Virtú e Fortuna abre a discussão filosófica de Westworld e aproveita para promover a convergência de seus mundos.

A Grécia antiga nos deu o mundo como ele é – alguns diriam. Esse lugar foi o berço da civilização em várias instâncias. Eles nos deram a arte, o esporte, a mitologia e – mais importante – nos deram a filosofia. Parte dessa filosofia, por razões óbvias, estava sempre flertando com o lúdico, com o fantástico… Civilizações antigas, incapazes de esclarecer certas complexidades mundanas pelo viés científico, explicavam esses pormenores sob uma ótima onírica ou supersticiosa. Não é surpresa que o advento da riqueza, da glória social, do poder, tenha fulgurado entre os gregos na forma de uma deusa. O nome dessa deusa era Fortuna e embora seus desígnios fossem cegos e aleatórios (dependentes da sorte), ela poderia ser seduzida e cortejada.

Em 1512, depois de ser exonerado de seu cargo público quando Médici voltou ao trono da Itália, Maquiavel tomou a decisão de escrever um manual de instruções ao novo rei, para que ele alcançasse e pudesse manter a soberania. Esse “manual” acabou se tornando um clássico da filosofia e chamado O Príncipe, atravessou o tempo como exemplo de como precisam funcionar os códigos de poder entre aqueles que o detém de alguma forma. Ou seja, para seduzir Fortuna é preciso ter a capacidade de dominar sua força e destreza. Essa capacidade foi chamada de virtú.

Então, Westworld abre seu terceiro episódio de modo inesperado: ele nos apresenta o RajWorld, um parque que reproduz a India da época em que ela era dominada pelos britânicos. Mais tarde, no mesmo episódio, terminamos com uma sequência que revela os residentes do ShogunWorld, um parque que reproduz o Japão feudal. Com isso, temos três reinos bem definidos na mitologia da série. Reinos esses que convergem num momento complexo da história dos parques: o momento em que um anfitrião, tomado de uma pretensa força, decide que vai seduzir Fortuna e sorver de seu poder. Mas, seria mesmo Dolores o Príncipe ungido com as capacidades de virtú?

Bernard e o Infortúnio

Westworld (que aparentemente terá seu título sendo colocado em dúvida se as coisas continuarem assim) abriu sua terceira semana dando um recado direto ao público: não estamos querendo masturbar enigmas. O tigre morto que vimos saiu exatamente do RajWorld, assim como uma visitante que acabou atravessando os limites do parque e se misturando a um “mundo” que não foi aquele para o qual ela se “inscreveu”. O show tem manipulado muito constantemente essas noções de “mundo”, quase parodiando referências bíblicas ao mostrar seus anfitriões imbuídos em uma atmosfera messiânica constante.

É curioso ver como o encontro de Bernard e Dolores estabelece a separação definitiva entre eles. Ela anda entre os homens como um Deus, dotada de uma compreensão maior sobre a origem das coisas, determinada a subjugar a raça que antes havia tentado subjuga-la. Ele, apesar de estar mais “acordado” que ela, passeia entre os mesmos homens melancolicamente. Bernard é um arremedo de consciência, ele não parece ter a menor ideia do que fazer e todo esse privilégio para ele funciona como um agente perturbador. Ele vai seguindo as ordens que lhe dão, seja Dolores ou Charlote, não importa. Sua “sorte”, quem diria, consistia em não ter a grande consciência das coisas, num contraste absoluto com o que Dolores representa no enredo.

O ator ganha com isso, de fato, muito mais que atriz. O episódio reuniu Dolores com o “pai”, o que deu a Rachel um pouco mais de material emocional com o que trabalhar. É interessante ver como ela compreende que aquele não é seu pai de verdade, mas mesmo assim tenta preservar uma ligação com ele. O episódio trabalhou um pouco dessas questões também no momento em que Bernard reprogramou um dos anfitriões para passar de um pistoleiro estuprador para um pistoleiro protetor. É intrigante e muitas vezes preocupante, que a mitologia da série passe tanto tempo estabelecendo o poder de autoconsciência dos anfitriões, mas ao mesmo tempo apresente momentos em que a identidade deles é alterada tão facilmente. Nos leva retomar aquela discussão sobre até que ponto esse livre-arbítrio não é só mais uma reprogramação sofisticada.

Mas, Bernard tem um problema maior: sobreviver. E esse problema parece ser o que mais lhe aproxima dos humanos.

Maeve e a Virtude

Acho que podemos estabelecer que Maeve é a anfitriã com motivações mais claras. Sou sempre levado a desconfiar da individualidade de Dolores justamente porque as motivações dela são messiânicas demais, ambiciosas demais. Maeve quer encontrar a filha e na sua trajetória para isso não há espaço para se importar com o parque e nem com quem está nele. Esse tratado pessoal é sua característica mais humana. E mais ainda: ela não mata indiscriminadamente e consegue estabelecer empatia pelos humanos, o que fica claro no seu reencontro com Felix.

