O mercado anda tão saturado com a enchente de séries e filmes de super-heróis que, em algum momento, facilmente reviramos os olhos quando percebemos que mais um produto desse nicho está sendo lançado. No entanto, Criando Dion, da Netflix, suplanta, em algum nível, o lugar comum de algumas histórias que apenas nos apresentam um novo herói em busca de aceitação ao introduzir uma história sobre família, sobre a superação da perda de um ente querido e a difícil experiência de uma mulher criando um filho sozinha em um mundo impregnado de preconceito e de novos desafios.
Criando Dion, não reinventa a roda dentro desse segmento e até tem algumas falhas no andamento da sua narrativa, mas facilmente nos pegamos entretidos com a trama e temos a nossa atenção presa aos desdobramentos que a história propõe no decorrer dos episódios. A série suplanta o lugar comum ao inserir na sua história questões mais urbanas e de cunho social, que em algum momento nos levam a uma reflexão mais profunda, por exemplo, no terceiro episódio, a mãe do pequeno Dion, depois de uma ocorrência escolar onde a criança claramente foi vítima de preconceito racial, tem que ter a tal conversa com o filho. Aquela difícil conversa que toda mãe de uma criança negra precisa ter com o seu filho em algum momento da vida enquanto ela cresce, sobre a crueza do mundo que rótula as pessoas pela sua condição social, a sua origem ou a cor da sua pele. É de cortar o coração quando Dion diz a sua mãe que pensava que o Dr. King havia resolvido esse problema e a sua mãe lhe responde que o ativista resolveu metade do problema, mas que Dion precisa ter mais cuidado que as outras crianças para que futuramente não seja machucado por pessoas que não o aceitarão como ele é.

Um outro momento bastante reflexivo é quando Dion faz a sua amiga, Esperanza (Sammi Haney) – que é uma criança cadeirante – levitar. A menina pede o tempo todo que ele a coloque de volta na sua cadeira e ele fica sem entender como uma criança com dificuldade de locomoção pode recusar a chance de levitar. A série introduz o tema sobre permissão, consentimento e os limites do espaço corporal da mulher sem ser panfletária ou brega. Em uma conversa com Charlotte Tuck (Deirdre Lovejoy), outra superpoderosa, Dion é questionado se em algum momento ele chegou a perguntar para sua amiga Esperanza se ela queria sair da cadeira ou se ela já andou alguma vez na vida ou por quais motivos ela foi parar em uma cadeira de rodas. O menino percebe que nunca teve essa conversa com a amiga e isso o leva a refletir sobre o fato de não ter respeitado a vontade da outra criança e de ter levado em conta somente o seu ponto de vista sobre a condição física dela.

Alisha Wainwright, interpreta a obstinada Nicole Warren, mãe de Dion. A atriz é mais conhecida do grande público por dar vida a personagem Maia da já cancelada Shadowhunters. Alisha empresta bastante força a sua personagem, nos entregando uma boa camada de verossimilhança na sua atuação explosiva e enérgica, nos entrega também uma boa camada de dor e sofrimento pela perda misteriosa do marido, de amor exacerbado pelo filho e de resiliência diante das negativas que a vida lhe apresenta. É muito bonito o momento em qeu ela se reconecta com o mundo da dança, sua grande paixão. Michael B. Jordan, além de interpretar Mark Warren, pai morto de Dion, é o produtor da série. Ele dispensa apresentações, é claro! Contudo, vale mencionar que as aparições de Jordan acontecem em forma de flashbacks, muito bem encaixados ao longo da trama ou através de misteriosas inserções que beiram o fantástico e o sobrenatural. Mas a grande estrela dessa série é Ja’Siah Young, intérprete do pequeno Dion Warren. O garoto é carismático, bastante expressivo e muito natural na condução do seu personagem, apesar de ter apenas oito anos na vida real.
Ainda temos como pano de fundo o personagem Pat (Jason Ritter), melhor amigo de Mark e padrinho de Dion. Em alguns momentos o rapaz é muito pegajoso e invasivo, mas em outros momentos ele é muito útil e meio que ajuda Nicole a conduzir Dion dentro desse novo mundo rodeado de poderes inexplicáveis. Por falar em poderes inexplicáveis, tudo indica de Dion adquiriu seus poderes de forma hereditária, já que seu pai parece ter sofrido uma espécie de mutação durante uma anomalia climática na Islândia. A partir do sétimo episódio a série sofre uma reviravolta bem interessante, trazendo algumas explicações e revelações que acabam colocando os pontos em muitos ‘is’. Apesar de finalizar de forma bem eficiente, a série deixa claras possibilidades para uma possível segunda temporada.

A trilha sonora de Criando Dion é bastante agradável, apesar de não gerar grande impacto na trama; a fotografia oscila entre imagens urbanas, campesinas ou estranhas imersões em fenômenos climáticos de difícil explicação; os efeitos especiais não são toscos, mas também não são de encher os olhos; o elenco é bastante econômico, o que torna tudo muito familiar em poucos episódios e o desenvolvimento da trama peca em alguns momentos, mas não chega a prejudicar o show como um todo.
A premissa da série se apoia muito nos conceitos de amizade verdadeira, vide a relação de Dion e Esperanza; e no princípio da superação das adversidades, como é o caso de Nicole tentando ser uma mãe solteira adequada com um emprego que lhe dê estabilidade. Há muitas metáforas contidas na narrativa construída para representar a personagem Nicole. Elas, as metáforas, não são implícitas e nem de longe ficam no campo da suposição, são metáforas aparentes e bem colocadas, que se sobrepõe muitas vezes ao texto aparentemente pueril da história contada. Criando Dion, para além de uma série de origem sobre um novo super-herói, apresenta uma clara alegoria para discutir o papel da mulher e, principalmente, de uma mãe solteira em uma sociedade contemporânea, com ênfase na questão racial e na crueza da vida cotidiana.
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Vale a pena dar uma chance a Criando Dion, não só pelos fatores citados ao longo desse texto e pelo excelente trabalho do elenco, mas, principalmente, por se tratar de uma interessante história sobre família, amizade, superação e questões sociais, que tem como pano de fundo uma criança com superpoderes.
PS: A história de Criando Dion é baseada nos quadrinhos de Dennis Liu.














