Não faz muito tempo que eu conseguia ter em mente todas, ou a esmagadora maioria, as séries em atividade no momento. Suas performances com o público e até certos detalhes do roteiro, isso sem nem mesmo assisti-las. Hoje em dia o cenário é o oposto, pois sou pego de surpresa com a chegada de alguma premiação e não sei bolhufas do que ocorre em Euphoria ou The Mandalorian ou me deparo com alguma série do qual nunca ouvi falar e que já está na 3ª temporada com uma produção estupenda (oi, Snowfall).
Verdade que as exigências da vida me fizeram desatualizar um pouco do dia-a-dia do mundo das séries, mas acho que a maior contribuição para o fato de eu me sentir muito perdido o é a avalanche de novas produções sendo feitas a cada minuto por Hollywood. Só na Netflix são dezenas de estreias originais por mês, fora a criação periódica de novos serviços de streaming com mais uma porrada de conteúdo próprio pronto para ser consumido pelo ávido série maniaco. Ultimamente se dedicar a esse hobby está custando mais tempo do que o próprio trabalho e como não sou uma figura abençoada na Terra igual o Boss Arouca, tive que filtrar bastante o conteúdo a ser assistido, para me concentrar no que realmente me salta aos olhos e não perder tempo com o que não me empolga.
Foi nessa investigação da pedra preciosa pelo catálogos absurdamente diversos que há atualmente, que me deparei com as comédias a serem abordadas nessa lista. Algumas com certa reputação e conhecimento pelo público (as da Netflix, óbvio), e outras mais negligenciadas que salpicão na ceia de Natal.
São 5 ótimas comédias, que estrearam neste ano com uma qualidade admirável e que merecem ser apreciadas por todos que estiverem dispostos.
#1: Close Enough (Original da HBO Max e disponível no Brasil pela Netflix)

Com poucos episódios já é possível perceber o grande charme da nova série de J. G. Quintel (Apenas um Show), uma comédia animada, mas que poderia muito bem ser um live action, já que, ao contrário de outras do gênero como O Incrivel Mundo de Gumball ou Big Mouth que executam de forma magistral o recurso do visual e do físico para gerar o humor, sendo livres para basicamente desenhar qualquer cena engraçada que desejam, é o roteiro que rouba a cena do show.
Sem Maturidade Para Isso, como foi batizada pela Netflix no território tupiniquim, opta por concentrar o seu poderio cômico primordialmente pela construção de um roteiro redondo, interessante e leve, em que se preocupa em produzir episódios interessantes, rápidos e extremamente bem elaborados. No episódio 12 e 14, por exemplo, ficou clara a influência de Seinfeld na ideia do texto amarrando piadas de diversos plots de forma graciosa e esperta ao seu final.
Paradise PD ou Family Guy, também dependem do roteiro afiado e ligeiro para a sua graça, no entanto, a grande diferença entre ambas e Close Enough, é que as primeiras são metralhadoras de referências, concentrando uma grande parcela das piadas nesse recurso. Por outro lado, Quintel escreve um humor construído dentro da própria história, de achar graça no que está escrevendo enquanto o plot se desenrola, fazendo referência dentro de si mesmo, e não com outras produções. Com isso, a equipe de roteiristas atravessa uma gama vasta de temas desde os mais superficiais como problemas com rede social e até os mais profundos sobre a psique humana e amadurecimento pessoal.
Na melhor versão da palavra, é um humor genuinamente besta, mas extremamente engraçado e original, uma comédia perfeita para ficar rindo com os amigos saboreando um sanduiche.
NOTA: 4,0
#2: Ted Lasso (Apple TV+)

Facilmente a minha favorita da lista e por um motivo simples: a sua leveza. Ted Lasso é aquela série que te deixa distrair por 30 minutos numa imersão dourada de endorfina e relaxamento com uma história inocente e um protagonista homônimo mais ainda. Jason Sudeikis interpreta um excelente boa praça do melhor coração que há, mas que escolheu uma das profissões mais estressantes que há: treinador de futebol, dos EUA como futebol americano colegial para a Inglaterra sendo manager da elite da bola redonda.
A premissa se inicia no clichê de “dono rico amargurado querendo acabar com o time por X razão”, mas com algumas remexidas importantes na construção, tornando Rebecca, naturalmente, o inicial vilão num amável tridimensional personagem, um desenvolvimento pessoal lindo que pode ser observado ao longo dos seus 10 capítulos.
A personalidade de cada figura é definida logo cedo no texto e de forma bastante clara, numa colaboração efetiva do ótimo roteiro e do elenco afiado sabendo representar cada evolução ocorrida na temporada, seja da Rebecca, Roy, Jamie ou o próprio Ted, que vivendo um momento conturbado em sua vida, sofre um ataque de pânico brilhantemente representado por Sudeikis e equipe.
Já renovada para a segunda temporada, Ted Lasso apresenta pouco mais de 5 horas da comédia mais feel good que você irá encontrar em 2020, logo num ano em que a distração e sua leveza estão em falta.
NOTA: 4,5
#3: Truth Seekers (Amazon Prime Video)

