Com um genial movimento de pinça, o novo longa-metragem de Christopher Nolan finalmente chega aos cinemas, entregando uma narrativa intrigante.
O ano de 2020 tem sido bem atípico em vários aspectos no mundo todo. Programado originalmente para julho, mês que tradicionalmente os filmes de Nolan estreiam, Tenet sofreu vários adiamentos pela Warner diante da incerteza da reabertura das salas de cinema no país e, após isso sanado, se haveria público frequentando-as.
E como fã confesso da filmografia de Nolan, posso dizer que a espera valeu a pena! Desde meu primeiro contato com o trailer do filme, o mistério ao redor da trama, em que nada fazia sentido, me deixou instigado o suficiente para querer descobrir aquela história.
Tecnicamente impecável, Tenet repete a estética apurada que o diretor sempre busca em suas obras, já filmadas pensando no formato IMAX, abusando de grandes tomadas, cenas de ação, travelling e cenários deslumbrantes ao redor do mundo.
Na película, acompanhamos o personagem de John David Washington (Infiltrados na Klan) adentrando um universo desconhecido tanto para ele quanto para o telespectador. E se não fosse uma rápida consulta ao IMDB enquanto redijo esse texto, passaria batido por mim que seu personagem não é em nenhum momento referido por um nome na trama e sim literalmente recebendo a alcunha de “protagonista”. Grata surpresa.
É através de seus olhos que no desenrolar da história tentamos vislumbrar algum entendimento que envolve o conceito de TENET. Pode parecer viagem no tempo, mas isso seria muito simplista, já que a trama aposta também na inversão de objetos e pessoas. Pode soar complexo, e realmente o é, mas para embarcar na história o telespectador pode sabiamente ouvir o conselho de Barbara ao Protagonista e tentar não entender.
O personagem de John tem carisma o suficiente para sustentar a trama, embora alguns possam observar que não há desenvolvimento o suficiente, como críticos de Dunkirk. A meu ver, serve à proposta da trama, pois seja em Dunkirk ou aqui em Tenet, o roteiro e direção de Nolan mostram características dos personagens, através principalmente de ações, que justificam suas motivações.
No caso do Protagonista, ele chega a ser exacerbadamente idealista, o grande herói americano, que mata somente o necessário e parte em uma cruzada interminável até salvar a donzela em perigo/femme fatale interpretada por Elizabeth Debicki (Guardiões da Galáxia 2). O roteiro chega a flertar um romance entre os dois, que para mim seria bem lugar comum, mas não chega felizmente a concretizá-lo.
Debicki interpreta Kat, esposa do “vilão” da trama vivido pelo sempre ótimo Kenneth Branagh (repetindo a parceria de Dunkirk com Nolan). Sempre densamente povoado por homens, os filmes de Nolan realmente dão pouco destaque a personagens femininos. Em Tenet, a missão fica a cargo de Debicki, que consegue atribuir complexidade à personagem, que tem suas motivações e desejos bem delineados.
O papel de antagonista cabe a Sator, que ganha um sotaque russo de Kenneth que em nenhum momento chega a soar caricato, o que tiraria a imersão do telespectador na trama. É um adversário de respeito, que causa temor e impõe obstáculos ao Protagonista e seu parceiro, já que entende o conceito e possui tecnologia para inverter pessoas e objetos.
Por último, outro papel de destaque em Tenet é desempenhado por Robert Pattinson (O Farol), cada vez melhor em sua carreira, apagando definitivamente seu passado nebuloso com a Saga Crepúsculo, mas que ainda levanta preconceitos e questionamentos por parte de alguns quanto sua credibilidade e seriedade como ator.
Neil serve como sidekick do Protagonista, auxiliando nas missões e desafios para atingir os objetivos deles na trama. Uma das melhores cenas do trailer é quando seu personagem diz que quer explodir um avião e isso felizmente fica bem fundamentado no decorrer da história.
Mas vamos agora ao maior mérito por trás de Tenet: o modo como a história é contada. Nolan explora novamente aqui um conceito trabalhado em A Origem e Dunkirk, de modos diferentes. No primeiro temos uma trama em camadas (sonhos), mas que os acontecimentos ocorrem linearmente e separados e quando as tramas se esbarram, o fazem meramente pela relatividade do tempo, não sendo simultâneas no meu entendimento.
Já em Dunkirk, a relatividade da passagem do tempo se materializa de forma mais tangível e visível na tela. Três histórias principais contadas em tempos diferentes (uma semana, um dia, uma hora) eventualmente se convergem no clímax do filme e o telespectador precisa ficar atento para perceber isso, pois vemos pontos de vistas diferentes dos diversos personagens. Mas ainda assim, temos um tempo maior para processar a informação.
