“É melhor ser um cão em tempos de paz do que um homem em tempos de guerra.”

Wu Assassins, nova aposta da Netflix no gênero das artes marciais, agrada muito facilmente os amantes desse estilo ao apresentar algumas sequências de lutas bem coreografadas, mas não chega aos pés de Into The Badlands, se formos pensar comparativamente em termos técnicos, muito embora supere a fraca performance de Punho de Ferro nesse quesito. Apesar das sequências de lutas – muito poucas em minha opinião -, a estreante desaponta miseravelmente ao entregar um roteiro frágil, que não sustenta a seriedade imposta na narrativa dentro de uma pretensa homenagem ao cinema de artes marciais de Hong Kong que, em minha humilde opinião, merecia algo mais cuidadoso, intenso e menos confuso.

Mas isso não quer dizer que a série seja esquecível e que não mereça uma chance. Apesar da narrativa confusa e descuidada e de algumas atuações duvidosas, que acabam por subverter a história do herói em ascensão em algo pouco crível, Wu Assassins apresenta alguns bons elementos que, eventualmente, merecem uma olhada mais de perto e talvez até uma segunda chance.

Apesar de algumas atuações questionáveis, Wu Assassins apresenta um elenco composto por alguns rostos bem conhecidos do grande público, como Katheryn Winnik, a icônica Lagertha de Vikings, interpretando a policial infiltrada Christine ‘C.G.’ Gavin; Lewis Tan, que deu vida a Gaius Chau de Into the Badlands e  também a Zhou Cheng em Punho de Ferro interpretando Lu Xin Lee e, completando o elenco, ainda temos Mark Dacascos, que dispensa apresentações, interpretando um dos monges; Li Jun Li, de Quântico, interpreta Jenny Wah e Tommy Flanagan dá vida ao antagonista Alec McCullough.

Os rostos conhecidos não param por aí, temos Iko Uwais (The Raid) que é um ator indonésio, especialista na arte do Silat, dublê, coreógrafo de luta e artista marcial, de 36 anos, interpretando o protagonista Kai Jin, um chef de cozinha, que sonha ter seu próprio negócio no ramo da alimentação, todavia, vê os seus planos serem mudados radicalmente ao ser proclamado como o “Escolhido” ao receber os poderes místicos do Wu Assassins das mãos da misteriosa Ying Ying (Celia Au), após se envolver em um confronto com membros da gangue de Chinatown, a Tríade.

A premissa central da série não é desconhecida do público que consome esse gênero de série, temos em cena todos os elementos e clichês necessários: um trauma do passado envolvendo quatro jovens que flertam com a vida criminosa e com o sonho de um lugar ao sol; os embates entre pai/filho que precisam ser solucionados; o dilema moral do assassino que não quer ser assassino; o ser místico que entrega os poderes mágicos ao Escolhido; o mundo espiritual, bem ao estilo Avatar: a Lenda de Aang –  um lugar em um plano paralelo da realidade onde o Escolhido recebe os seus ensinamentos -, e temos até as famosas gangues de Chinatown e a sua eterna disputa de poder territorial marcando presença nessa trama.