Ainda acho que os roteiros da temporada oscilam entre a aplicação legítima da filosofia que constitui o enredo e uma superficialidade emocional. O núcleo de Dolores é problemático nesse sentido, mas, no núcleo de Maeve, até mesmo as sequências que mostraram Hector sendo confrontado com a verdade sobre tudo que o constitui são bastante consistentes do ponto de vista das emoções. Hector é um dos anfitriões que já sabem da verdade, mas que seguem nos mesmos impulsos de personalidade para o qual foram programados. A série ganha muito quando manipula essas camadas.

Dolores Afortunada

Com uma linha temporal praticamente única, esse episódio transcorreu no melhor estilo HBO de fazer televisão atualmente. Tivemos até uma batalha. A cena foi bem dirigida e confirmou a maneira como Dolores tem interpretado seu papel na história desde que virou Wyatt definitivamente. Ela tem levado ao pé da letra a célebre frase de Maquiavel: os fins justificam os meios. Os confederados a ajudaram e depois foram traídos e sacrificados. Dolores diz querer dominar o mundo que escravizou os anfitriões, mas ela mesma dispõe da vida deles como quer. É uma “maquiavélica” notória.

Essa flexibilização da ética foi proposta por Maquiavel quando ele concluiu que manter Fortuna ao lado de si não era um trabalho para quem tinha escrúpulos. Ao longo do tempo, por causa do Cristianismo, o que Fortuna tinha a oferecer (poder, glória e riqueza) deixou de ser uma representação direta da felicidade. Para o mundo cristão, a verdadeira felicidade só era alcançada no além-mundo e por isso, os bens propostos por Fortuna ganharam pejoratividade, sobretudo naqueles que estavam dispostos a grandes ações para conquista-los. Dolores tem o anseio, mas como vimos no flash-forward que mostrou os corpos no lago, talvez ela não tenha a virtú exigida para o trabalho.

Em um dado momento de sua obra, Maquiavel diz o seguinte sobre o papel dos líderes em sua jornada:

“Os “estados” rapidamente surgidos, como todas as outras coisas da natureza que nascem e crescem muito rápido, não podem ter raízes e aderências necessárias para consolidação. Elas se extinguirão no primeiro obstáculo a menos que seus fundadores sejam tão virtuosos que saibam preparar-se para conservar o que a Fortuna lhes concedeu e lancem alicerces idênticos aos que os demais príncipes construíram antes de tal se tornarem”

Não sabemos se fomos apresentados a mais dois parques que em complementação com o terceiro, serão os três mundos que Dolores irá tentar conquistar (não podemos esquecer que no filme que deu origem a série os parques são apenas três). O fato é que a mencionada cena dos corpos no lago adianta que talvez o tamanho da ambição seja equivalente à incompetência da manutenção. Há uma certa ambiguidade nessa previsão, já que é inteligente a forma como eles usam Maquiavel para antecipar parte das intenções da dramaturgia; enquanto ao mesmo tempo não podemos deixar de pensar que é um pouco óbvio que Dolores vá falhar, do contrário, não teríamos mais a essência básica, o nó dramático principal do show, que é a dinâmica de exploração entre anfitriões e visitantes. O que Westworld realmente pretende?

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A virtú da Grécia antiga um dia significou bondade e justiça. Maquiavel subverteu esse sentido e a transformou em destreza e astúcia; sendo o bom líder aquele que em algum momento descumprirá a realização de códigos morais para manter sua soberania. Porém, os domínios da ficção são enamorados da lei da superação e espectadores são programados – vejam só – para torcerem pelo oprimido. Algo me diz que Westworld não quer que seus anfitriões sejam os opressores e que no final das contas, podemos estar assistindo ao giro da roda da fortuna que leva a trama até o  começo de  tudo, até o mesmo lugar.

Enfim, a ansiedade de Dolores não se equipara aos “alicerces lançados pelos príncipes que os construíram antes mesmo de se tornarem tais”. E sabemos quem foi O Príncipe anterior… Ele conseguiu ser como o mito antigo e também como o cientista moderno. Ele seduziu Fortuna, ele lapidou virtú e seu nome parece ainda ecoar em tudo que vive no parque: Ford.

Westwords: Dois rostos lindos e amados no mesmo episódio: Clementine e Armistice.

Westwords 2: Gosto muito de como Maeve mantém funcionários da Delos junto de si. Lee é mais uma boa adição de personagem.

Westwords 3: “Ela tem um dragão”: Hector sendo lindo. Quem não pensou em Game of Thrones?

REVISÃO GERAL
Nota:
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