O conturbado penúltimo episódio de Game Of Thrones levanta a questão mais importante de sua história: Quem é Daenerys Targaryen?
A vida de DaenerysTargaryen é cheia de passagens extremas, ilustradas por sacrifícios e lutas que podem deixar impressionado até o mais antigo dos anciões. Ela foi exposta a muitos desses extremos numa idade tenra e concluiu, também, desde muito cedo, que sua trajetória era bifurcada em duas direções: como mulher, jovem, de aparência frágil, precisava abrir seu caminho com fogo. Por outro lado, a outra direção era a da liberdade e do renascimento. Libertar escravos, reconhecer o poder do ponderamento tanto quanto o do sangue. Herdeira da insanidade, Dany estava naquele lugar para mostrar que é possível ser forte sem ser louco.
A revolta de alguns e a defesa de outros nesses dias pós The Bells é justificada por essa bifurcação. Não é uma bifurcação perfeita, não abre duas estradas equivalentes, sobretudo porque a confusão do resultado é uma prova cabal de que o processo de emissão da mensagem não foi tão bem sucedido. Até um tempo atrás, o egocentrismo e algumas das atitudes exageradas de Dany eram seu sangue Targaryen tomando o lugar da razão. De duas semanas para cá, todos esses traços incontroláveis da mãe dos dragões tomaram a frente do resto, como se a bifurcação tivesse sido sempre 50/50, quando, na verdade, a personagem foi construída em frações mais próximas dos 70/30. Em oito anos de série, Daenerys foi muito mais razão e liberdade que sacrifício e tirania.
Eu, aqui desse lado do sofá, destaco a passagem em que ela prende seus dragões quando descobre que eles mataram inocentes, ou quando ela passa por cidades libertando escravos, ou quando ela coloca uma como seu braço direito, ou quando ela dá ao irmão de sua maior inimiga o cargo de sua mão… Os criadores da série, do lado de lá, destacam a forma fria com a qual a personagem se livrara de seus inimigos. A percepção de cada um é livre; e esse penúltimo episódio é isso mesmo, uma questão de perspectiva. O que acontece é que espera-se de um espectador que ele compre a “livre interpretação” do seu lugar de espectador apenas. Fica mais fácil aceitar um ruído na forma como um personagem afeta se você não é aquele que escreve sobre ele. É duro quando surge a suspeita de que foram os “pais” de Daenerys Targaryen aqueles que acabaram não sabendo responder quem ela realmente é.
Dracarys
The Bells é um penúltimo episódio e faz sentido que os responsáveis por ele quisessem nos oferecer um grande espetáculo. Fomos corretamente preparados para isso. A primeira metade do episódio, contudo, se dedica a reforçar as perdas e enganos de Dany, que com a morte de Missandei passa a exalar aquele perigoso ar de vingança. Vejam bem, isso é completamente compreensível. O problema começa quando o roteiro tenta me vender a ideia de uma inversão de papeis, em que Dany surge como a vilã desalmada que dizima uma cidade, enquanto Cersei tira seus últimos minutos para ser frágil e vulnerável. É claro que em teoria isso pode parecer rico e complexo, mas a série encontra aqui seu obstáculo maior na hora de nos fisgar com esses conceitos: mesmo que gritem alto que as pistas estavam ali, a resposta vingativa e inconsequente de Dany não foi delineada eficientemente nos últimos anos, o que tornou seu ato cruel um recurso apoteótico vazio, atrelado ao senso de espetáculo e que apresentou os mesmos problemas de substância que a resolução para a batalha contra o Rei da Noite.

E foi um grande espetáculo, não podemos negar. Depois de uma batalha no meio da noite, um massacre em plena luz do dia, com o dragão sobrevoando King’sLanding em um show de ótimos ângulos e sequências. A direção e o roteiro não se pouparam em evidenciar a gravidade da chacina. Embora a edição tenha se repartido demais, o resultado técnico foi muito eficiente, mesmo que na dramaturgia os problemas surgissem e ressurgissem. Foi tudo grandioso e de certa forma, desde a visão de Bran com a sombra do dragão atravessando a cidade que uma determinada expectativa nesse sentido foi construída. Foi o tipo de coisa que queremos ver num penúltimo episódio, mas com um custo alto demais.
