Voltando ao jogo.
Depois de um episódio muito pesado, que transformou uma temporada perfeita numa experiência bem desagradável, Island of The Idols até que se recuperou bem. Ainda fica um gosto amargo na boca, principalmente quando temos o Dan em tela. Contudo, o elenco segue sendo muito afiado em termos de jogo, o que movimenta a coisa e entretém o público.
Fico impressionado e feliz de ver que as tribos originais pouco importam neste momento. Depois de 39 temporadas, é normal que se pense muito mais no jogo como algo individual e que se entenda que tomar decisões baseadas na cor da Buff no primeiro dia, algo completamente aleatório e imposto pela produção, não é a melhor decisão.
Gosto de como os participantes preferem fazer alguma coisa arriscada, ao invés de ficarem confortáveis em suas alianças. Se cada uma das jogadas é a melhor, isto a gente só vê olhando caso a caso e deixando o tempo responder. Entretanto, prefiro um elenco que esteja disposto a arriscar e a jogar, estando suscetível a erros do que um cast que dura muito mais através da inércia e da comodidade de estar com os números.
Como venho dizendo há bastante tempo, entendo que este momento alcançado pelo reality seja consequência direta de Ghost Island. Nesta monótona temporada, o público, dentre o qual está a maioria dos candidatos a participante, ficou muito frustrado com a falta de iniciativa e criatividade de alguns jogadores. Assim, ficou convencionado que ser passivo, como principalmente Laurel, algo que já levou alguns jogadores a vitória, é uma péssima estratégia.
Acredito que a excelente David Vs. Goliath e a vitória de Nick também contribuem para esta tendência de agressividade, uma vez que o último vencedor assistido pelos participantes atuais foi alguém bem agressivo e que não deixou de correr riscos ao longo da sua jornada. Esta é a evolução. Não significa que não é possível alguém vencer sem fazer muita coisa, significa que os participantes evoluem conformo o jogo evolui. Afinal, Survivor não tem regra.
A twist, que já tinha dado as caras em Ghost Island, funciona muito bem com um elenco como o de Island of The Idols, uma vez que dá a oportunidade das pessoas a fazer uma jogada arriscada. A produção tem que fazer exatamente isso para manter Survivor interessante, colocando em prática twists que possibilitam que os bons jogadores se aproveitem delas. Tratam-se de oportunidades e tentações para movimentar o jogo e complicar o aspecto estratégico.
A regra de Island of The Idols segue intocada. As ameaças saem. Os mais agressivos vão caindo, o que abre a possibilidade de alguém, que parecia ter menos chances, brilhar. Em Survivor forças se tornam fraquezas e fraquezas se tornam forças. Isto é uma das poucas coisas que permanece imutável.
O Motim Contra Aaron e Missy

Apesar de muita gente querer enxergar justiça divina nas eliminações desta semana, eu prefiro ser mais racional, entendendo que se trataram de reações normais do jogo. Como já vem acontecendo nesta temporada, qualquer um que se destaca por algum motivo logo é eliminado. Survivor Island of The Idols vem sendo um jogo em que permanecer mediano, ou melhor, em que parecer mediano é fundamental para sobreviver. Enquanto os mais fracos possuem grandes chances de chegar ao final, aqueles que parecem mais fortes vão caindo. Afinal, em Survivor, percepção se torna verdade.
Esta vem sendo a dinâmica desde o início com as eliminações de Molly, Chelsea, Jason e Kellee. Uma boa convivência e a segurança de uma aliança firme são pouco valorizadas num jogo em que a ideia é destruir os maiores concorrentes. Engraçado que esta tendência inverte tanto a lógica de tudo que no final provavelmente vai prevalecer justamente quem conseguir sobreviver a este caos e manter alguma lealdade. Os grandes favoritos a isso com certeza são Tommy e Lauren, a única aliança até aqui que permanece intocada.
Com as eliminações de Kellee e Jamal e as suas vitórias nos challenges, Aaron e Missy estavam no topo da cadeia alimentar e a divisão da tribo em dois grupos foi o cenário perfeito para que se fizesse um movimento contra os dois.
Uma lógica bem antiga do jogo é pensar que quem está no bottom vai ser leal a quem evitar a sua eliminação. Nas temporadas mais antigas ou entre jogadores piores, isto pode ser sim uma grande verdade. Todavia, com o grau de entendimento do jogo que os participantes desta temporada possuem, é fácil enxergar que os movimentos são estratégicos e não pessoais e, assim, a lealdade deixa de ser uma forte ferramenta estratégica.
