RPG (ou Role-Playing Game) é um gênero de jogos eletrônicos e de tabuleiro no qual é dada a liberdade ao jogador de escolher, nos mínimos detalhe, como será seu personagem. Assim fica liberado criar uma personalidade, sexo, características físicas totalmente diferentes das suas. Isso pode servir para criar estereótipos de determinadas classes esperadas desses jogos ou num leve espelhamento do desejo inconsciente do que realmente o jogador queria ser. Na fantasia tudo é possível, mas na realidade a vida social impõe determinados padrões à seguir, sejam eles advindos do próprio ambiente em que se vive ou da família que se tem. A verdade é que não podemos ser 100% nós mesmos, sempre editamos ou omitimos detalhes que poderiam ir contra as normas vigentes. “Euphoria” coloca o foco da narrativa sobre Nate Jacobs (Jacob Elordi) em seu segundo episódio e através dele discorre sobre o conceito de masculinidade tóxica.

O pai, preso na própria espiral de comiseração e segredos, usa a vida dupla (de dia pai de família, de noite transa com garotos e realiza seus fetiches que são vistos com maus olhos pela sociedade) como combustível para projetar no filho conceitos que ele acha correto e também um senso se superioridade que ele internamente não tem. Assim, o garoto cresce se achando um ser especial, acima das regras e suspeitas, com tudo que deseja ao seu alcance. Mas ao mesmo tempo que ele aparenta essa fachada de ser o “fodão” ele também tem seus próprios segredos sombrios escondidos. Nate tem o corpo perfeito e qualquer garota que quiser aos seus pés, mas se vê encucado com o contato com outros garotos e a nudez dos mesmos. Tem a força de comandar um time inteiro, a glória e o reconhecimento por tais atos, mas internamente tem um senso de inferioridade que se traduz em violência extrema com o que ele pensa ser melhor do que ele.

E aqui a série constrói a violência no que não mostra. Se por um lado explicita a nudez masculina (na tão afamada cena dos 30 pênis a mostra que deu tanto o que falar na divulgação do show), por outro ela esconde a violência física e através da sugestão consegue muito mais potência de sua narrativa. A cena em que Nate espanca o rival e acusa o rapaz de estupro de menor (quando ele na verdade foi manipulado por Maddy num joguete doentio da garota pra conseguir a atenção do namorado de volta) embrulha o estomago ao só focar no som e na ação, deixando a imaginação do espectador completar a lacuna existente. A olhadela no espelho dá ainda mais psicopatia a personalidade de Nate, por justamente afirmar esse senso de impunidade que ele sempre teve incutido desde menor. É uma construção óbvia até, mas não menos eficaz do que é a masculinidade tóxica, de perpetuar valores misóginos e violência como maneira de se afirmar perante os outros e esconder as próprias inseguranças e frustrações.

Mas não somente ele que foi tóxico. Rue continua na jornada cada vez mais profunda no mundo das drogas e mesmo que tenhamos conhecido algumas das motivações, isso não torna o método escolhido pela garota mais aceitável. Viciados são egoístas em essência. É uma afirmação um tanto quanto ríspida, mas dentro do contexto, verdadeira. Na busca da nulidade da existência, em encontrar aqueles “dois segundos” em que tudo para e só a sensação de prazer existe, ela passa por cima de tudo e de todos, não só se machucando, mas a família, os amigos e até os relativos desconhecidos. Vemos um flashback mostrando a reação da família e misturado a ele vemos a reação dela na tentativa de encontrar a próxima dose. Vemos ela forçando caminho a dentro na casa de Fezco para logo em seguida vermos o rapaz protegendo-a de um destino pior do que uma overdose, quando ele não deve nada a ela além da amizade, por razões estritamente comerciais até então. A garota vai revirando a merda e jogando mais e mais pedaços no ventilador de todo mundo. É aquilo de se destruir, mas levar indiretamente todo mundo junto com ela no processo.

Quem quase chegou no limiar da destruição foi Kat. Mais um ponto nervoso foi tocado pela série através dessa personagem. As mesmas amizades que impelem a perda da virgindade são aquelas que condenam o ato sexual em si. Esse tolhimento da liberdade sexual da mulher que tanto vigora atualmente (na verdade retorna, de onde nunca devia ter voltado) é bem exemplificado aqui. Kat, no entanto, consegue dar a volta por cima e sair da enrascada onde se meteu com um certo poder, mas milhares de garotas caem nessa armadilha e acabam sofrendo pressão de todos os lados, tendo suas vidas destruídas ou levadas ao suicídio. Mulheres fazem sexo, tanto quanto os homens, mas o “dois pesos e duas medidas” imposto pela sociedade penaliza essa vontade como algo sujo ou demeritório.

Então, quando o episódio se encerra revelando que o garoto por quem Jules está ficando apaixonada e que conheceu num aplicativo de pegação gay é Nate, a narrativa se contrai dentro de seus próprios paralelos, mostrando que apesar de Cal tentar desviar o filho daquilo que ele considera sujo, mas comete, indiretamente é aquilo o que o filho encontrou para buscar identificação com o pai. Se esse relacionamento que começa a ser desenvolvido é verdadeiro ou algo a mais, só no decorrer da temporada descobriremos. No leque de temáticas mais uma foi colocada em evidência. Tal pai, tal filho. Nunca um aforismo foi tão correto.

Pílula 1: Incel é um termo que significa “involuntary celibacy” ou celibato involuntário. Define uma subcultura online que abarca homens que não conseguem ser sexualmente ou romanticamente ativos e culpam as mulheres e homens sexualmente ativos por isso;

Pílula 2: “O padrão” de garotas que Nate gosta representa exatamente o oposto do que são considerados traços masculinos (liso/peludo, delicado/grosseiro…), é o inconsciente mostrando o que ele esconde de todo mundo;

Pílula 3: A masculinidade tóxica acaba afetando as mulheres também (não só fisicamente). A cena em que Cassie tenta usar o sexo como modo de conforto pro namorado é o exemplo psicológico dessa objetificação tóxica;

Pílula 4: A cena do vestiário é segundo o criador da série uma espécie de homenagem invertida a cena do vestiário de “Carrie, A Estranha”. O que fica ainda mais evidente com o poster do filme aparecendo no quarto do rapaz espancado;

Pílula 5: O próximo episódio será focado em Kat. E pelo gancho deixado nesse episódio, promete ser interessante.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.
euphoria-1x02-stuntin-like-my-daddy“Euphoria” coloca o foco da narrativa sobre Nate Jacobs (Jacob Elordi) em seu segundo episódio e através dele discorre sobre o conceito de masculinidade tóxica.