade da violência e do sofrimento humano, a série Colônia ambienta o telespectador em uma realidade não muito distante da contemporaneidade. Isso se justifica, porque, entre 1971 e 2021 são apenas 50 anos de intervalo, ou seja, há 5 décadas, era considerado “normal” qualquer tipo de maus-tratos com os indivíduos, como a realização de tortura física e psicológica e, principalmente, o eletrochoque, instrumento utilizado para “curar” os intitulados “doentes mentais”. Será que a maldade humana está incrustada em nosso ser e, por isso, apesar de os anos se perpetuarem, não conseguimos, de fato, acabar com os nossos comportamentos negativos hediondos? Ou seria um comportamento cultural, fazendo com que seja difícil de ser mitigado, em virtude do seu enraizamento social, histórico e comportamental? Até quando vamos continuar apagando vidas atrás de vidas e, assim, contabilizando mortes atrás de mortes? Infelizmente, eu não tenho nenhuma resposta concreta para todos esses questionamentos, porém há uma certeza: até o final da temporada, vamos debater e refletir sobre muitos comportamentos desumanos e repugnantes que nossos antepassados recentes cometeram e, de maneira alguma, tais ações devem voltar ao presente ou, até mesmo, dar prosseguimento ao futuro, de médio e de longo prazo.
Voltemos ao seriado: aos primeiros olhares, o público pode se questionar a respeito do fato de ele ser totalmente gravado em preto e branco, eu acredito. Segundo o criador, André Ristum (O Outro Lado do Paraíso), durante a Coletiva de Imprensa de lançamento da série, ele – em parceria com Marco Dutra (Noturnos) e Rita Glória Curvo (Macabro), que também assinam o roteiro – não conseguia enxergar outro formato de gravação do Colônia, pois “a vida dessas pessoas não tinha nenhum brilho, nenhuma cor, nenhuma luz… Era, de fato, uma coisa monotemática (…), um ambiente mais soturno, desesperançoso. (…) Não consigo imaginar como seria contar ‘Colônia’ colorida. Não consigo enxergar isso. Pra mim, só tinha como ser mesmo em preto e branco, não tinha jeito”, explicou o roteirista. E não tem como não concordar com André, afinal de contas, o preto e o branco conseguiram nos ambientar e nos conectar, de forma ímpar, naquele universo de desesperança, sem vida, sem nada. O episódio, em si, juntamente à abertura, foi bem curto – em torno de 30 minutos – mas ele perpetuou uma trama densa, pertinente e, claro, demasiadamente triste.
“Artigo 5º da Declaração Universal dos Direitos Humanos:
– Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano e degradante.” – Aviso Prévio 02, mostrado logo no início de todos os episódios.

De maneira alguma, Elisa não queria ficar naquele local, justamente por saber que não possui nenhum tipo de patologia psíquica, sendo o seu desespero, a princípio, a sua característica mais marcante. Aproveito o parágrafo para elogiar a bela atuação da intérprete da personagem: Fernanda Marques. De forma delicada em seus trejeitos, ela conseguiu materializar em seu corpo, em seu olhar, todo o começo de um sofrimento que será alimentado diariamente pelos funcionários do Hospital. Elisa, ao se direcionar, em fila indiana, ao “paraíso”, conhece Gilberto (Arlindo Lopes de A Lei do Amor), rapaz homossexual, que foi enviado ao local pela sua mãe, por ela acreditar na “cura gay”, porque, na perspectiva do páraco da cidade em que ele residia, Gilberto estava “doente”, precisando ser “tratado”. Vale lembrar que naquela época, em 1971, apesar de a Declaração Universal dos Direitos Humanos – datada de 1948 – já ser conhecida, a homossexualidade ainda era considerada uma “doença” na percepção da sociedade, que só foi começar a mudar tal visão somente em 1990, com a retirada do termo das lista de doenças internacionais, por intermédio da promulgação da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Gilberto e Elisa, então, começam uma amizade sincera, na tentativa de sobreviverem naquele ambiente inóspito, em que os agressores não deixam os excluídos terem voz, tampouco vez, em seus pedidos. Por conta disso, os já internos do Colônia, olham desconfiados para com os novatos, seja para defenderem por seus espaços, como os seus pertences, seja para não “roubarem” as suas camas, por exemplo. Lá é um verdadeiro purgatório da vida real. Tanto é que muitos moradores andam pelos corredores pelados, em uma vida vazia, na qual o tempo é moroso e a perspectiva de uma possível redenção é praticamente inexistente. É um ciclo vicioso de violência sem fim, inclusive na hora do banho, com aquela mangueira de bombeiros, em um jato forte. A água, com certeza, não é quente e, pela localização da unidade hospitalar, em uma espécie de fazenda muito distante dos grandes centros urbanos, deve ser um tanto frio e gelado os aposentos. Confesso que me deu agonia ao ver e ao ouvir os gritos das mulheres na hora de se lavarem: sem sabonete, sem xampu, só com a água. Tremor de frio e de medo, é evidente que elas sentiram durante esse tipo de tortura velada e vergonhosa.