A primeira cena de Wu Assassins é extasiante e de tirar o folego. Nos apresenta uma boa sequência de artes marciais, com tiros, socos, chutes, torções, saltos e até o emblemático desvio de balas em uma cena de luta no corredor, onde Iko e Dacascos alternam o mesmo personagem, nos mostrando que o protagonista em momentos de combate se utiliza da aparência de um “velho” para se manter no anonimato, em uma clara analogia a máscara usada pelos heróis. Em seguida somos apresentados ao cotidiano de Kai na cozinha do restaurante de Jenny e Tommy (Lawrence Kao) dois irmãos, filhos do dono do restaurante. Depois de um rápido desentendimento com alguns membros da Tríade, Kai retorna para seu apartamento e se confraterniza com o seu senhorio, o Senhor Young (Tzi Ma) que o incentiva a abrir o seu próprio negócio. Somos apresentados em seguida ao drama de Jenny, que administra o restaurante, e ao seu irmão Tommy, usuário de drogas, ambos com envolvimento com a Tríade e com Uncle Six (Byron Mann), gangster local impiedoso e pai adotivo de Kai. Há um salto temporal inexplicável e já vemos Kai em seu próprio negócio, um food truck de comida chinesa, sendo alertado por Lu Xin sobre a possibilidade de a Tríade querer revanche pela confusão no restaurante. Só nesse ponto é que entendemos que a cena inicial se tratava de um flashforward – elemento utilizado amplamente no episódio 08 dessa série -, encontrando a sua conclusão nos momentos finais do piloto de Wu Assassins que, por sinal, tem uma ótima trilha sonora. Confesso que esperava uma maior participação de Mark Dacascos nos episódios, principalmente porque sei que ele é um artista marcial de muitos recursos, dominando diferentes estilos, como Karatê, Kung Fu, Taekwondo e Kendo.

Somos apresentados em seguida a CG, uma policial disfarçada tentando entrar no centro das gangues de Chinatown através do ladrão de carros Lu Xin. A inserção da investigação policial é uma das pontas soltas desse show, apesar de ter gostado da adição Katheryn Winnik ao elenco dessa série, a sua trama dá voltas em torno dela. O plot policial não tem uma clara conexão com todo o restante da história e CG, apesar do esforço da atriz e da boa construção da personagem, não nos envolve com facilidade nos fazendo vibrar pela sua tentativa de evitar uma guerra entre a Tríade e o chefe do crime Alec McCullough. Katheryn apresenta o melhor da sua forma física, em sequências de luta corporal, embate físico com homens bem maiores que ela, mas isso não é o suficiente para entendermos o excesso de cenas com CG.

O que vemos a partir daí é um confronto entre Kai e alguns bandidos dentro do seu caminhão de food truck, que culmina com o rapaz sendo abordado por Ying Ying que inexplicavelmente lhe entrega os poderes místicos o transportando para o mundo espiritual – o Caminho –  o informando que ele é o Escolhido para travar um combate de vida ou morte na cidade de São Francisco contra os Senhores da Guerra, que detêm os poderes de terra, água, metal, madeira e fogo. Somos surpreendidos, sem maiores aprofundamentos, com a revelação de que Uncle Six, pai adotivo de Kai e líder da Tríade é o wu de fogo.

Nos episódios seguintes a trama alterna entre um tom sombrio, com detalhes do passado traumático de Kai ao lado de seu pai mafioso, com pequenas mostras das consequências do incêndio que quase o matou  na adolescência enquanto estava com Tommy, Lu Xin e Jenny, migrando para um tom mais ocidentalizado, com negociação de de carros roubados, investigação policial e sequências de tiroteio, até a introdução do real antagonista da temporada, Alec McCullough.

O antagonista da temporada é outro ponto confuso a se considerar aqui. Alec McCullough inicia a sua jornada sendo apresentado como uma força a ser vencida, um homem com séculos de vida, com uma fúria implacável, calculista e com um poder sobrenatural do wu de madeira, capaz de o regenerar, impedindo a sua morte. Ao se encontrar com Uncle Six, ele narra a sua trajetória desde o momento da perda dramática da sua família até a sua ascenção mística. Até aí, tudo bem! O problema é que toda a sua motivação nesses séculos de existência se baseia em reaver a sua esposa e o seu filho, mesmo que para isso acontecer ele tenha que colocar o mundo inteiro em perigo por causa de uma possível perda de equilíbrio entre os planos. A trama fica mais estranha ainda quando Kai é advertido que se o homem atravessasse o portal e ressuscitasse a sua família o equilíbrio do mundo poderia entrar em colapso. McCullough não só ultrapassa o portal, como ressuscita a sua família, no entanto, nada desse colapso é mostrado em cena até Kai matá-lo em um embate que foi insuficiente.

