É notório que a expectativa constitui um aspecto muito importante nas situações que enfrentamos diariamente. A própria Ciência mostra que pessoas que encaram a vida com segurança e otimismo conseguem se sair melhor ao realizarem seus objetivos, o que sem dúvida é muito bom. Contudo, quando a expectativa não vem acompanhada de boas decisões, que são os elementos que concretizam os acontecimentos em si, o efeito rebote é quase certeiro.
Assim como Scoobynatural foi um episódio dotado de extrema visibilidade pelo público, Lebanon foi cotada para ser a carta na manga desse 14º ano. A proposta foi sim bem bacana, aproveitar o fechamento de mais um ciclo numerológico de episódios (afinal, não é todo dia que vemos uma série completar 300 episódios) e com isso, apresentar inúmeras referências a casos já solucionados no passado e realizar reencontros emblemáticos como o de Mary e John; Mas somos hunters a tempo suficiente para saber que não é apenas isso que torna um episódio bom e memorável: Ainda que as interações entre os Winchesters tenham sido o ponto alto da semana, Lebanon pecou em nos apresentar um background simples, para não dizer superficial. Por esse e uma série de outros motivos que explicarei mais adiante, fiquei com as opiniões divididas, o que me leva a dizer que tenho duas notícias para dar a vocês.
Qual vocês querem antes? A boa ou a má notícia?
Pois bem, começando pela má notícia, não fiquei muito satisfeito com a estrutura do enredo mostrado em Lebanon. A começar pelos clichês que foram apresentados; Fazendo uma análise rápida, pode-se perceber que o principal problema que Sam e Dean tiveram que lidar foi a questão da manipulação do tempo. Cara, isso é algo que já foi tão difundido na série que acredito que ninguém tenha mais saco para isso. Pelo o que ficou parecendo, quiseram trazer John de volta por trazer mesmo ou apenas para chamar atenção, através de um símbolo nostálgico que é o que ele representa, do pessoal que continua achando que a série deveria ter acabado na 5º temporada. Pior que depois dessa, não consigo tirar a razão desse pessoal.
As cenas que se sucederam após o retorno de John não tiveram um propósito tão grande assim, serviram apenas para avisar o que nós já sabemos e muito: Mexer com o tempo é extremamente perigoso. Outro ponto, também fiquei surpreso ao saber que eles não desconfiaram que John poderia ser um demônio ou anjo. Será que após tantos anos presenciando várias ressuscitações, nem mesmo eles se surpreendem mais a ponto de já aceitarem sem objeções o retorno de quem quer que seja.

Já transmitindo a boa notícia, digo que o episódio também nos deu aquela sensação gostosa de nostalgia. Por onde começar? As referências a episódios passados foram tantas que até me perco. O macaquinho do Road House deu as caras de novo – pela segunda vez nessa temporada – A mão da glória foi claramente uma referência a Red Sky at morning (3×06) – que ao contrário do que muitos pensam, é um episódio que gosto muito e é um dos meus favoritos da 3º temporada – As bonecas que estavam encostadas na estante me fizeram lembrar bastante de Playthings (2×11) e tenho quase certeza de que o urso de pelúcia me remeteu à Wishful thinking (4×08); Isso sem contar em todos os saquinhos de bruxa que estavam ali. Ou seja, um prato cheio para quem é fã de longa data da série e diga-se de passagem, eu adoraria ajudar o Sam no catálogo de todos os artefatos e poder analisar todos aqueles itens com mais calma.
Os eastereggs não ficaram somente por conta dessas peças; Também foi muito bacana rever o palhaço de Everybody loves a clown (2×02) e com isso, a fobia de Sam por palhaços. Perfeito. SPN conseguiu jogar pesado com a saudade que nós temos daqueles velhos tempos e inclusive, até a ambientação foi proposital. Lebanon (Kansas) é a cidade onde os irmãos viviam antes de Mary ser assassinada por Azazel, que também foi mencionado algumas vezes por John; Mesmo parte do episódio tendo se passado no Bunker, que é um elemento relativamente novo e que surgiu na 8º temporada, percebia-se que nas cenas em que os rapazes estavam fora, a série conseguia transmitir aquele clima de 1º temporada. Poderiam também ter dado um jeito do John tentar fugir por algum motivo. Seria emblemático para os irmãos desvendarem o seu paradeiro, dado que o 1º ano da série quase todo se deveu a isso.
Quando vi Sam mencionando a pérola dos desejos, previ que esse seria o maior exemplo de Deus Ex Machina já visto na história das produções audiovisuais, mas suspirei fundo ao saber que Lebanon não levou isso tão a sério. Não sei como a pérola funciona, pois o episódio não foi tão explícito mas o desejo para ser realizado precise ser algo mais forte, algo que vá além do consciente; Talvez isso explique o retorno de John, dado que o próprio Dean mencionou que queria há muito ver toda a sua família reunida. E quem diria iríamos viver para encontrar esses quatro Winchesters juntos, jantando e conversando como uma família normal?
Foram ótimas cenas que foram mostradas ali, pois foi algo nunca visto antes; Com destaque para o diálogo entre John e Sam. Além de todos sabemos que a relação entre dois era complexa, ao trocar sua alma pela de Dean, John partiu sem avisos e por mais que interiormente, o filho tenha perdoado o pai, os dois precisavam dessa última conversa esclarecedora. Foi legal vê-los superando juntos os erros do passado e ver que após esse reencontro, não sobrou espaço para mágoas e ressentimentos.

