Apesar dos problemas de ritmo em seu percurso, Espelho da Vida termina correta e extremamente emocional.

As histórias de Elizabeth Jhin são conhecidas do grande público justamente por sempre abordarem o amor através do tempo. Seu texto é sempre discreto, emocionalmente calculado, nada afoito, muito mais interessado em sutilezas que em ações eloquentes. Ela gosta de falar sobre emoções que se sustentam acima de qualquer outra coisa. E é claro que sua fé perante o lado invisível do mundo afeta sua obra de formas plurais, enquanto se preocupa em ser minimalista, sem nunca perder o fio da meada dramatúrgico, afinal de contas, estamos diante de um folhetim e a fantasia, a ficção, precisam acessar, vez ou outra, o exagero.

Espelho da Vida é quase como se fosse o resultado de uma evolução em torno da mesma linguagem. A história de Cris tem, até certo ponto, semelhanças com Além do Tempo. Aqui estão personagens do passado e do presente se relacionando através dos conceitos de reencarnação, com um crime como mistério motivador dos eventos. Autores têm disso… Glória Perez passou anos escrevendo sobre o choque cultural entre ocidente e oriente, Aguinaldo Silva passou anos brincando de realismo fantástico, Manoel Carlos escreveu arduamente sobre as crônicas do Leblon. Elizabeth também tem seu motivador criativo e a elegância e equilíbrio no texto de Espelho da Vida mostram que ela chegou até o ápice do próprio estilo.

As características serenas de sua forma de contar histórias acabam gerando, também, alguns efeitos colaterais. Além do Tempo, sua antecessora, teve 161 capítulos. Espelho da Vida teve 160. Um a menos, mas com a sensação de que parecia o dobro. É até um pouco injusto que todos os elogios feitos à autora se choquem com uma crítica pesada ao ritmo da novela. Mas, é impossível não considerar a notória morosidade da produção durante vários de seus meses. Contudo, o problema não era, de modo algum, um problema textual. Se Espelho da Vida tivesse dois meses a menos ela seria, provavelmente, uma das obras mais eficientes e relevantes da recente história da nossa teledramaturgia.

Black Mirror

No começo, a novela parecia flertar com Outlander e prometia metalinguagem na sua abordagem. Foi para fazer um filme que os personagens centrais acabaram indo parar na tal cidadezinha mineira. A história, então, era dividida em três núcleos: a rotina da cidade, o filme e o passado. Haveria, então, três versões para vários desses personagens. A versão do filme, a versão do presente e a versão do passado. Era uma ideia realmente inspiradora, já que logo em seguida, o público poderia começar a especular que personagem apareceria em sua versão dos anos 30 e qual seria seu grau de ligação com quem estava no presente.

O minimalismo, entretanto, era realmente uma parte essencial da trama. Durante os primeiros meses da novela, as viagens no tempo de Cris eram vividas rapidamente e descritas verbalmente de modo constante. O núcleo do filme era bem intencionado, mas tinha dificuldade de ser orgânico e muitas vezes soava como se a escalação de Alain para os papeis tivesse sido um pouco equivocada. A escalação da própria novela, enfim, também tinha suas controvérsias… João Vicente de Castro se esforçou bastante, mas tinha dificuldades para estabelecer a ambiguidade de Alain, soando na maioria das vezes muito mais como vilão. Alinne Moraes sabe segurar uma antagonista, mas a Diana de RockStory ainda é muito recente, também tinha uma filha e um romance que queria destruir em parceria com João Vicente. Essa repetição poderia ter sido evitada.

Vitória Strada não foi a primeira opção para a protagonista (nem a segunda), mas fica difícil imaginar que outro caminho criativo poderia ter sido executado caso as primeiras opções tivessem aceitado. Por vezes uma diferença corporal ou vocal se fazia necessária’” para distinguir Julia de Cris, mas é compreensível que Vitória não tenha seguido essa indicação, já que embora as encarnações fossem diferentes, as duas tinham personalidades iguais. Outras vezes Vitória também parecia polida demais, sempre com tudo no lugar, sem um só fio de cabelo desarrumado, como se fosse uma heroína plastificada. Mas, ainda assim, competente. Felipe Camargo teve mais sorte, já que Americo e Coronel Eugênio eram bem diferentes. Assim como ele, Irene Ravache, Reginaldo Faria, Emiliano Queiroz e Ana Lucia Torre dominaram os sets com inteligência.

Os meses de morosidade seguiam em frente, mas o texto de Elizabeth e a direção de Pedro Vasconcellos não tinham pressa. Foi apenas em janeiro desse ano que as coisas começaram a esquentar e as tensões criadas começaram a explodir. Em fevereiro o ritmo voltou a cair, para em março os capítulos se tornarem irresistíveis. Um a um, os destinos foram se encaixando e mostrando que o planejamento foi o ponto chave dessa carpintaria. A autora já sabia exatamente o que pretendia e nos conduziu até o último capítulo sem desviar e também sem correr. Até mesmo a revelação do assassino de Julia respeitou a coerência, fugindo da sedutora ideia de contradizer para surpreender.

Enfim, com um último capítulo cheio de decisões certas a novela terminou deixando uma impressão 100% positiva. Os destinos de Isabel e Alain respeitaram a ideia de dar aos antagonistas a consciência como punição e, efetivamente, as soluções kármicas para vários dos personagens foram muito coesas. Isso sem falar nas cenas envolvendo a partida de Margo, que foram sensíveis desde a escolha de ângulos até a trilha sonora (que já era, no geral, bastante boa).

> 3 SÉRIES CLÁSSICAS IMPERDÍVEIS!

É natural que a euforia do fim apague a sensação de tédio que vários capítulos provocaram, mas considerando os trabalhos questionáveis de Verão 90 e O Sétimo Guardião, o trabalho em Espelho da Vida foi correto, seguro e especialmente delicado.

Artigo anterior‘Órfãos da Terra’: Conhecemos um pouco do mundo da próxima novela das 18h
Próximo artigo‘The Umbrella Academy’ é renovada para segunda temporada pela Netflix