“(…) Existem dois tipos de internos aqui, no ‘Colônia’: os que ficam tranquilos por conta própria ou por nossa conta. Você vai querer dar trabalho pra gente logo na sua chegada?” – fala do enfermeiro Juraci (Augusto Madeira de A Divisão) à Elisa.
Outro momento em que a violência é escancarada é no atendimento com o médico, o Dr. Carlos (Aury Porto de O Escolhido). Elisa, coitada, só lhe resta obedecer, sem titubear, caso contrário pode sofrer consequências negativas. “Houve um engano. Eu preciso falar com a minha mãe”, disse a moça, várias vezes. Quem iria acreditar em sua palavra, já que lá só há “loucos” atrás de “loucos”? Ainda mais o Dr. Carlos, um mero funcionário do diretor Freitas (Marcelo Laham de A Secretária do Presidente), submisso ao contexto das agressões, tão cultuadas, naquela época, na relação médico-paciente, durante as consultas. Portanto, em um atestado falso, ele conta à Elisa que a sua doença mental é a esquizofrenia e, por isso, o seu encaminhamento médico foi a internação, juntamente ao tratamento. Tal situação configurou uma tremenda injustiça, porque ela, vendendo saúde, não merecia – ninguém merece, vamos combinar – estar naquele local insalubre, desumano e amedrontador.
Por falar no Colônia, lá, os pacientes permanecem boa parte do dia do lado de fora, perto da entrada. Muitos, assentados, cantando. Outros, deitados, vendo o tempo passar, sem perspectiva de vida, de alta, de melhora. Dona Wanda (Rejane Faria de Temporada) e a prostituta Valeska (Andréia Horta de Império) puderam ser vistas perambulando, mas, ainda sem falas naquele lugar nada parecido com o “paraíso”. E, de forma a ser totalmente diferente de um ambiente marcado pelo acolhimento e pelo amparo às pessoas, a produção nos mostrou uma qualidade técnica exuberante, digna de uma fotografia de cinema, diga-se de passagem. A câmera aproximando e se distanciando dos rostos dos personagens fez com que sentíssemos, do outro lado da tela, um pouco da imensa solidão e do desamparo para com os indivíduos internos. Vai me dizer que vocês também não ficaram com vontade de abraçá-los? É muita covardia toda essa maldade, gente!

Portanto, Colônia – gravada na cidade de Campinas (SP), com o hospício reconstituído em um edifício antigo no bairro do Ipiranga, na capital paulista – mostrou a que veio: sensibilizar os telespectadores em uma história que, apesar de ficcional, retrata a brutalidade que aconteceu no verdadeiro “Holocausto Brasileiro”. E uma curiosidade: eu, como mineiro, de Belo Horizonte (MG), capital, já havia, sim, ouvido falar, mas sem profundidade no assunto. Logo, como ser humano, eu me sinto envergonhado por não conhecer essa história, confesso. Vocês, caros leitores, estão convidados para acompanhar os desdobramentos dessa triste estadia desses pacientes no Colônia, por intermédio das minhas reviews semanais. Apesar de ser um convite fora do habitual, a sua realização é pertinente, pois a sociedade precisa ver o sofrimento e, quem sabe um dia, se compadecer e mudar de comportamento, afinal, atualmente, o falecimento de mais de 500 mil vidas perdidas pela Covid-19, por exemplo, não é normal, e sim genocídio! Chorei ao ver Colônia, tanto de raiva, quanto de tristeza!
“Esta série foi inspirada na história do Hospício Colônia. Os eventos e personagens, contudo, foram ficcionais para fins desta série e o nome dos personagens e os personagens por si, a estória, os incidentes e as instituições são fictícios. Nenhuma identificação com pessoas reais, vivas ou mortas é intencional ou deve ser presumida”. – Aviso Final, mostrado logo após a abertura de todos os episódios.
