O espaço e o tempo voltam a se entrelaçar na mitologia de Westworld.

A tela se abriu essa semana e lá estavam Dolores e o homem que poderia ser Arnold ou poderia ser Bernard. A conversa começa com códigos dialogais que nos dão pistas de que estamos no passado, quando Arnold ainda estava vivo, até que Dolores toma o controle da cena, nos revelando que na verdade aquele é um momento mais recente, quando Bernard fora construído a partir de Arnold. De súbito, depois de passarmos várias semanas acompanhando roteiros que desvendavam o show, voltamos ao exercício da confusão. O problema é que não somos mais os espectadores de outrora e alguns dos desvios não nos captam mais da mesma maneira… De alguma forma, Phase Space dá alguns passos para trás que não precisavam ser dados.

O truque aqui é vasto, não afeta só as linhas temporais, mas afeta também o que já conhecemos a respeito da consciência anfitriã. O Espaço Fásico do título não deixa de ser uma provocação dessas diretrizes. Sem uma definição muito clara, o conceito desse espaço físico se refere não só a uma grande estrutura que contém todos os seres – sejam eles observáveis ou não (o parque) – como também a um item do espaço-tempo que permite manifestações físicas da existência (a consciência de Bernard dentro de uma versão intocada do parque). Essas “dinâmicas” conceituais estão espalhadas no episódio na maneira como ele se arruma na edição; e isso que é delicado no julgamento desse roteiro. Há bastante tempo eu não tinha essa sensação de que alguém pegou um episódio coeso e saiu embaralhando as cenas aleatoriamente só pelo valor do mistério.

Estamos, contudo, percebendo os caminhos dos personagens de forma clara. Sabemos o que Maeve quer, o que Dolores quer, o que o Homem de Preto quer (e muitos deles querem a mesma coisa), mas isso não significa que essas motivações estão estabelecidas de modo eficiente dentro do contexto geral. E qual é o contexto geral? Aquele era um parque tomado de androides de última geração que começaram a responder inesperadamente ao senso de preservação da vida para o qual foram programados. A série inteira foi construída em cima da premissa de que isso iria acontecer em algum momento e consequentemente, perder essa premissa no processo de resolução de problemas pode enfraquecer os propósitos do show.

Físico 

Como sempre, a trajetória de Maeve é a mais clara. Semana passada falamos sobre como esse “poder” desenvolvido por ela era perigoso e sua passagem pelo Shogun World – sem aquela poesia vista anteriormente – começou a parecer problemática. Maeve ordena que anfitriões matem uns aos outros num momento de crise, mas quando um duelo entre eles se anuncia, ela se recusa a interferir dizendo que “um homem deve ter seu destino, mesmo que esse destino seja a morte”. E aí começam os argumentos frágeis dos quais os roteiros lançam mão para poderem se livrar da cilada onde eles mesmos se meteram. Maeve pode – em teoria – interferir em tudo. Mas, ela não o fará quando for conveniente e justificará sua posição com frases clichês como aquelas.

Esse tipo de decisão narrativa é um câncer para um personagem. Passamos a questionar tudo. Por exemplo: esperamos muito para ver o encontro dela com a filha. Eu já tinha falado que o maior problema de MAeve era não considerar que a filha poderia estar em outra narrativa e isso meio que aconteceu. A menina continuava na mesma história, mas com outra anfitriã designada como sua mãe. Aquele contexto ali, naquele espaço físico, era todo tomado por anfitriões e eles estão todos a mercê da nova habilidade de Maeve. Então, porque ela não interferiu em tudo? Ela poderia. E ainda que haja explicações para que ela não o tenha feito, esse “poder” pode superar qualquer uma dessas explicações simplesmente porque ele existe, está ali, pode ser acessado. Enfim, uma manobra muito arriscada.

Fásico 

Tivemos um grande avanço na trajetória de Dolores, que com Teddy e cia conseguiu finalmente adentrar a central do parque pelo trem que leva os visitantes. Ver isso acontecer foi ótimo. A imagem do trem seguindo naquela direção tem uma representatividade grande para quem está acompanhado tudo até aqui. Há uma motivação muito clara e até mesmo a mudança drástica na personalidade de Teddy funcionou perfeitamente para ele e oferece ao James uma oportunidade de colocar perspectiva no papel. Podemos, apesar disso, levantar uma pergunta importante: não seria Teddy, como era antes, uma ferramenta de equilíbrio que mantinha Dolores longe do vilanismo indiscriminado?

Não deixa de ser curioso também, que na mesma semana em que Teddy se transforma num elemento com a “humanidade desligada”, o Homem de Preto tenha recebido de presente um elemento que nos aproxima de quando ele exercitava a própria. A presença da filha ainda é uma incógnita até para ele, mas bastou um mínimo diálogo entre “pai e filha” para que os olhares de Ed Harris ganhassem uma faísca diferente, uma hesitação emocional desajeitada; e sabemos que para um personagem com o histórico dele, esse tipo de aprofundamento é importante.

Preciso, com isso, ser justo com o universo sobre o qual estamos falando aqui. O Velho Oeste, dos clássicos filmes vintage, era tomado de maniqueísmos. Mocinhas indefesas, justiceiros heroicos e bandidos implacáveis; a fórmula era essa. Culturalmente falando a engrenagem se estabeleceu assim. Aquilo fazia parte dos códigos sociais vigente naquele tempo e a indústria se movia apenas naquela direção. Porém, quando falamos de dramaturgia contemporânea, trazemos nossas expectativas para a ficção como ela é entendida hoje, nessa era pós-Sopranos em que ninguém é bom ou péssimo em medidas exatas. Estamos vendo uma série que invoca um código dramatúrgico antigo, com um olhar que é opressivamente moderno. Então, quando o Homem de Preto ou Dolores (e agora Teddy) agem com um quase inexistente senso de humanidade que é constante, isso nos incomoda. É por isso que se identificar com os dramas de Maeve ou Bernard é tão mais fácil.

Bernard, aliás, foi quem encerrou os eventos do episódio, reencontrando uma versão de Ford dentro daquela consciência materializada. Respostas sobre isso só devem vir no próximo episódio, mas é interessante como esse momento foi exibido com frames em widescreen, do mesmo jeito que na primeira sequência (entre Dolores e ele), insinuando que elas talvez representem um mesmo espaço ou tempo, ou espaço-tempo, visto que as camadas de realidade física e realidade abstrata estão sobrepostas de modo pouco claro. Algo me diz que parte do que envolve essa nova grande narrativa de Ford será desvendada nessa incursão metafísica de Bernard, mas acho uma pena que a série tenha voltado a querer confundir só pelo exercício da confusão. Westworld tem um plano, mas como toda boa série do nosso tempo, ela não se atém a ele. Mesmo assim, esse plano nunca pode se perder de vista… Ramificações são importantes, mas sem um tronco de raízes firmes elas podem crescer demais e derrubar todo o arvoredo.

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Westwords: Papai de Dolores foi pregado na cadeira. Tenso.

Westwords 2: Agora sabemos que Lee pegou um telefone e que vai usar para chamar os amiguinhos. Prevejo sangue.

Westwords 3: Vamos apostar quem fala menos nessa temporada? Acho que tá entre Hector e Clementine. Por enquanto ela ganha, mas nunca se sabe.

REVISÃO GERAL
Nota:
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westworld-2x06-phase-spaceWestworld tem um plano, mas como toda boa série do nosso tempo, ela não se atém a ele.