Já dizia Jean-Paul Sartre que “o inferno são os outros” e, ao viver dentro da sociedade, essa afirmação ganha ainda mais respaldo. Muitas vezes vivemos em prol da percepção alheia, em prol do que os outros pensam e concluem sobre nós e deixamos nossas ideias e anseios escondidos nos confins do subconsciente. O ser humano é carente de atenção por natureza, podemos viver sozinhos (e morrer igualmente isolados), mas dependemos das interações com o outro para “sermos” algo dentro desse panorama. Nessa busca constante por atenção acabamos ultrapassando limites e quebrando regras. Mesmo que algo faça mal, se tiver retorno positivo, encaramos aquilo como o caminho a seguir. É nessa percepção alheia que mora o perigo e com ela nossa própria percepção é formada. “Euphoria” desenvolve um quinto episódio focado em Maddy Perez (Alexa Demie) e com ela trás as noções de como as máscaras que criamos podem ser tóxicas, principalmente aliadas ao abuso físico e psicológico.
Maddy sempre teve a atenção que queria. Desde criança empurrada pelos pais nos concursos de beleza infantil, a garota ia galgando um caminho um tanto quanto tortuoso de descoberta de confiança e poder de manipulação. Afinal, uma garotinha latina conseguia ultrapassar as brancas e “bonitas” somente com sua garra e determinação. Só que ao ser tolhida disso, ela começou a buscar atenção de outros modos. Com seu crescimento ela foi descobrindo que o carisma da infância ia sendo lenta e progressivamente substituído pelo apelo sexual que suas formas curvilíneas iam produzindo sob os homens. E mesmo que alguns limites tenham sido borrados no percurso, ela seguiu pelo caminho que achou como correto. Até conhecer Nate. Foi como se duas peças opostas tivessem se encaixado de maneira perfeita: ela encontrou alguém disposto a dar tudo o que ela desejasse e ele alguém subserviente e passível de acatar suas ordens. A única questão é que o preço pago por ela além do sexo é sofrer os resultados das constantes mudanças de humor do namorado.

O episódio passado teve o efeito catalisador de aglutinar todas as narrativas em um determinado cenário e misturar todos os personagens no apreensivo e bem orquestrado panorama de revelações e disputas iniciado junto com a série. Em comparação, esse não possui a mesma força do anterior, mas sua temática continua tão importante quanto. O que quebra o andamento é sua estrutura narrativa não dar tanto espaço para a protagonista da semana ser trabalhada de modo satisfatório. A história de Maddy permeia por toda a duração do show, mas é Nate e o Pai, Jules e Rue que ganham mais importância na trama.
Como um rastilho de pólvora que queimou rápido pela escola, as marcas no pescoço de Maddy explodiram nos corredores de modo ressonante. Já que outros efeitos da feira são sentidos na surdina (a resignação de Jules), a líder de torcida serviu como o bode expiatório para que de certo modo a queda dos grandes fosse maior e sentida por todo o local. A expulsão de Nate do time de futebol não foi tão sentida pela escola, mas a imagem da família Jacobs ficou manchada de modo quase permanente, dando certa complicação para reverter essa percepção. Foi interessante ver Cal chegando na escola pensando que a denúncia seria contra sua pessoa, mas descobrindo que foi sobre o filho. Aí que o modo tóxico de ambos vem à tona, quando ele faz com que o filho negue e coloque a culpa na mulher ao invés de assumir seus erros e pagar pelo que deve (mesmo que tenha pago no final das contas, o preço ainda não foi o suficiente). O mais realista foi o retrato de como funciona a cabeça de uma vítima de abuso físico. Pela atenção conquistada e as promessas e amor, Maddy releva as cicatrizes físicas e mentais da violência. É como se todo o mundo ao redor estivesse errado e somente os dois corretos, numa jornada autodestrutiva de fuga de ambos (pela primeira vez um nome de episódio caiu como uma luva até aqui), numa versão moderna de Bonnie e Clyde.

Só que os problemas só começaram. A sexualidade de Nate é cada vez mais colocada à prova depois da descoberta das dick picks alheias no celular e se o núcleo de garotas já sabe é quase questão de tempo até que toda a escola saiba e aí será que a reação dele irá parar num aperto de pescoço? Ela como namorada acredita no lado bom dele, mas é provável que não haja nenhum. Outro fator explosivo foi a quase rota de colisão com a vida secreta do pai. Ele já sabe dos encontros mantidos em segredo nos motéis nos limites da cidade, mas presenciar tal ato pessoalmente é outra coisa totalmente diferente, principalmente para Cal que começa a colocar em ponderação se ele criou os filhos de maneira correta e se sua vida secreta afetou esta criação. Vejo como potenciais vítimas não só Maddy, mas Jules e o resto da família por causa dos erros dos dois exemplos mais condecorados até então.
O que o amor e as drogas tem em comum? Ambos ativam os receptores neurais ligados ao prazer. Rue se mantem limpa, mas na verdade só trocou de vício. A paixão dela por Jules é encarada de dois modos completamente diferentes dependendo de que lado se veja a situação. Para Rue, tudo é perfeito e no lugar, sua vontade de viver retornou, suas amizades são colocadas em reparação, tudo está funcionando. Mas Jules começa a ver que ela é muito mais do que só uma amiga de Rue e começa a ponderar se tal responsabilidade não só válida como se não tem um preço muito alto para ser pago. Mais uma questão de quando essa união vai ser rompida jogando as duas novamente em caminhos complicados.
Uma colcha de efeitos. Assim pode ser resumido o exemplar de “Euphoria” da semana. Após atingir o ápice da criatividade, a série freia um pouco seu ritmo para prepara terreno para a metade final da temporada de estreia. E mesmo com uma temática potente, não consegue acompanhar a mesma qualidade narrativa. Isso não é um demérito, só uma constatação de que a série planeja seus arcos de maneira bem fundada. Como o efeito de uma dose precisamente calculada para agir no mais inapropriado momento, jogando o espectador numa viagem lisérgica de cor, som e emoção.
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Pílula 1: Enquanto Maddy vai perdendo sua força, Kat vai cada vez mais ganhando a dela ao ter assumido a personalidade dominatrix, mesmo que ainda mantenha em algum lugar a doçura e inocência da infância;
Pílula 2: Cassie agora se vê envolvida num provável triangulo amoroso entre Chris e Daniel. Falando em Chris, o próximo episódio é focado nele;
Pílula 3: Ri demais da cena em que a mãe da Rue entra no quarto no meio da sessão de “remixagem” da garota. A reação de Zendaya foi impagável. Aliás, tivemos uma boa dose de humor nesse episódio;
Pílula 4: A trilha sonora estava repleta de hits pop nessa semana, com Rosalía e Billie Eilish entre eles.