Isto já tinha acontecido com Dean em relação a Kellee. Ele até relutou e levou em consideração quem o salvou da eliminação para tomar uma decisão no episódio passado. Contudo, o entendido como melhor para o seu jogo prevaleceu, em detrimento de qualquer retribuição que ele pudesse dever a Kellee. Não tem nada de errado com isso. Nada pessoal, em Survivor tudo é jogo. Se até um caso de assédio é utilizado desta forma, imagina salvar alguém da eliminação.
Kellee, ao salvar Dean, e Missy, ao salvar Karishma, fizeram movimentos estratégicos que poderiam levá-las mais longe. Acontece que cada Tribal Council funciona como uma casa de apostas, em que os participantes depositam a sua confiança em alguém, pensando nos benefícios que isto o trará no futuro. Ao menos uma pessoa sempre aposta mal, já que existe sempre um próximo eliminado e esta é a graça de jogo. Numa temporada tão agressiva, o participante que entender que estes movimentos não têm muita força, dado o alto nível de conhecimento do jogo pelos participantes, provavelmente será o grande vencedor no final.
Na review do episódio 4, deixei bem claro que admirava Missy pela sua postura agressiva e pelo seu pensamento em obter vantagens pessoais de cada jogo, ressalvando que existia sim um grande risco em manter Karishma, alguém emocional que poderia se voltar contra ela. Além disso, o jogo social é algo permanente, que nunca descansa. Assim, quando Karishma passou a ver Missy como uma pessoa que não a respeitava o alerta vermelho deveria ser ligado.
O erro de Missy foi ficar muito alerta aos seus maiores adversários, subestimando o poder de voto de alguém visto como menor. Ela não estava errada de eliminar pessoas que poderiam ameaçar o seu jogo. Ocorre que ela precisava ter um jogo mais bem equilibrado. Se a sua intenção era controlar o voto de Karishma, o mínimo que Missy precisava ter feito era entender o que a motiva para se comportar de acordo. No final, Missy acabou tratando Karishma como uma pecinha de madeira (quem pegou a referência pegou), deixando de lado todo o aspecto humano, que é tão importante para o jogo.

Quem acha que Karishma não é uma jogadora está muito enganado, Missy por exemplo. Ela sempre mostrou que conhece o jogo e que é inteligente. Ocorre que Survivor é um jogo que mistura fatores pessoais e estratégicos, não tem como fugir disto. Assim, com a frustração de não ser tão boa na convivência o quanto gostaria somado ao fator cultural que a afastava dos demais, Karishma entrou num parafuso emocional, o que prejudicou muito o seu desempenho, mas também ajudou a fazer todos a subestimá-la.
É sempre bom lembrar que a maior vencedora desta franquia foi quem utilizou melhor o fato de ser subestimado pelos damias. Sandra, que está numa ilha dando conselhos aos jogadores, soube explorar as facilidades de não ser considerada uma grande adversária, derrubando Jonny Fairplay e Russel, quem mais a subestimou. Karishma está muito longe de fazer o mesmo, mas derrubou Missy como Sandra sabe fazer. Para as duas, é um jogo, mas também é pessoal. Afinal, esta temporada vem mostrando bem que não separar o jogo da vida real é algo impossível.
A melhor cena do episódio foi justamente a que Karishma encontrou o idol e para não ser flagrada por Noura fingiu estar doente e cansada. Ser subestimado em Survivor não é para qualquer um. Se alguém como Missy ou Kellee tentasse este truque, fatalmente seria desmascaradas, já que não combina com as suas personalidades. Acontece que Karishma já tem uma reputação muito grande de ser fraca e de fazer drama, o que facilita muito o seu trabalho de enganar seus adversários.
Você pode me dizer que nada vai adiantar, uma vez que a má reputação de Karishma deve fazê-la não ter um voto sequer no júri. Sou obrigado a concordar com isso, mas acho que duas coisas precisam ser levadas em consideração. Primeiramente, o jogo só acaba quando termina, ou seja, Karishma ainda tem a chance de provar que é uma boa jogadora ao júri caso consiga fazer jogadas racionais e bem executadas que a levem até o dia 39.
O segundo fator está nos seus adversários na final. Caso Karishma chegue na final contra as pessoas certas, que no momento são Noura e Dan, ela pode ter chances, afinal alguém tem que ganhar. Foi o que aconteceu com Chris na final de Edge of Extinction. Muita gente acha, inclusive eu, completamente injusto alguém permanecer eliminado a temporada toda e no final vencer. Contudo, alguém tinha que sagrar-se campeão e a difícil missão de Chris foi muito facilitada pelos seus adversários no F3, que também não tinham grande reputação com o júri.