Agora em Tenet pude perceber mais uma evolução nessa técnica narrativa. Realmente é um feito de se admirar, um pouco confuso de se entender a princípio, mas não menos impressionante. Em determinada cena, vemos Sator invertido (inclusive sua fala, convertida por um alto falante) interrogando o Protagonista e ameaçando Kat. Quando achamos que aquela sequência havia sido concluída, passamos a vê-la pelo outro lado, invertida e simultânea. É de fato bem complexo, a priori, mas intrigante e que me leva a crer que será necessário assistir mais vezes para expandir o entendimento sobre a trama.
O filme é cheio de simbolismos, a começar pelo próprio palíndromo (quando uma palavra é lida da mesma forma da esquerda para direita e vice-versa) contido em seu nome: TENET. Ao final da projeção é possível perceber a aplicação desse conceito em várias camadas do longa. O fim é o começo e o começo é o fim, literalmente. É possível perceber isso até em falas dos personagens, como quando Kat fala sobre uma mulher pulando do iate e que, no final, era ela mesma.
O conceito do movimento de pinça, introduzido pelo personagem de Aaron “Kick Ass” Taylor-Johnson (que quase não reconheci) para a ação militar do grupo, se reproduz em toda a trama. Tudo que vemos acontecer linearmente no início pode ser que apareça de forma invertida e é fantástico perceber isso se materializar na tela.
Quanto menor o intervalo de tempo, mais fácil de visualizar, como no clímax, em que há uma gigantesca operação militar com dois times que estão opostos/invertidos com apenas dez minutos para executar a missão.
Em certo momento, vemos em Tenet a discussão sobre paradoxos do tempo (explorado em A Origem também). Se mudarmos nossas ações no presente ou passado alteramos/apagamos o futuro? O conceito aqui de viagem no tempo ou interferência é o mesmo visto recentemente em Vingadores Ultimato: o que aconteceu, aconteceu.
Tenet chega com uma avalanche de informações para o sua audiência. Pode a princípio atordoar, mas isso engrandece a experiência, concluindo de que estamos diante de uma obra que irá gerar discussões, teorias e ficará longe de cair no esquecimento do típico entretenimento descartável. Quem aí até hoje não se questiona sobre a cena do pião girando ao final de A Origem?!
Nolan brinca aqui com a estrutura de filme de assalto explorada em A Origem e o dispositivo narrativo de “bomba relógio” (contagem regressiva) de The Dark Knight, para impor urgência e sensação de perigo real na trama. Afinal, o que se tenta evitar é uma Terceira Guerra Mundial e aniquilação de toda a matéria no mundo.
Pode ser que para os mais puristas o roteiro possa ser didático, com explicações da trama ditas por diálogos dos personagens, pois detratores de Nolan já o criticaram diversas vezes em seus filmes anteriores por isso. Porém em Tenet, isso é extremamente necessário, e em nenhum momento isso diminui a complexidade da trama, além de ser feito de forma muito elegante, com diálogos sagazes.
O filme era cercado de expectativas e para mim foram todas superadas, pois o admirável aqui (e em sua filmografia) não é só contar histórias diferentes e surpreendentes, mas de fato inovar e brincar em como contar as histórias, transformar a própria engenharia e arquitetura da narrativa.
Tenet disputa o título, ainda que sem muita concorrência, de uma das melhores fitas de 2020. Embora complexa, a trama tem potencial de conversar com diversas audiências. Christopher Nolan continua a evoluir em sua invejável e estável filmografia, propondo histórias e narrativas intrigantes e também com apelo comercial.
PS 1: Recomento a experiência IMAX, se houver disponibilidade em sua região. O filme é pensado para o formato e o som e imagem (nessa ordem) nas cenas de ação de tirar o fôlego são impactantes e sensacionais.
PS 2: Sir Michael Caine repete a parceria de longa data com Nolan, dessa vez como coadjuvante de luxo. Somente uma ponta em uma única cena, porém o diálogo é espetacular.
PS 3: A personagem Wheeler, interpretada por uma quase irreconhecível (e escondida sob pesado equipamento militar) Fiona Douriff (Dirk Gently’s Holistic Detective Agency) poderia ter tido mais ou tanto quanto destaque que sua contraparte masculina, Ives (Aaron Taylor-Johnson).















