“Uma temporada sem um grande arco narrativo.” Essa foi a promessa feita por Chibnall e que serviu como direção a ser seguida para o desenvolvimento dessa temporada. Ao optar por não incluir um arco que interligasse todas as aventuras, o novo showrunner acabou por distanciar esse novo ano de Doctor Who do estilo que havia sido adotado desde o revival da série em 2005. Nós nos acostumamos a esperar grandes reviravoltas, despedidas de personagens queridos e momentos grandiosos que cada finale se transformou em uma espécie de catarse altamente aguardada e desejada, pois era com elas que teríamos as respostas para os enigmas que permeavam os episódios e, na grande maioria das vezes, seríamos tomados por uma dose de emoção incrivelmente alta e totalmente avassaladora.
Se compararmos essa finale com qualquer outra de anos anteriores veremos uma diferença gritante, mas também perceberemos que seria impossível encaixar uma finale à la “Journey’s End” em uma temporada como essa. “The Battle Of Ranskoor Av Kolos” é um reflexo exato do que foi essa temporada, seja em questão de ritmo, direção ou engajamento, mas o maior problema enfrentado nessa conclusão é, possivelmente, a falta de expectativa em relação ao que viria. Ao trabalhar cada capítulo de forma independente foi dado um espaço para que os roteiristas criassem e imprimissem suas visões de uma maneira única, mas também impediu que uma linha que costurasse essa sensação de continuidade e pertencimento fosse construída. Isso fez com que essa finale fosse encarada como “apenas mais um episódio”.
Some a isso o fato de que existe uma dificuldade muito clara de criar qualquer tipo de tensão e/ou componente emocional durante o episódio com a famosa correria dos minutos finais e você terá um resultado bem abaixo do esperado. “The Battle Of Ranskoor Av Kolos” é um episódio mediano, redondinho, mas que não ousa e não se parece em nada com uma finale. O impacto desse episódio seria o mesmo se ele tivesse sido colocado no meio da temporada. Tudo bem que ficou claro que as aventuras da Doctor ao lado da sua nova família (?) não chegaram ao fim e por isso não haja esse sentimento de conclusão, e sim de continuidade, mas nem mesmo o retorno de Tim Shaw serve ao propósito de fechar e concluir esse primeiro ciclo de uma forma totalmente convincente.

E também é chegada a hora de fazer um balanço geral dessa temporada. Ela não foi incrível, mas também não chegou a ser um desastre. Os erros estão aí e não devem ser minimizados, principalmente aqueles que se referem aos roteiros. Finalizar as histórias de maneira apressada, apelando para soluções fáceis se tornou algo recorrente, principalmente nos roteiros escritos por Chibnall. Nessa finale, por exemplo, existia um excesso de problemas complexos a serem resolvidos em apenas dez minutos e para não se alongar nessas dificuldades ele acabou apelando para um grande deus ex machina. Criar um desfecho decente não é coisa de outro mundo, desde que se planeje com cuidado os rumos que a história irá tomar e não gastar tanto tempo com conceitos que não serão inteiramente desenvolvidos.
O trabalho de Jodie como a Doctor, por outro lado, merece ser destacado, já que ela se saiu muito bem ao defender com muita garra um papel tão icônico, trazendo uma leveza e uma presença de espírito tão únicas para um personagem que, até pouco tempo atrás, era atormentado pelos horrores de uma guerra que deixou marcas profundas na sua personalidade.
No que diz respeito aos companions é preciso pontuar que até o quarto episódio parecia que teríamos um trabalho de lapidação de personalidade muito efetivo em cada um deles e isso era um grande atrativo para a série, mas essa construção acabou se perdendo durante os episódios seguintes. Graham é claramente o destaque desse trio. Desde o luto pela morte da Grace, passando pelas tentativas de conquistar a confiança do neto, até as suas interações com a Doctor (das mais cômicas até as mais sérias), nós vimos a sua personalidade ser desenvolvida em todos os episódios e por isso ele é a figura que se sente mais completa e não à toa se tornou um personagem muito querido por grande parte das pessoas. Ryan se mostrava promissor com os conflitos envolvendo sua família e a dispraxia, mas todas essas coisas foram deixadas de lado. A dispraxia simplesmente desapareceu durante o decorrer da temporada e a sua relação com Graham começou bem, regrediu um pouco e se tornou uma sucessão de interações burocráticas em várias aventuras, tanto que aquele que seria o grande momento entre eles, com Ryan reconhecendo Graham como seu avô acabou sendo apenas uma passagem artificial e sem impacto. E embora tenha tido dois episódios dedicados à sua família, Yaz foi totalmente subutilizada. Ainda estou esperando aquela garota de atitude e que desejava ser muito mais do que uma policial em treinamento dar as caras e fazer alguma coisa além de só ouvir e acenar.
> O DIA QUE CONHECI OS ELENCOS DE FLASH, ARROW E THE 100!
Diante de um ano cheio de altos e baixos, é fácil julgar e dizer que a série se perdeu, mas sabemos que isso não é verdade. Existe a tentativa e um esforço de fazer algo novo e diferente. Essa pode não ser a temporada dos sonhos que todos nós esperávamos (e eu me incluo nesse grupo), mas vamos torcer para que os erros sejam corrigidos e que as coisas que deram certo sejam aproveitadas e expandidas. Afinal, se mantivermos a fé poderemos ser surpreendidos a qualquer momento.
EM TEMPO:
– Chega de tantos closes nos rostos dos atores!!!
– Alguém avisa a produção que nós queremos ver o interior da TARDIS!
– Gente, o que foi a dublagem dessa temporada? Só para citar algumas bizarrices: Palmirinha, Silvio Santos e Bolsonaro.














