Não é desconhecido que “Euphoria” assumiu a estrutura episódica de focar em um personagem e dar a ele o protagonismo daquela determinada semana. A questão é que desde o episódio focado em Jules, na metade da temporada, esse padrão adotado vem lentamente sendo colocado de lado. Isso fez com que a série perdesse um pouco da identidade que tinha alcançado e começasse a trabalhar numa estrutura mais tradicional, em que o artificio do protagonismo semanal acabou se tornando coadjuvante perante o plot do trio principal Rue, Jules e Nate. É quase como se a série estivesse começando novamente, utilizando os mesmos personagens, mas agora de outra maneira narrativa. O desta semana, protagonizado por Cassie Howard (Sydney Sweeney), não foge dessa nova formula, mas serve também para colocar todos os personagens nos pontos de pressão necessários para a finale na semana que vem.
Há problemas que surgem durante a adolescência e idade adulta e que não gerados pelos exemplos paternos. Mas se há uma coisa em comum entre os protagonistas da série é que grande parte deles tem a raiz de seus problemas nas relações paternais. Isso fica bastante evidente na história de Cassie. Claro que não é só o fator da alienação parental, há também um subtexto nem tão sutil assim sobre assédio e como isso molda o comportamento feminino no contexto social, tanto no familiar quanto no externo. Cassie sempre foi a garota perfeita, mas ao contrário de Maddy, ela sempre manteve a inocência no período de crescimento, ao ponto de sempre tentar acreditar no melhor de cada um. Seja na sua mãe, no compromisso desfeito do pai ou em cada rapaz que namorou, ela sempre viu uma possibilidade de retirar felicidade dali. Não que devamos ser todos frios e insensíveis, mas devemos ter um certo nível de proteção psicológica nas interações, porque nem todos pensam do mesmo modo e enfrentar tudo de modo aberto acaba gerando mais problemas do que soluções.

A gravidez de Cassie é talvez a união de todos esses fatores pregressos e da relação conturbada que ela mantém com Chris. Ele, por sua vez, também ama a garota, mas acaba descontando nela suas frustrações e angustias. Na verdade, mesmo ela estando sempre cercada de amigas, nos momentos dilacerantes de decisão sempre esteve só. É aquele paradoxo de estar sozinho mesmo entrando rodeado de pessoas, que as interações modernas proporcionaram, principalmente com os adventos das redes sociais. E isso acaba ecoando no plot principal, já que Rue por não estar mais tomando os remédios (que afinal também são drogas), começa a sofrer dos efeitos da bipolaridade.
E o roteiro não poderia ser mais certeiro em retratar dois períodos tão opostos entre si, mas que podem ser intercambiados em questão de minutos. Quando no estado de mania, Rue é enérgica, focada, quase cômica. Os momentos dela encarnando uma investigadora de filmes thriller dos anos noventa (com direito a estética granulada e tela 4:3) foram um dos melhores alívios cômicos que a série já proporcionou. Além de ter servido para juntar todos os pontos (e apontar um caminho não tão bom assim para Rue), criou um paralelo interessante com outro dos elementos dessa equação, que era Jules.

Tentando fugir de seus sentimentos (e de certo modo também descobrindo os limites de sua própria sexualidade), Jules se afasta do contexto onde estava inserida e volta ao ambiente que não conhecíamos antes. Dentro desse contexto LGBT, a garota não precisa se preocupar com as mascaras usadas, apesar de continuar usando uma que foi criada com a situação vivida com Nate. Então, enquanto víamos Rue sofrendo os efeitos da abstinência e mergulhando numa depressão profunda, víamos Jules adentrando num estado de euforia forçado para esquecer os problemas que ela vive no momento. Assim a série mostra que mesmo separadas, as duas sempre estarão ligadas por situações e vivências, ignorando os caminhos que levaram ambas até ali e também o interesse amoroso das partes. E de quebra entregou outra ótima sequência visual que interligava os cortes entre Hunter Schafer e Zendaya, de modo a criar os paralelos necessários entre as duas personagens sem recorrer ao texto ou artifícios expositivos.
Já Nate continua no caminho sem volta. O personagem apresentava algumas possibilidades de se redimir, mas agora exterminou com sucesso qualquer chance de realização e tal fato. Cal só tomou consciência de que tinha criado um mostro tarde demais. Isso não vitimiza o pai, simplesmente atesta a quão tóxica foi a maneira de criar o filho (passando a mão na cabeça em tudo que ele fizesse, não importando a gravidade) que agora que ele toma responsabilidade por seus atos não há mais volta (pelo menos tudo indica que não). Só que no meio do caminho tinha Fezco. A relação dele com Rue é uma das coisas mais bem realizadas da série, ainda que não muito bem explorada. Mesmo sendo o traficante dela, ele ainda permanece sendo mais um amigo num nível que ela não consegue ser com ninguém. Ele por sua vez, vê a garota como uma irmã, que protegerá a qualquer custo. A emboscada policial só vai servir para colocar ainda mais lenha nessa fogueira. E confesso que quero ver alguém se queimar semana que vem….

O contexto foi tranquilo, linear até, mas por baixo da superfície de “Euphoria” nesse penúltimo episódio da sua temporada inaugural, as coisas estão correndo a todo vapor, indo numa rota de colisão que promete jogar tudo para os ares. Se na metade da temporada tivemos o senso de ameaça, mas não vimos os efeitos concretos dela, nessa finale espero que a série injete a mais potente dose de adrenalina na veia dos espectadores.
Pílula 1: Aquele momento piscou perdeu incluído na fala de Rue sobre a curiosidade de muitos viciados morrerem em banheiros: Judy Garland, Lenny Bruce e Elvis Presley foram as figuras retratadas, com suas cenas de morte recriadas exatamente como foram encontrados na vida real;
Pílula 2: Kat vinha tido somente experiências “prazerosas” até então na sua vida de dominatrix, mas o cliente creepy dessa semana quebrou o encanto da garota sobre a profissão;
Pílula 3: Um momento engraçado, mas extremamente cruel, foram as embalagens de remédio pedindo pra que Rue consumisse elas;
Pílula 4: O próximo episódio será focado em Rue.