[SPOILERS]Its been 5 years since tonight’s episode was teased in Bran’s visions.
É possível, aliás, que George Martin tenha preparado exatamente esse final. Mas, o que também é possível é que o desenvolvimento até chegarmos nele seja calculado para não gerar estranheza. O senso de espetáculo poderia ter sido resolvido com o Rei da Noite ocupando o lugar de Dany na destruição da cidade e uma vez tendo a cidade rendida, nas mãos, vingar-se de Cersei das formas mais cruéis passaria a ser seu objetivo. Daenerys sempre foi cruel com seus inimigos ou com aqueles que não se curvaram a ela. A questão é: a cidade se curvou. Não existem justificativas plausíveis para ela escolher matar deliberadamente se colocarmos em perspectiva quem ela foi e o que defendeu até aqui. Descobriu que Jon era mais amado? Tinha que ser pelo medo? Perdeu tudo e enlouqueceu? Não! Nada disso é substancial o bastante para acabar com sete anos de planejamento. Essas não são justificativas, são desculpas. Eles sabiam que ela destruiria a cidade e correram com elementos dramatúrgicos que escorassem essa decisão. Romance com Jon, morte de aliados, perda de trono… Foi tudo apressado, raso, oco.
Mad Queen
Aliás, com exceção da morte de Clegane os roteiristas demonstraram uma profunda incompreensão dos personagens e ligações que eles mesmos construíram. Jon passou meia série tentando convencer todo mundo de que o Rei da Noite estava vindo, mas foi Arya – que nunca nem o tinha visto – quem o matou. Euron esteve com Cersei por 5 minutos, mas o roteiro arranja uma luta final com Jaime como se os dois tivessem disputado a mesma mulher por anos. Missandei, Varys e Jorah foram carniças no meio do processo de desestabilização de Dany, tendo seus papeis na mitologia do show reduzidos a nada. Cersei passou anos e anos ferrando com a vida de quase todos os personagens, tinha uma quantidade de linhas tensionadas em sua direção que poderiam gerar uma dezena de cenas de embate incríveis; mas, lá se vai ela soterrada junto com o irmão que também vinha há anos num caminho de autoconhecimento e redenção, esquecido completamente quando foi conveniente. A morte dele nos braços de Cersei torna toda a sequência com Brienne ainda mais hedionda. Soou como uma última boa ação, uma provadinha de Lannister a uma mulher virgem tão necessitada.
É importante estabelecer que não é só uma questão de Daenerys ter “cumprido o destino do sangue”. O problema maior é sua vilanização, sua “loucura”, a forma como a trajetória de uma personagem feminina forte é destruída por um patriarcado que sempre restringe mulheres fortes ao posto de malucas, entregando o heroísmo e a vitória a mais um homem branco apático. Game Of Thrones nunca se preocupou com nenhuma dessas questões, mas sua indiferença política grita cada vez mais alto, como se fosse tão política quanto. O tal senso de espetáculo não arruinou só os vetores humanos de Jon (passivo diante de tudo que aconteceu), Tyrion (que sempre privilegiou razão e escolhe salvar Cersei indiretamente ao soltar Jaime) e tantos outros. Ele arruinou as possibilidades de reafirmação das mudanças sócio-culturais fora e dentro do show. Sansa e Arya são fortes segundo as perspectivas masculinas, o que só reforça a fragilidade de alguns reflexos midiáticos da produção. E o público segue confuso, catando momentos da história de Dany que sinalizem uma chance de desvendá-la, desesperados para viverem o prazer do massacre visual sem críticas rondando, certos de que comer um coração ou queimar um inimigo é o mesmo que dizimar uma cidade rendida. Dany furiosa matando a esmo só para não perder uma coroa e Cersei chorando e pedindo para não morrer… Em apenas um episódio as duas personagens mais importantes da temporada foram violentadas, agredidas, traídas e desprotegidas. Elas mereciam mais. Nós também.