Hoje Karishma não é uma grande candidata ao prêmio, mas, caso Tommy e Janet sejam eliminados, isto pode mudar radicalmente, principalmente, se ela souber utilizar bem o seu idol e fazer um discurso positivo ao júri, mostrando como se aproveitou bem da situação para chegar ao final. Foi o que Sandra fez nas duas vezes em que chegou ao Final Tribal Council. Mesmo não sendo alguém famosa à época por ser uma jogadora forte e estratégica, bastou mostrar que com humildade e perseverança ela fez um jogo melhor do que os seus adversários.
A Vantagem Era Votar Depois e Ninguém se Importou

Apesar de Noura (risos, como eu amo esta mulher) e muitos outros participantes não terem dado bola, no atual contexto da temporada votar depois do outro grupo era uma imensa vantagem. A inobservância disto pode custar muito caro para pessoas como Elaine e Karishma. Num jogo em que se combate, a todo momento, o lado mais forte, com a eliminação de Aaron no primeiro grupo, faria bem mais sentido eliminar Tommy e não Missy na segunda votação.
A grande motivação de Elaine para flipar contra Missy e Elizabeth foi o entendimento de que ela estava no bottom da aliança das duas com Aaron. Logo de cara, já é possível criticar a sua estratégia, uma vez que não temos nenhum elemento que indique que Elaine não estaria numa situação ainda pior depois da eliminação de Missy. Para mim, é difícil avaliar esta situação sem ter a noção real de como eram as relações sociais no acampamento. Não é porque a edição não mostra que Elaine não possa ter conexões fortes com Tommy, Lauren, Noura, Dean, Dan e Janet.
Entretanto, com a eliminação de Aaron, ao meu ver, a sua jogada parece um tanto quanto desastrosa. Antes do voto, Karishma disse que, apesar de seus sentimentos contra Missy, a sua decisão seria baseada n o racional. Ao meu ver, diante da eliminação de Aaron, a aliança de Missy e Elizabeth já estava enfraquecida o bastante. Assim, para pessoas que não estão numa posição tão boa, o ideal seria enfraquecer o lado oposto, eliminando Tommy e mantendo acirrada esta disputa.
Esta é uma tática muito comum no Big Brother Canadá, em que existem dois grupos fortes batalhando por controle e as pessoas alheias a este vão balançando a cada voto para enfraquecer os dois lado e assim chegar mais longe. É o que o Will, de Millennials Vs. Gen X, intitulou de estratégia de pêndulo, algo bem inteligente e que poderia funcionar perfeitamente, sobretudo nesta temporada.
A lealdade é muito escassa em Island of The Idols, porém ela ainda pode existir. Assim, Tommy, Lauren e Dan podem quebrar a lógica da temporada e se beneficiar muito das jogadas de Karishma e Elaine. Em Second Chance foi basicamente o que aconteceu. Após um jogo muito instável, em que os Voting Blocks prevaleceram, Jeremy, Spencer e Tasha se fecharam numa aliança até o F3, o que levou Jeremy a vitória e Spencer e Tasha à derrota. Caso os aliados de Tommy não vejam ou não se importem com a sua vantagem sobre eles frente ao júri, esta aliança pode desequilibrar um jogo que até então não tem dono.
Diante de todo o exposto, acredito que foi um erro eliminar Missy, alguém que estava mais exposta no jogo do que Tommy, principalmente, depois da eliminação de Aaron. Num jogo tão bem jogado, a falta de atenção para o que aconteceu na primeira eliminação da noite deve ser fatal para a sua continuidade.
No dia da consciência negra no Brasil, antes de ser eliminada, Missy chamou a atenção de Jeff sobre a questão da representatividade. Acho meio triste que muitas pessoas tenham resolvido diminuir às palavras dela quanto a esse importante tema por conta das suas atitudes. A questão racial e a representatividade são importantes sim. Em muitas temporadas de Survivor, existiram um ou outro negro em todo o elenco, o que é absurdo dada a quantidade de negros na sociedade americana. As conquistas da diversidade devem ser ressaltadas até para que haja conscientização da longa caminhada ainda é necessária para se atingir algo próximo à igualdade. Nada que Missy ou Aaron possam ter feito no jogo muda a necessidade dos negros por espaço igualitário em reality shows e na televisão como um todo. É preciso separar as coisas, neste sentido, ela tinha sim bastante razão.
