A transexualidade vem se tornando cada vez mais um tema corriqueiro dentro da ficção recente. A mídia, cumprindo seu papel de informar, vem dando cada vez mais espaço para que populações marginalizadas ou que não são representadas devidamente tenham uma plataforma para explorar suas nuances e problemáticas. Os gêneros escolhidos são os mais variados, indo da comédia ao drama, passando pelo tratamento fantástico ou o realismo cru. A única constante é a da identidade sexual vs a identidade corporal. Essa questão, de nascer num corpo em que você não se reconhece, é algo que somente quem a vive é que pode falar com propriedade e nós que vemos de fora só podemos imaginar o quão torturante deve ser todo o caminho até que corpo e mente se encontrem numa unidade. Em seu miolo de temporada “Euphoria” foca em Jules (Hunter Schafer) e em sua jornada de identificação, mas também cria um panorama da temporada até aqui, num episódio que jogou o espectador num carrossel de emoções.
Todos nós temos nossos dilemas interiores, mas Jules foi atirada em direção aos dela desde criança. O ataque veio não do ambiente externo, mas de sua mãe, alguém que deveria nutrir e proteger sua prole. O que para um adulto psicologicamente desenvolvido já é complicado, para uma criança é algo totalmente excruciante, agravado ainda mais pela rotulação de que o processo de reconhecimento dela era uma “doença”, um problema psicológico. E assim como toda criança ela criou um mundo que a protegesse e a isolasse de toda essa influência negativa externa. Mesmo que durante seu crescimento e período de transição ela visitasse esporadicamente o lado podre da sociedade (se entregando em encontros com homens – cis, brancos, casados; justamente aqueles que cultivam ódio a pessoas como Jules), foi somente ao entrar em contato com Rue e os outros habitantes da série é que as primeiras rachaduras e infiltrações do mundo real começaram a surgir na fantasia.
E a decisão de colocar as consequências de todos esses atos para explodirem numa feira com toda a cidade reunida foi uma das melhores decisões do show. E ao apresentar visualmente o seu melhor (num dos mais belos e bem editados planos televisivos do ano), narrativamente a série colocava o espectador no meio do caos, da confusão. Ao mesmo tempo que construiu tensão do começo ao fim, foi anticlimático. Ao mesmo tempo que abarrotou o capítulo com diversas linhas narrativas (praticamente todos os personagens da série tiveram tempo de tela), organizou todas elas com uma fluidez ímpar. A qualidade aqui atingida foi digna de um season finale e não de um episódio de meio de temporada.

Finalmente Rue ganha um merecido destaque, mais em função de sua irmã, Gia. Desde a première a personagem vinha andando nas margens das histórias alheias e tendo seu desenvolvimento, mas nunca com um foco que a levasse ao patamar de empatia. Aqui isso ainda continua de certo modo, mas ela começa a finalmente lidar com as consequências de seu vício. Se de um lado ela procura ajuda do mentor das reuniões do NA e consegue retomar sua amizade com Jules, do outro ela sofre ao ver a irmã se inclinar perigosamente para um caminho que ela trilha e que agora busca uma saída. Zendaya mais uma vez entrega uma atuação potente, numa contenção de emoções que transparece no rosto. A cena em que ela é humilhada pelos “amigos” da irmã parte o coração do espectador, que logo é reconstruído depois ver o companheirismo trôpego dela e de Storm Reid a caminho de casa.
Mas residiu na interação entre Jules/Nate/Cal os melhores momentos desse episódio. Começamos a sofrer de antemão desde que descobrimos que Tyler era Nate. O histórico do rapaz não é dos melhores e a paixão que a garota ia investindo no garoto do aplicativo só acrescentava ainda mais temor no resultado daquilo tudo. Porém, ao entrar no caldo (não resisti ao trocadilho), Cal acabou acrescentando ainda mais camadas de tensão no já esticado fio narrativo dos personagens. Toda a cena de Jules indo comprar comida na barraca dele, a reação dele em frente aos filhos e da esposa (e consequentemente da cidade, que o toma como exemplo de perfeição), o discreto surto, a saída atrás da garota para um lugar remoto do evento… A única sensação era a de ter o estômago revirado de antecipação pelo pior. No entanto, os resultados não poderiam ser mais diferentes. Por um momento imaginei que fosse Cal quem atacaria Jules, mas no momento de surpresa aquele que domina acabou se entregando a piedade de quem havia dominado.

Até mesmo Nate contrariou as expectativas. Os caminhos mais prováveis que o personagem poderia seguir eram: ele realmente estar apaixonado por Jules ou tudo ser uma armação para desgraçar a vida da garota. O show então aplica um meio termo vicioso, que caminhou para ambos os lados e foi destrutivo sem apresentar nem violência, nem redenção. Aliás, cada vez mais o personagem vai se afundando num local difícil de definir. Sua sexualidade é nublada, suas relações são tóxicas, sua família é unida pelo lar, mas separada em seus mundos problemáticos próprios.
A amizade de Rue e Jules acaba se confirmando como um espelhamento, uma identificação mútua advinda de uma infância problemática e uma adolescência mais problemática ainda. Jules vai perdendo a inocência e Rue vai recuperando-a, uma troca simbiótica que acaba servido a ambas e anulando interferências externas. Jules é uma espécie de Alice moderna, que atravessou o espelho, mas ainda mantinha a cabeça no País das Maravilhas (aquela cena do laranjal ficou muito pertinente a esse conceito), mesmo com todo o sofrimento ela ainda carrega esse otimismo, até nas piores situações. Focado na personagem mais carismática, “Euphoria” chega em sua metade de temporada de maneira poderosa e tudo pode acontecer daqui em diante, já que expectativas são derrubadas a todo instante. Tudo acontece ao mesmo tempo em que nada acontece.
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Pílula 1: Não sei onde esconderam a Hunter Schaefer esse tempo todo, mas ela é uma ótima atriz e bastante carismática, ao ponto de você querer ser amigo da personagem e da atriz;
Pílula 2: Maddy “slutty mode on” tocando fogo no parquinho foi uma das melhores coisas desse episódio. O próximo episódio vai ser focado nela e também em Cal. Eric Dane muito bom nesse episódio também.
Pílula 3: A relação de Cassie e Chris continua indo rapidamente pra merda. Só que até agora a garota é que vem sofrendo. A cena do carrossel tá aí pra não mde deixar mentir;
Pílula 4: Kat pegando geral. Até agora a fase dominatrix está funcionando, mesmo que ela ainda se sinta insegura em relação a relação dela com Ethan.