A mais nova empreitada da consagrada dupla Simon Pegg e Nick Frost é uma série que queima lentamente, mas que finaliza com uma explosão estrondosa. Truth Seekers segue a vida de Gus, um instalador de internet de dia, e caçador de fantasmas à noite que ao conhecer seu novo parceiro, Elton John, quem rouba a cena no show, se encontra numa imersão inimaginável do supernatural.
Não serão 8 episódios fantásticos da série mais criativa do momento, mas pode embarcar sossegado nessa jornada pois a originalidade e o corpo de personagens dão motivo para se divertir a cada meia hora. Frost interpreta de corpo e alma um viúvo deprimido reprimindo seus sentimentos em busca de algo não palpável para curar a solidão e o seu elenco completa um trabalho fenomenal de dar realidade aqueles personagens vivendo eventos supernaturais de forma natural.
A explosão da comédia se dá no seu finale, mais principalmente no cliffhanger deixado nos minutos derradeiros, uma queima lenta de narrativa, construção muito vezes deixada de lado em decorrência do “caso da semana”, perdendo o enfoque gradativamente até o oitavo episódio. Foi um belíssimo e surpreendente gancho deixado pela produção e que conseguiu me convencer de fato a voltar para o provável segundo ano, já que só de ter Frost/Pegg no elenco é peso suficiente para o nosso retorno.
NOTA: 3,5
#4: The Midnight Gospel (Netflix)

Talvez a série mais desconhecida a adentrar esta lista, mas que precisa ser apreciada por todo serie maniaco, porém com calma e tempo, pois é vital reassistir cada episodio devido a chuva de informações visuais e auditivas que temos nas oito histórias do ano inaugural. Baseado no podcast de Duncan Trussell, Duncan Trussell Family Hour e com a animação assinada por Pendleton Ward (Hora da Aventura), Midnight Gospel nos apresenta 8 episódios de pura imersão espiritual e introspectiva sobre o ser humano e sua relação com o outro, consigo mesmo e com o meio ambiente.
Cada episódio é um recorte de entrevista com uma determinada personalidade, iluminado por uma animação estupenda e difícil de caracterizar, daquelas que só vendo para entender a proposta e a beleza da sua estética, da continuidade fluida entre as cenas e palhetas e temas escolhidos a dedo para cada conversa. É tanta informação ao mesmo tempo que tem trechos que é preciso decidir entre se concentrar no desenho visual ou apenas no dialogo profundo e em sua maioria, complexo. Rever tais 8 episódios é essencial para um compreendimento mais coeso de todas as informações apresentadas, principalmente pois a conversa se relaciona bastante com os desenhos feitos.
A temporada se encerra com um maravilhoso e comovente encontro entre Duncan e sua mãe, abordando temas pessoais e pesados de suas vidas, mas sempre com uma sabedoria e paz por trás de cada frase brilhantemente dita. Duncan e Pendleton criaram uma nova obra-prima da animação, um clássico instantâneo que inspira, ensina e te vicia desejando por mais.
NOTA 4,5
#5: Mythic Quest (Apple TV+)

O simples fato dessa comédia ser fruto de Rob McElhenney (It’s Always Sunny in Philadelphia) já deveria ser motivo suficiente para que Mythic Quest entre imediatamente na sua lista, mas se é preciso mais alguns para que eu te convença, vamos lá.
Com um elenco brilhante e quimicamente entrosado, Rob nos apresenta um mundo de produtores de jogos de RPG chefiados por um personagem egomaníaco que, superficialmente é um completo babaca, mas que em cada camada explorada percebe-se as falhas e as suas origens, justificando atos recorrentes do personagem, um trabalho minucioso e completo de um roteiro sobre humanos com plano de fundo sobre os games.
Timing cômico e química do elenco é uma preciosidade procurada por toda produção e que, na maioria das vezes, leva-se tempo e algumas temporadas para que todo o elenco se torne uma grande unidade produtora de humor. The Office e Parks and Rec por exemplo só foram encontrar seu primor de entrosamento dos atores na altura da terceira temporada. Por isso é incrível a qualidade apresentada pelo conjunto liderado por Rob, logo cedo nos primeiros episódios alcançando um feito importante para a trama, como se o time estivesse jogando junto há anos.
Para coroar a excelente primeira temporada, Mythic Quest apresentou o melhor “episódio da quarentena”, um roteiro redondo, que conseguiu manter a química e fluidez das piadas mesmo com todos os desafios, mas principalmente, foi um texto extremamente honesto e humano, que refletiu no interior de muitos de nós atingidos neste período. A mesclagem de humor com emoção real e profunda é um artificio usado apenas pelos melhores roteiristas e produtores, e mais uma vez, conseguir isso logo no ano de estreia é algo surpreendente.
NOTA: 4,5
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