Quando Gerard Way começou a priorizar seu trabalho como roteirista de quadrinhos e deixou a música em segundo plano, muitas pessoas estranharam e até condenaram esse comportamento. Os fãs, que até hoje sonham com a volta improvável do My Chemical Romance, torcem o nariz e muitos não gostam desse novo rumo que ele tomou para sua vida. Antes do sucesso mundial com a música, Way cursou Artes Visuais nos anos 90. Provavelmente ele “improvisava” suas histórias nos álbuns que sua banda produzia. Eu não usaria a palavra “roteirista frustrado” devido à grande qualidade de suas músicas, mas o fato é que ele nunca esteve completamente satisfeito, tanto é que sua banda ruiu sob o argumento de que tudo estava insustentável e, após isso, nunca mais deixou de trabalhar com quadrinhos. Gerard Way, junto com o desenhista brasileiro Gabriel Bá, dão vida à série de quadrinhos The Umbrella Academy.
Atenção: a crítica contém SPOILERS da série de TV e da HQ!
Fortemente carregada de bizarrices e excentricidades e com dois volumes lançados até o presente momento (com o terceiro atualmente em produção), os quadrinhos são bastante inspirados em histórias mais sérias e adultas, como Watchmen. Com heróis fracassados, problemas emocionais e relacionamentos destruídos, cada volume possui seis edições e são histórias bem curtas e diretas. Com o anúncio da série, há alguns anos, esse desafio de preencher os episódios com construção de personagens e elaboração de um universo próprio e identitário seria talvez o que mais me aguçou a curiosidade em acompanhar como seria a série televisiva.

A Academia
A série possui um elenco fino. Muitas produções pecam na escalação de sua equipe, com um pensamento de ter um grande nome atrativo, uma grande estrela, deixando o restante muito aquém, por exemplo, com atores inexperientes e efeitos especiais fracos… The Umbrella Academy consegue magistralmente driblar todos os obstáculos e, embora haja um ou outro ator que esteja um pouco sobrando ali, em geral tudo é muito orgânico. A série conseguiu nos dar seis protagonistas com um passado muito interessante, um bom desenvolvimento de suas personalidades ao longo dos dez episódios e todos são muito diferentes e ricos. Meu receio inicial do esticamento de uma história simples em dez episódios de cinquenta e tantos minutos cada foi rapidamente superado.
Números Um, Dois e Três
Luther (Tom Hopper), Diego (David Castañeda) e Allison (Emmy Raver-Lampman) são aqueles que possuem uma rotina mais “simples” de se entender. Enquanto Diego é um justiceiro que vive nas ruas e tem poderes mais próximos da realidade (a comparação com Batman, Demolidor, Justiceiro, etc é inevitável) ao conseguir sempre acertar seus alvos com suas facas, Allison tem a habilidade de manipular as decisões de quem ouve seu “rumor”. Já Luther possui uma super força e… É apenas isso. O interessante de seu personagem é o trauma, a vergonha de como seu corpo adquiriu características de um símio, causando esse sentimento de monstruosidade.
Considerando apenas esses três, Diego é o mais interessante e mais bem trabalhado durante a série. Luther é por vezes bastante unidimensional e sua função de líder nunca se justifica, principalmente no episódio final em que seu plano é simplório e falho demais. Seu apelido “Spaceboy” não faz sentido nenhum na série, pois desde criança ele o possuía, mas somente após adulto ele foi morar na Lua. Por isso, Diego ganha contornos mais plausíveis ao questionar essa “liderança comprada”. Seu temperamento explosivo e provocativo torna crível sua relação conturbada com a polícia e Luther. Os poderes de Allison aparecem pouco durante o show. O que vale mesmo da personagem é sua relação com Vanya, que é muito interessante e o contraste com a que ela tem com Luther é grande. É pouco crível e talvez seja um dos pontos mais fracos da série. A cena de dança entre eles é forçada e talvez até uma vergonha alheia, eu diria. De todo modo, as interações entre esses três personagens são interessantes, mesmo que nem todas funcionem sempre.
Números Quatro, Cinco e Seis
Klaus (Robert Sheehan) é de longe o personagem mais carismático. Sua despreocupação, suas falas desconexas, sua cabeça sempre avoada são muito divertidas no começo, quando todo mundo está preocupado com a morte do pai, Reginald Hargreeves (Colm Feore). Klaus é o alívio cômico inicial, mas logo podemos entender melhor o motivo dele se comportar desse jeito e seu poder de se comunicar com os mortos traz muitas possibilidades futuras para a história. Número Cinco (Aidan Gallagher) é um dos mais interessantes personagens, pois é um homem de quase 60 anos no corpo de um garoto de 13 que ficou décadas preso num futuro pós apocalíptico após saltar no tempo. É uma pessoa bastante pragmática e, embora pareça muito não ter empatia com os demais, seu objetivo durante toda a temporada é salvar o mundo. Número Cinco cansa um pouco no meio da temporada, devido aos vais e vens excessivos que existem no meio da história.