A partir de agora algum reparo só pode ser feito no último episódio. Suspeito que Jon deve reclamar seu trono e que Arya presenciou todo aquele caos porque talvez Dany seja os “olhos verdes” da lista. De súbito, a última batalha a ser vencida será contra os Targaryen, enfim, como sempre acabou sendo, numa interpretação dos fatos que é certa enquanto dramaturgia, mas errada enquanto desenvolvimento. Não adianta Dany agora vir com o papo de que para a próxima geração ela será justa. Ela tomou a decisão de ser ainda mais cruel do que Cersei jamais foi e sim, precisa ser impedida de assumir. Isso nos leva até o estabelecimento final de que fomos convencidos antes de que o mal de Westeros eram os caminhantes brancos e os Lannisters, quando na verdade não eram. Mas, esse “na verdade” sendo decidido assim, agorinha. Game of Thrones é uma série sem vilões e mocinhos? Não, pelo contrário. Starks salvam a pátria sempre, Lannisters e Targaryens cedem ao impulso da tirania. De certa forma, vamos terminar a série com tudo mundo fazendo o que sempre faz: Lannisters se protegendo a todo custo, Targayrens queimando e Starks desnorteados enquanto a batalha cresce ou o fogo desce.
Anos atrás fiz um texto para outro site dizendo que não conseguia ver a série como tão corajosa assim, porque ela acabava sempre correndo atrás do próprio rabo. Por um tempo, achei que eles tinham me convencido do contrário. Mas, não… The Bells mostrou que cada personagem só fez aquilo que representava o que eles eram “destinados” a fazer. Ninguém pode dizer que não deixa de ser uma decisão narrativa legítima. Mas, não podemos dizer também que foi a mais rica, surpreendente e honrosa. Weiss e Benioff não sabem quem é Daenerys, nem sabem quem é Cersei, Jamie, Tyrion, Brienne, Sansa… Eles suspeitam que sabem, mas padecemos nós, acompanhando o fim de uma jornada construída em meio àquele perigoso senso de inteligência, que conduz em direção ao erro como se fosse o apogeu da grande descoberta.
> GAME OF THRONES: A Batalha de Porto Real!
Game of Thrones dizimou-se e está a uma estação do fim.
Revoada de Corvos
- Só eu fiquei chocado com como o Gregor se parecia com o Varys quando tirou a máscara?
- Corre a teoria de que é mais difícil acertar o dragão de Dany porque ela o está montando. Conveniente né?
- Na segunda temporada Dany tem uma visão da Casa dos Imortais coberta por algo que parecia ser neve, mas agora encontra mais sentido em parecer cinzas. É preciso reiterar que a ideia de King’s Landing ser queimada passa por muitas possibilidades e o que vimos era, sem dúvida, a mais questionável delas.
- Arya morrer no meio do massacre não, né gente? Cês caíram nessa?
- Eu ainda acho que Cersei não morreu. NÃO PODE TER SIDO SÓ AQUILO.
- No vídeo abaixo um youtuber compilou entrevistas com o elenco onde eles dão sinais CLAROS de que estão tão desapontados quanto nós. Em um dos momentos, Emilia Clarke responde com ironia que “aquela é a melhor temporada de todas”. Em outro, os atores que fazem Davos e Varys trocam um olhar uma gargalhada quando lhes perguntam o que eles acham da temporada final. Kit Harrington chega a usar a palavra “desapontador” para descrever o final. Isso sem falar em Peter, que quando vai citar a tal inteligência de Tyrion, diz: “ele sabia que estavam trazendo mortos de volta e leva mulheres e crianças para uma cripta… acho que ele não é tão inteligente assim”.