COLÔNIA DE OBSERVAÇÕES:
p.s.:01: A abertura emblemática, com uma trilha instrumental concisa e pertinente, mostrando o Hospital vazio, me remeteu à de Sob Pressão. Se fossem irmãs não pareceriam tanto, né?! Ah, por falar em ambas, por qual motivo será que sempre colocam no final? Se “abertura” significa “abrir”, ela deveria ser colocada no início, e não no final, oras. Vai entender!;
p.s.02: Freitas, em uma ligação em seu escritório, menciona que um jornalista escreveu mais uma matéria, provavelmente sobre o Colônia. Seriam as denúncias? Ele não gostou nenhum pouco, pelo visto;
p.s.03: O seriado parece um filme de terror, de suspense, não é mesmo?! Por isso, e por tantos outros motivos, como os citados acima, ele não é um conteúdo fácil de ser consumido. Colônia incomoda, e muito;
p.s.04: Porém, o que incomoda mais é o fato de essa história do HCB verdadeiro ter sido “esquecida” e ninguém se indignar e falar sobre isso, principalmente nas escolas, afinal de contas, a educação tem um processo de conscientização e de reflexão gigantescos. Historicamente, sempre se falou dos campos de concentração, existentes durante a 2ª Guerra Mundial (1939-1945), lá na Europa. Todavia, aqui, no Brasil, também existiu um campo de concentração, de forma análoga ao citado e que merece ter voz e vez, na historicidade. Os mais de 60 mil mortos merecem ser lembrados e, principalmente, respeitados. Ainda bem que ainda existam pessoas boas que tomaram o primeiro passo: muito obrigado pelo seu trabalho, Daniela Arbex!;
p.s.05: Por falar na Daniela, para quem não a conhece, ela – mineira, da cidade de Juiz de Fora – tem mais de 20 prêmios nacionais e internacionais no currículo, sendo “Holocausto Brasileiro”, por exemplo, eleito o Melhor Livro-Reportagem do Ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), em 2013, e o segundo Melhor Livro-Reportagem no famoso Prêmio Jabuti, em 2014. Já separei a minha listinha de livros-reportagem escritos por ela, que eu quero comprar, obviamente;

p.s.06: Para que deseja conhecer um pouco mais, não só sobre a carreira da jornalista, como, também, o que levou Daniela Arbex a realizar as denúncias, caso da necessidade de resgatar a dignidade dos sobreviventes do HCB, pois, alguém estaria ouvindo os seus relatos, eu indico o podcast chamado Põe na Lista. Nele, pertencente ao portal jornalístico NSC Total, de Santa Catarina – disponível nas diversas plataformas on-line de áudio -, Arbex revela como foi o processo de pesquisa, iniciado em 2011, e de entrevistas dos moradores que culminaram em seu livro de maior sucesso, lançado em 2013;
p.s.07: “A luta antimanicomial é, ainda, atual”. Essa é uma das frases escritas pela minha melhor amiga – Gabriela “Gaby” Pagno – em sua resenha sobre o livro da Arbex. E essa atualidade diz respeito ao aspecto do preconceito velado, pois, a verdadeira “loucura” é deixarmos essa história no passado, sendo que ainda há muito o que entender. Aposto que muitas pessoas desconhecem sobre a importância do Movimento da Luta Antimanicomial, caracterizado por meio da luta pelos direitos das pessoas com sofrimentos mentais, muito menos o significado da palavra “antimanicomial”. E que tal aprender por meio da comparação com um conto de Machado de Assis (1839-1908), hein?! Pagano, em seu perfil oficial no Instagram, compara “O Alienista” (1882) com o “Holocauso Brasileiro”, ambos repletos de semelhanças. Aliás, Gaby, como eu terminei de ver a série e você de ler o livro, que tal trocarmos figurinhas? #Sintonia #AmoMaisQueSéries;
p.s.08: Em 2016, a HBO lançou um documentário homônimo à obra de Daniela, mostrando as atrocidades daquele local desumano e devastador. Ele é tão chocante quanto o material base e a nova série, tendo vários depoimentos, caso de fotógrafos que foram in loco para registrar o que estava ocorrendo no “Holocausto Brasileiro”. Vale a pena assisti-lo, também;
p.s.09: Embora o Canal Brasil tenha exibido os dois primeiros episódios em sequência, eu resolvi desmembrar a Crítica de ambos em publicações distintas, porque Colônia tem muitas camadas de profundidade. Ao meu ver, é um deleite poder analisar, refletir e escrever em partes sobre essa trama carregada de tristeza;
p.s.10: Recado Final 01: A série está disponível, tanto nos Canais Globo, quanto no Globoplay, os streamings da Rede Globo, sendo o primeiro episódio aberto – por uma semana – para não assinantes na segunda plataforma mencionada. A série terá reprise em vários dias e horários alternativos do Canal Brasil. Não percam!
p.s.11: Recado Final 02: Nós, do Série Maníacos, já assistimos, com exclusividade, todos os 10 episódios da primeira temporada de Colônia. Contudo, seguiremos com as reviews semanais do seriado. Não percam!













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