Já o Número Seis (Justin H. Min), cuja morte não é explicada em nenhum momento, aparece como criança em flashbacks e como um “companheiro fantasma” que sempre está com Klaus. Na HQ, o mistério por trás de sua morte e o grande trauma que isso trouxe para o grupo é o que torna o personagem interessante – ou melhor, a ausência do personagem na história e o que isso causa nos demais é que o torna tão interessante. Mantê-lo por perto faz a série perder esse fator de fardo dramático dos demais, mas, por outro lado, faz o grupo parecer mais unido, traz mais unidade ao conceito da Umbrella Academy, principalmente ao se descobrir que Klaus consegue invocar seu irmão momentaneamente. Sendo assim, sua morte é suavidade. Perde cá, ganha lá.

Número Sete
Na HQ, Vanya (Ellen Page) é uma personagem um tanto quanto mal utilizada. Ela praticamente não interage com seus irmãos e é a grande vilã da primeira edição, mesmo que esse lugar não tenha sido alcançado muito conscientemente. Lá, Vanya aparenta enlouquecer após uma operação feita por um vilão, cuja oferta de vingança contra sua família havia sido aceita inicialmente por Vanya. Na série, tudo acontece de uma forma muito mais gradual e, embora sua relação com seus irmãos seja problemática, há claramente um vínculo entre eles. Há uma preocupação e carinho. Vanya não é vilanizada sem uma preocupação com o que a carregou até ali. Ela é aquela que sempre se preocupou com a volta do Número Cinco, ela é quem mais interage com Allison e uma amizade entre elas é construída naturalmente ao longo da série. Quando elas se desentendem, as consequências são muito sentidas por nós, tanto aquelas que afetam Vanya quanto as que afetam Allison. Vanya é obrigada a reprimir seus poderes e, quando eles vêm à tona, eles vêm com tudo.

Todo o potencial de Vanya é descoberto e incentivo por Leonard Peabody/Harold Jenkins (John Magaro), um óbvio vilão que desde o começo é perceptível seu interesse forçado em Vanya. Entendo que a construção desse personagem faça total sentido: ele é aquele que cria um conflito de dentro da família pra fora; ele é aquele que consegue atingir seu objetivo sorrateiramente e, embora derrotado (morto, na verdade, rs), ele vence. Porém, tudo é muito óbvio. Ele querer ter sido um membro da Umbrella Academy quando criança o coloca dentro de um arquétipo vilanesco muito previsíveis e já batido no nosso imaginário. Penso que se ele tivesse desestabilizado a família de outros jeitos, interagindo também com outros membros da família, além de Vanya, teria sido mais interessante vermos como sua inteligência e seu plano eram mais bem planejados ao final da temporada. Havia potencial nesse personagem, mas somente uma parte é bem usada.
Demais vilões
Hazel (Cameron Britton) e Cha-Cha (Mary J. Blige) são assassinos mercenários que aparecem somente no segundo volume, Dallas, mas são trazidos para esta primeira temporada da série. Considero-os parcialmente como um bom adicional à trama. Faz sentido Cinco ter chamado atenção com a sua volta ao presente, mas esses dois vilões cansam um pouco com o passar da história. Como mencionei antes, há muitos vais e vens no meio da temporada e Hazel e Cha-Cha cansam ao passo que a história se desenrola e eles não saem do lugar. O pouco que conhecemos a respeito deles não nos faz torcer muito por uma redenção ou por algum embate definitivo entre os mesmos e os protagonistas. O flerte entre Hazel e Agnes (Sheila McCarthy) é desprovido de sal (ou açúcar? rs) e, apostando no absurdo, a série poderia ter ido por uma veia mais carregadamente cômica.

A Manipuladora (Kate Walsh) é responsável pela perseguição ao Número Cinco através dos bastidores da organização A Comissão. Por ser um dos nomes mais conhecidos do elenco, juntamente de Ellen Page, Walsh é tipo uma coadjuvante de luxo e traz atenção à série por quem não é muito ligado em quadrinhos. Embora seja improvável seu retorno no futuro, a personagem serviu para dar consistência e fortalecer o conceito da organização. Dito algumas vezes, há pessoas em cargos superiores e que provavelmente darão as caras em uma eventual segunda temporada.
