Na onda das antologias inegavelmente causada pelo sucesso de Black Mirror na Netflix e do prestígio que American Horror Story conquistou em premiações, ganhamos séries boas e ruins, algumas até melhores que as citadas. Esta multiplicação do formato, tão abundante nos últimos anos que poderíamos facilmente reviver a categoria de Melhor Antologia do Emmy, espalhou-se para diversos países e mudou de língua. Tivemos séries brasileiras, séries asiáticas e séries europeias fazendo suas versões, contando suas histórias e introduzindo os conflitos em sua cultura. Coletivo Terror (Bloodride), série norueguesa da Netflix que estreou em março deste ano, veio fazer sua contribuição ao formato.
A série foi criada por Kjetil Indregard e Atle Knudsen e contou com seis episódios em sua primeira temporada, todos de curta duração, quase nunca passando de trinta minutos. As histórias são conectadas pela abertura, na qual vemos um ônibus esquisito transportar alguns passageiros. Estes são os protagonistas de suas histórias, e o fato de estarem aqui talvez revele que as narrativas se comunicam pelo menos tematicamente ou numa relação entre os defeitos daqueles que retratam. As tramas se diferenciam no uso que dão ou não ao sobrenatural ou ao perigo em questão, representado pela mente das personagens ou por criaturas. Há, no entanto, um senso de perversão que deixa a coletânea coesa, com a mesma atmosfera independente da história.

Diria que Coletivo Terror não é necessariamente original, mas ela não é necessariamente nada. Pegando emprestado aqui e ali de outras coletâneas, a temporada tem momentos divertidos, mas nunca acima da média. Esta mediocridade a percorre como um todo, influenciando até as reviravoltas e conclusões de suas histórias. Há bons momentos, quando somos pegos quase de surpresa por alguma boa decisão do roteiro, mas isto não ocorre na frequência que esperamos quando nos propomos a fazer uma maratona. Ainda assim, vale saudar a ousadia da série, que mostra pessoas egoístas fazendo escolhas questionáveis. Num bom roteiro, mesmo personagens detestáveis conseguem chamar nossa atenção e hipnotizar seu público. Aqui, há pelo menos a tentativa de sair do lugar comum, não nos dando as pessoas frágeis e inocentes que se veem em situações aterrorizantes.
Quando uma série se propõe a falar sobre a pessoa que se desvia dos princípios morais estabelecidos pela sociedade, é necessário que ela seja letal, assertiva. A própria classificação indicativa abria espaço para que Bloodride se apresentasse como uma série adulta e de temáticas adultas. Os contos aqui parecem atrapalhados, juvenis demais, bobos demais. Se há algo que nossa produção audiovisual consegue provar constantemente é que dá para ser profundo e devastador em episódios de trinta minutos, feito já realizado por Sob Pressão e tantas outras.

Na literatura, talvez as histórias da antologia encontrassem um caminho mais favorável, uma vez que tal arte nos dá a possibilidade de dirigirmos a narrativa de certa forma, lendo-a no nosso tempo e preenchendo os espaços com nossa imaginação. A decepção ocorre na transição do roteiro para a televisão quando as ferramentas do audiovisual são usadas.
Mas não me deixe focar apenas nos defeitos de Bloodride. Além da boa duração, da ousadia em retratar maus-caracteres e das histórias terem certo apelo literário, diversos episódios conseguem inverter nossa expectativa e mudar sua trajetória nas reviravoltas que prepara. Depois do primeiro, acabamos entrando na brincadeira da série e tentando desvendar os acontecimentos antes que eles sejam mostrados.

O primeiro episódio, Um grande sacrifício tem uma boa atmosfera e uma história bizarra que relaciona pessoas, seus entes queridos e recompensas materiais. É uma sátira à nossa inclinação aos nossos interesses financeiros muitas vezes acima dos princípios que dizemos conservar e à lógica capitalista que transforma em grandes problemas existenciais a vida que não se dá nos grandes centros urbanos.
Três Irmãos Loucos, na sequência, utiliza um recurso já desgastado nas narrativas de suspense quando coloca em questão se diversas personagens não são, na verdade, apenas uma. Ainda assim, é consideravelmente efetivo nas dúvidas que nos levanta. Tem personagens estúpidas demais, mas consegue dar sequência ao tom estabelecido pela história anterior: vemos um jovem que parece ingênuo se transformar em uma ameaça a uma garota que está ali por acaso.

Escritor do Mal é talvez o episódio mais divertido. Fala sobre um mundo da ficção dentro de um mundo da ficção quando personagens e aspirantes a autores se confundem em uma história sangrenta. Cobaias, em seguida, é o que tinha potencial para se transformar num filme nas mãos do roteirista certo. O desfecho do episódio tem uma reviravolta meio absurda, mas ele sabe conservar o mistério que ronda as personagens trancafiadas pelo dono de uma empresa que acredita estar sendo enganado por uma delas — e nem me deixe começar a falar sobre as metáforas por trás disso.
A Escola Antiga é o pior episódio dos seis. Aqui, temos um mistério envolvendo o passado de uma escola. É a volta da série ao sobrenatural depois de episódios que lidam com o perigo no humano, mas isso não se dá tão bem, sendo a história boba demais e simples demais. O Elefante na Sala fecha a temporada com uma premissa interessante: se passa todo em uma festa de empresa, dessas que não sabemos direito o quão festeiros devemos ser. Nela, duas pessoas decidem investigar o que teria acontecido com uma colega de trabalho que sofrera um acidente. É divertido, mesmo que tenha problemas em nos vender a verossimilhança da situação.

Coletivo Terror não tem força para voltar para outra temporada, e poucas pessoas seriam convencidas a retornar. Seria quase juvenil, mesmo com protagonistas adultos, se não fosse o sempre bem-vindo uso de violência no retrato de histórias de horror. Já que estamos em época de antologias brotando em todos os lugares, minha recomendação é que você pule esta. Sem sequer precisar sair da plataforma, há coisas mais empolgantes para se ver.
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Este post faz parte do quinto ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano.















