Diante de histórias tão mais impactantes que foram (e ainda devem ser) retratadas em “Euphoria”, a de Chris McKay (Algee Smith) sempre deixou o personagem orbitando na posição de coadjuvante. Sua interação com Cassie está sempre presente nos episódios, mas nunca ao ponto de importância, de influenciar rumos narrativos como o de outros personagens destacados até aqui. Alçado ao holofote essa semana, a história do jogador de futebol ganhou uma definitiva luz, mas como no episódio anterior, a força narrativa acabou sendo reduzida. A grande questão é que mesmo não tendo tão importância na trama, os outros protagonistas tiveram grande influência em seus respectivos capítulos. Chris, no entanto, continuou como um coadjuvante e sua trama só serviu para que os rumos já previstos de sua interação com Cassie acontecessem.
O espelhamento que os pais apresentam na construção dos futuros de seus filhos é um tema bastante batido até dentro da ficção, mas não menos verdadeiro. E Chris é justamente o “poster boy” da problemática. O problema agregado a isso é que: mesmo que a pessoa possua as qualidades alardeadas (seja um gênio do campo de atuação que está incluído) ela só se sente bem até descobrir que lá fora, no mundo real fora da aprovação paterna e da escola, há pessoas iguais ou melhor do que elas. Então todo o sentido de realização acaba se transformando em frustração em igual medida. No caso de Chris, o pai dele ensinou a sublimar todas essas sensações e libera-las somente nos momentos oportunos. A pressão dos jogos, do seu papel de exemplo, de uma possível questão de sexualidade (talvez pelo comportamento cavalheiresco e a educação), da frustração pós ensino médio, das chances cada vez mais ínfimas de conseguir se destacar ao ponto de ser escolhido como um jogador profissional; tudo isso vai se acumulando dentro dele e nunca é liberado, em prol da manutenção da imagem. Aliás é liberado sim, em Cassie.

A garota acaba exercendo um papel muito maior do que o de namorada, servindo como um imã de todas essas frustrações acumuladas. Assim como Maddy ela sofre violência, mas de outro tipo: psicológica. O que acaba jogando-a na rota de colisão de situações como se envolver num triangulo amoroso que claramente teria resultados desastrosos como se mostrou aqui. A fama de “fácil” que tinha antes, o constante assédio dos garotos e agora uma possível gravidez são os resultados desses relacionamentos que a garota se submete, replicando aí um padrão familiar de más escolhas (a mãe dela não é o melhor dos exemplos).
A festa, entretanto, acabou servindo para demonstrar dois grandes desenvolvimentos do roteiro e jogou todos os outros personagens em papeis sem aproveitamento nenhum. É como se todas as camadas de construção dos personagens tivessem sido momentaneamente jogadas fora e o modo “adolescentes tarados e bêbados” tivesse entrado em ação. Não vou ser falso moralista e criticar o sexo e o consumo de bebidas, mas desde então esses elementos entraram na trama no contexto que o show pretende mostrar. Aqui, eles ficaram com uma cara de comédia besteirol que destoa bastante da construção até então.

Falando na construção, dois grandes acontecimentos ficaram marcados. O primeiro deles foi a nova fase de Rue. As drogas serviam como uma carapaça para que ela não entrasse em contato com as atribulações do mundo. Agora sóbria, ela cada vez mais vai convivendo os altos e baixos de uma vida limpa. Foi bacana ver ela dando um dura num dos gêmeos e protegendo a irmã de seguir um caminho igual ao dela. Além de ter reforçado a amizade com Lexi, que até então era um recurso de ajuda da fase drogada da personagem. A relação com Jules vai ficando cada vez mais estranha, contudo, os fatores para essa sensação não são somente os que envolvem as duas garotas, mas também aqueles em que Nate está envolvido.
Se acreditávamos que o personagem ainda teria uma chance de se redimir de seus atos, tal crença pode ser dada por encerrada. A capacidade do rapaz de destruir vidas em prol de sua realização pessoal beirou ao nojo, muito mais forte do que muita coisa nojenta que já passou até aqui nessas seis semanas. Ficou claro aqui que a relação de posse dele sobre Maddy já ultrapassou o limiar do aceitável e agora se concretiza como psicopatia. Ao envolver a garota nessa relação tóxica (porque duvido que tudo acabe aqui entre os dois dentro desse aspecto), ele acabou colocando também Jules e Tyler dentro do circulo de mentiras para salvar a própria pele. Com a “colega” de escola ele usou a cartada da pornografia infantil para arranjar uma testemunha (falsa) da acusação que ele jogou sobre o garoto que agrediu violentamente episódios atrás. Duas vítimas que ele usa como modo de atestar sua “boa índole” e inocência, quando claramente ele é o maior culpado ali. A cena do restaurante, em que a família é impedida de entrar e a expulsão temporária da escola foram preços muito leves a serem pagos nesse panorama.

Assim, a reação que Jules tem na festa é um sintoma dessa chantagem asquerosa que Nate colocou em ação. Só que mais uma vez Rue percebeu que há algo de errado nessa equação. O pavio foi acesso e mais uma explosão de abalar estruturas vem por aí. “Euphoria” agora conta com dois episódios para encerra sua temporada inaugural de maneira exemplar. E mesmo com baixos como esse “1×06”, a série apresentou altos mais poderosos do que qualquer dose poderia proporcionar.
Pílula 1: As referências não estavam somente nas fantasias, mas em cenas do episódio, como a da piscina que é uma clara alusão a “Romeu + Julieta” de Baz Luhrmann;
Pílula 1: Kat continua abusando da sensualidade e confiança, mas aquele novo cliente que comprou toda a wishlist dela… Vem merda pela frente…
Pílula 1: Já sabemos de onde Nate tirou o nome Tyler…
Pílula 1: Maddy vestida como a prostituta mirim de “Taxi Driver” (papel que foi de Jodie Foster) só deixa ainda mais creepy e errada essa relação dos dois;
Pílula 1: O próximo episódio vai ser focado em Cassie.