Demais personagens do Apocalipse
Reginald Hargreeves é o grande motor por trás de tudo que acontece nessa primeira temporada. Sua morte, envolta de grande mistério, é o que une o grupo e seu passado é muito interessante. Apesar de em nenhum momento ficar muito claro, há evidências de que ele não seja humano (como na HQ): há uma cena rápida (e confusa) no último episódio, mas é pouco e não me sinto confortável em confirmar essa origem do personagem. Espero que abordem mais sobre isso e sobre como ele sabia do fim do mundo desde o início da série.
Pogo (Adam Godley), apesar de possuir o papel de ser o mentor do grupo, responsável por dar suporte na ausência de uma figura de autoridade na casa, fica muito aquém do que ele poderia ter sido. Em nenhum momento é mencionado como ele adquiriu a fala e a inteligência humana (embora na HQ seja sabido desde o começo) e ele se torna, com o passar da história, apenas o personagem que revela os segredos de Reginald, quase como um vício de roteiro. Sua morte poderia ter sido mais brutal e mais sentida por nós.
Mais história e menos bizarrices
Em um olhar geral, a série funciona como uma adaptação da primeira HQ, Suíte do Apocalipse, mas com alguns momentos vindos de Dallas, a segunda. Em outras palavras, é uma versão estendida e mais aprofundada dos personagens existentes no material fonte. Todos são bem trabalhados e interagem entre si de diferentes formas: sejam em duplas ou trios, sejam todos juntos exceto algum deles presente, há bastante movimentação do elenco nos núcleos. A diversidade do elenco também traz bastante frescor às interações e dificilmente a sensação de repetição e enrolação aparece.
Entretanto, embora ganhe nesse aspecto, senti muita falta de mais excentricidades do mundo criado na HQ nessa primeira temporada. A impressão que dá é que tudo é exatamente igual ao mundo como conhecemos, exceto pela Umbrella Academy. Onde estão os seres extraterrestres andando pelas ruas? Onde estão os outros símios dotados de inteligência? Onde estão as ameaças bizarras que os irmãos enfrentavam? A série tinha muito potencial pra pesar a mão na estranheza, mas tudo é bem mundano e simples. Gostaria de ver, em uma segunda temporada da série, mais desse lado da HQ explorado.
Já os efeitos visuais estão bem legais. Algumas cenas envolvendo Pogo são meio suspeitas, mas não incomodam, no geral. Os poderes são bem representados e a destruição da mansão é bastante crível. As cenas de luta são satisfatórias e várias mortes são lotadas de violência gráfica e sangue – o que é muito bom e fidedigno, já que o material fonte também possui essa característica. Quem sabe a série possa pesar mais a mão nisso também.
A trilha sonora é muito agradável também. Explorando desde temas clássicos de jazz, passando pelo rock clássico e indo até o pop e rock modernos, há sempre uma ironia por trás do que está sendo tocado. Por exemplo, se a cena é uma luta brutal com várias mortes, sarcasticamente a série nos dá uma baladinha romântica. Outro aspecto técnico que gostei muito foi o figurino dos personagens, com as cores muito bem representadas em cada um.
O que esperar na segunda temporada?
Primeiramente, é preciso que haja um anúncio da Netflix de que teremos uma segunda história da Academia. Assumindo que sim, teremos a adaptação de Dallas. Porém, como vários elementos desse volume já foram adaptados para essa primeira temporada, imagino que várias liberdades criativas serão tomadas – o que não considero algo ruim, de forma alguma. Se a audiência for satisfatória, imagino que todos os arcos dos quadrinhos serão adaptados na série de TV: há duas histórias finalizadas, uma em andamento e mais cinco planejadas, totalizando oito.
Portanto, da segunda temporada eu espero mais esquisitices, mais brutalidade nas mortes e mais consequências definitivas das decisões dos personagens. Há pouco apego – quase nenhum, na verdade – com os personagens na HQ. Tudo é muito cruel e ninguém ali é intocável. Todos estão sujeitos a terem suas cabeças explodidas ou suas mentes danificadas permanentemente. Não queria ver a série manter o elenco inteiro por todos os anos: gostaria de ver essa visão pessimista permeando as próximas histórias.
> OSCAR MELHOR FILME! Como o Vencedor é Escolhido?
The Umbrella Academy tem um ano de estreia muito bom e trabalha com calma todas as suas tramas. É uma versão estendida da HQ e, ao mesmo tempo que se desvencilha do original, é muito respeitoso com ele, mantendo todos os conceitos e o espírito presentes na obra. Nem tudo funciona, como a liderança de Luther, a empatia pela dupla Hazel e Cha-Cha, a previsível virada vilanesca de Leonard e a falta de elementos visualmente mais chamativos… Mas isso tudo perde força perante o grande desenvolvimento de personagens, com cada um tendo seu momento de destaque, a humanização de Vanya e o clima envolvente que a série proporciona. Que venham mais temporadas!















