Quando eu comecei a falar sobre horror por aqui, ou sobre séries em geral, era impossível não citar Penny Dreadful. A série da Showtime em parceria com a Sky era e ainda é um bom parâmetro para se debater o gênero, seu alcance e a que nível pode chegar. Depois de três temporadas, despedimo-nos da história criada por John Logan em uma conclusão que a muitos pareceu precipitada. No anúncio do spin-off, ficamos na esperança de que a nova série pudesse nos trazer de volta a já saudosa mágica do seriado que transformou a noite londrina em um espetáculo macabro. Havia motivo para confiar cegamente nessa possibilidade: o criador voltava aqui como roteirista e produtor, mesmos papéis que desempenhou na original. Depois de uma temporada deste novo projeto, no entanto, a nostalgia continua.

City of Angels estreou na Showtime em abril deste ano e fez uma temporada com dez episódios. Meses depois do season finale, a emissora o converteu em um series finale anunciando seu cancelamento. Não é surpresa que isso tenha ocorrido, uma vez que o spin-off não chegou a impressionar a crítica, cúmplice da série original, consolando-a enquanto o Emmy a ignorava. Os fãs também se dividiram porque as diferenças eram muitas para se ignorar — e não só porque a série atravessa o oceano para contar sua história em Los Angeles. Para piorar a situação, não tivemos indicação a nenhuma premiação, nem Critics’ Choice, nem BAFTA, nem mesmo o Fangoria. Assim, tendo uma série que ninguém vai apoiar, ninguém vai escrever críticas apaixonadas a respeito e ninguém vai premiar, qual a razão de sua produção?

Penny Dreadful: City of Angels.

Costumo sempre fazer coro aos clamores dos fãs. Desde Anne With An E a Samantha!, ambas da Netflix, tivemos tristes cancelamentos recentes. Não creio que seja o caso aqui, entretanto. Diferente de The Good Fight (CBS All Access) e Better Call Saul (AMC), a primeira tendo superado sua série original, City of Angels parece uma versão pobre e menos criativa ao lado da antecessora. O enredo tem núcleos demais, tornando a história confusa. Mesmo com elementos sobrenaturais, perdemos a sensação de trama imaginativa. Migrando muitas vezes para a luz do dia, temos pessoas (boa parte das vezes) ocupando o lugar dos monstros em conflitos críveis, mas não atraentes. Quando em relação a Penny Dreadful, não queremos realismo, queremos mágica.

Mesmo num mundo cada vez mais entregue ao fascismo, a série não se comunica bem com o público. Tudo é discursado demais, frio demais, sem um mergulho real na cultura que não seja oferecido pela (boa) produção de cenários e figurinos. Mais do que criticar um país de passado e presente dominados por um comportamento hipócrita, o roteiro parece mais um produto fetichista de um mercado que precisa falar sobre nazismo porque este é um dos grandes temas do audiovisual. Para fazer algo tão seco funcionar, precisaríamos de outro ritmo, outra forma de encadeamento para as histórias ou um universo reduzido. Nesta grandeza, City of Angels soa apenas pretensiosa, e do pior tipo: daquela que não tem material para sustentar sua pretensão.

Penny Dreadful: City of Angels.

Além dos mencionados bons cenários e bom figurinos, temos atores excelentes para equilibrar a situação. Natalie Dormer faz quatro personagens (se eu contei certo) com ainda mais presença do que tinha em Game of Thrones. Rory Kinnear, ator inglês que participou da versão original, aqui faz uma personagem que desta vez tem nome. De trabalho primoroso em tudo o que participa, desde Black Mirrors a Years and Years, ele está novamente impecável; sabe dar vida a gente infeliz como ninguém. Daniel Zovatto (nosso protagonista), Adriana Barraza e Michael Gladis são outros nomes que vale citar.

Em City of Angels, acompanhamos uma família sendo arruinada por estar diante de uma guerra racial que coloca cada filho em um lado da batalha. Não vemos, portanto, um grupo improvável como na versão original. Falando sobre diferença, lá víamos a saga torturante de Vanessa Ives (Eva Green) e a expiação dos erros que cometera. Aqui, também temos um conflito interno quando Tiago Veja (Zovatto), primeiro detetive de ascendência mexicana de seu departamento, precisa se questionar sobre onde está sua lealdade. A trajetória da primeira é mais fascinante, no entanto, por conta de sua atriz, de seu envolvimento com o sobrenatural, sua conflituosa relação com desejo e sua tristeza tão transparente.

Penny Dreadful: City of Angels.

Encontramos bons conflitos sociais e filosóficos, além de boas cenas onde os atores descobrem o tom certo de suas personagens. O conflito familiar não soa datado, realidade ainda debatida nos EUA em cidades cujos bairros têm se modificado e perdido a identidade do passado — séries como Vida (Starz) debatem isso. Os parabéns devem ser estendidos para o trabalho na composição do ambiente histórico, no qual parecemos mergulhados.

Eu poderia dizer que sozinha, sem ser vendida como um spin-off, City of Angels talvez tivesse mais sucesso, mas isso seria improvável. Nem todos os apontamentos têm natureza na comparação, alguns deslizes a série precisaria corrigir mesmo então. Não é horrorosa como temíamos, mas não tem o horror que nos deixou saudade. Está abaixo da original, abaixo das boas performances de seus atores e indesculpavelmente abaixo do que esperávamos de John Logan.

Penny Dreadful: City of Angels.

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Este post faz parte do quinto ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
critica-penny-dreadful-city-of-angels-e-seu-cancelamento-bem-justificadoPerto da série original, Penny Dreadful: City of Angels parece uma versão pobre e menos criativa.