Assim como John, Mary não desempenhou nenhum papel importante no episódio e isso também incomodou bastante. Caso tivessem incrementado uma caçada e pudéssemos ver esses quatro ícones em ação, Lebanon teria uma conotação bem diferente, pois como já havia dito antes, os elementos dramáticos apresentados foram sim bem atrativos, mas tornou o esqueleto, o miolo do episódio bem frágil. É certo que talvez isso tenha sido meio que proposital, pois eu mesmo já estava convicto de que o episódio não iria apresentar nada concreto que realmente ajudasse a essa altura e sim ser aquele ponto fora da curva, como Scoobynatural foi; Sendo portanto – parafraseando a mim mesmo – aquele episódio que faz com que o público apenas “relaxe”, que recupere o fôlego durante a temporada. Mas mesmo pensando assim (e com uma certa dose de esforço), Lebanon não conseguiu chegar nem aos pés do sucesso que o crossover do ano passado foi. Triste, mas é a realidade.
O fato de Zachariah estar vivo e Castiel não conseguir reconhecer Dean são outras provas de que mexer com o tempo é perigoso. A própria aparição de Cass soou como uma referência a The lazarus rising (4×01), episódio em que ele aparece, fala que é um anjo do senhor e as luzes soltam faíscas. O posterior confronto entre os irmãos e a dupla de anjos mesmo que não intencionalmente, também nos faz relembrar a 4º e 5º temporada, quando o confronto entre os Winchesters e os anjos começaram a fomentar, inclusive (essa é apenas para o fãs-raiz da série) o instrumental tocado no momento da briga já havia tocado antes na série, em The king of dammed (9×21) na cena da morte de Abbadon. Como fã da série, admiro e muito tais aspectos, mas como crítico, digo que faltou conteúdo aí também, pois a presença dos anjos foi subestimada, sendo colocada apenas para reforçar a nostalgia da série.

Mesmo que seja bom ver todos reunidos, os próprios irmãos concordaram em desfazer o desejo da pérola e com isso, ter um último jantar em família. Adoraria saber o que tanto eles falavam após a música ter iniciado, mas me contive ao vê-los rindo e conversando; Sinceramente, senti falta de uma selfie da família Winchester. Sem dúvida, esse momento merecia. Depois dessa, é fato para os irmãos que mesmo que eles tenham perdido pessoas importantes ao longo da vida, que não tivessem sofrido essas perdas, eles não seriam quem são hoje e tenho certeza que Dean não aprovaria uma vida fugindo da polícia nem Sam curtiria uma vibe Steve Jobs. Portanto, um viva para o que os Winchesters têm e como eles são agora.
É isso aí, galera. Com a exibição de Lebanon, SPN agora entra em hiato. Ouroboros volta com tudo dia 7 de março. Até lá!
Observações:
- Nem os episódios da própria 14º temporada escaparam das referências: Numa das primeiras cenas, o cartaz do filme “All saints day” foi mostrado;
- O cartaz de procura-se de Dean também é uma característica forte e divertida da série; Também foi uma boa ideia trazê-lo.