Em resumo, este foi um bom episódio, que provou que é possível ter alguma diversão ainda com esta temporada. Tudo ainda está abalado pela semana passada, o que deve se manter até o final. Todavia, o alto nível estratégico e a vontade dos participantes em correr riscos vêm sendo essencial para a temporada ser capaz de ainda nos oferecer algum entretenimento.
Ranking Após Two for the Price of One
1- Tommy. Assim como muita gente, eu fico um pouco frustrado com a inexpressividade do jogo do maior candidato ao título de Sole Survivor. Tommy se destaca bem menos do que eu espero de alguém no caminho para a vitória. Contudo, não podemos exagerar. Ele foi bem preciso identificando Kellee como uma grande ameaça, o que, de fato, causou a eliminação de alguém com 2 idols no bolso. Assim, Tommy foi o maior responsável pelo voto mais importante da temporada até aqui. Além disso, neste episódio, Tommy teve muito azar no sorteio dos grupos que se dividiram. Afinal, ele ficou completamente isolado com 4 mulheres da antiga tribo Lairo. Mesmo assim foi capaz de sobreviver. É possível dizer que ele continua no jogo muito pelas escolhas ruins de Karishma e Elaine. Isto é verdade, mas de qualquer forma ele sobreviveu e foi quem mais acertou neste voto.
2- Lauren. Apesar de ter uma edição ruim, Lauren é uma grande jogadora, que esta nas sombras de Tommy, mas isto não parece ser muito justo. Ela precisaria explorar as suas outras opções para mudar o seu destino. Jogo social ela tem para isso.
3- Karishma. Apesar de não concordar com a sua escolha no Tribal Council, tenho para mim, que Karishma vai se encontrando no jogo. Encontrou um idol, disfarçou muito bem e ainda pôde esnobar e se livrar de quem fazia bullying com ela. Tem em seu idol a chance de causar uma boa impressão no júri. Do ponto de vista da edição, Karishma é quem tem mais conteúdo pessoal e isto é algo que muitas vezes costuma indicar um vencedor, sem dizer que subestimá-la um tema constante nesta temporada e não devemos fazer o mesmo.
4- Janet. Diferente do que imaginamos aqui na realidade, a reputação de Janet não é a melhor na tribo após os acontecimentos do episódio passado. Não importa se está certo ou errado, Janet se prejudicou muito no jogo com todo o ocorrido. De qualquer forma, ela se recuperou bem estrategicamente, conseguindo contornar a situação com Dan. Sua vitória é muito improvável, mas não impossível. Comparo a sua situação com a de Mike em Worlds Apart após o incidente entre Will e Shirin. Se aconteceu uma vez, por que não pode acontecer novamente?
5- Noura. Além de não ser alvo de ninguém, ela foi capaz de sobreviver ilesa ao total naufrágio de seus principais aliados. Subestimada como Karishma, Noura vem colocando as suas asinhas de fora, tendo sido a principal responsável na eliminação de Aaron. A loucura é libertadora, tanto na vida quanto no jogo. Quando as pessoas enxergam agente como loucos, podemos fazer o que bem quiser sem ter que se preocupar tanto com o que vão pensar ou como vão reagir. Noura vencendo seria o meu maior sonho.
6- Dean. Vai sobrevivendo. Acho que mais cedo ou mais tarde acaba eliminado, mas o seu jogo é visto como fraco mais aqui fora por conta da edição do que realmente é. Morri com o Rob zoando do Dean por parecer uma poc biscoteira no Twitter.
7- Elaine. Tomou uma decisão muito ruim para o seu próprio jogo. Não acredito que sobreviva mais do que 2 episódios. Na minha opinião, depois de eliminar Tommy, Elaine poderia flipar, mas se precipitou demais. Além disso, Missy era de alguma forma uma espécie de escudo para ela. Tirando jogadores fortes, Elaine ficará bem vulnerável, uma vez que é muito carismática e foi identificada como alguém que não pode chegar à final desde o começo. Assim, ter ameaças físicas como Missy e Aaron era interessante para Elaine.
8- Elizabeth. É quem se encontra na pior posição possível, mas se a lógica do jogo continuar sendo a mesma, ela não será o próximo alvo, o que seria uma chance de reagir.
9- Dan. Não dá. Toda vez que este cara aparece na tela me dá um asco enorme. Acho que ele continuará vivo até o final. O que é uma boa notícia apenas para Kellee, que não precisará conviver com ele na Ponderosa.