A novata da Netflix também flerta com temas mais contextualizados e sérios, como a situação dos sino-americanos nos Estados Unidos. Claro que esse tema é relevante e interessante para ser abordado em uma série que pretende colocar a cultura chinesa em evidência, por isso, falar sobre americanos descendentes de ascendência chinesa é algo que dialoga profundamente com a cultura estabelecida em Chinatown, um dos focos de Wu Assassins nessa primeira temporada, mas creio que o maior problema dessa abordagem é a forma descuidada e displicente que ela é colocada em cena. De repente Kai está conversando e lanchando com Uncle Six em um restaurante de beira de estrada, quando ambos são abordados por uma garçonete racista que os ofende, a sequência seguinte é recheada pela verborreia histórica de Uncle Six enquadrando a funcionária, para logo em seguida ceder espaço para uma pancadaria desenfreada no melhor estilo quebra-quebra sem sentido. Acredito que em uma segunda temporada, caso a série não seja cancelada, eles possam conseguir se aprofundar um pouco mais nesse tema para dar corpo e contextualizar melhor o show e seus personagens.

A jornada de reconexão de Kai com Uncle Six é um ponto interessante nessa temporada, Wu Assassins, tenta mostrar que, apesar dos erros do passado, é possível que esses dois homens possam se reaproximar em um tom de redenção e perdão, mesmo que tardiamente. No decorrer da trama percebi que em algum momento Zan (JuJu Chan), braço direito de Uncle Six,  iria ascender e traí-lo, e não deu outra, a aspirante a gangster não só se associou a Alec McCullough, wu de madeira, como traiu e matou o pai adotivo de Kai, deixando um plot de vingança em aberto para uma possível segunda temporada.

O oitavo episódio é um dos melhores da série, todo construído entre flashbacks e flashforwards, as sequências se sobrepõem revisitando a mesma situação, porém, alternando a perspectiva a partir do ponto de vista dos personagens de ambos os lados da força. É absolutamente eletrizante observar os fatos a partir do ponto de vista de Zan, para em seguida eles serem mostrados sob as óticas de CG, Tommy, Jenny, Capitão Fletcher e Gideon (wu de metal). Tudo isso regado a muita luta, no melhor estilo do taekwondo, do karatê, dos socos e pernadas e do clássico tiroteio dentro da delegacia.

> EUPHORIA, o que foi aquele final??

Em uma avaliação geral, Wu Assassins, criado por John Wirth e Tony Krantz, merece uma chance por ser a primeira série do gênero, original da Netflix e por se tratar de um bom entretenimento, com um grande potencial, dentro do gênero das artes marciais com um tom sobrenatural e de fantasia. Mas destaco que a série nos entrega menos do que prometeu, ao apresentar poucas sequências de lutas memoráveis, quase nenhuma mitologia do poder sobrenatural do wu em um roteiro descuidado e pouco coeso. Esperamos que em uma possível segunda temporada essas falhas sejam corrigidas e recebamos mais narrativas coesas e conexas, mais socos, passagens no mundo espiritual, desvio de balas, chutes, saltos mirabolantes e sequências onde os corpos possam fazer coisas impensadas e impossíveis, ou seja, tudo que se espera de uma série do gênero das artes marciais.

REVISÃO GERAL
Nota:
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critica-wu-assassins-agrada-os-amantes-do-genero-mas-falha-ao-entregar-uma-narrativa-confusaWu Assassins, nova aposta da Netflix no gênero das artes marciais, agrada muito facilmente os amantes desse estilo ao apresentar algumas sequências de lutas bem coreografadas, mas não chega aos pés de Into The Badlands, se formos pensar comparativamente em termos técnicos, muito embora supere a fraca performance de Punho de Ferro nesse quesito.