Com The Real Deal a série dos Agents of S.H.I.E.L.D. celebrou 100 episódios, com um verdadeiro grito emocional.
Vou ser bem honesto com vocês, eu não julgo que The Real Deal tenha sido o melhor episódio de Agents, mas compreendo que estas marcas de comemoração são bem complicadas, especialmente quando a série ainda tem muito a desenvolver. Em Buffy, por exemplo, o episódio de número 100 foi o último da quinta temporada e a série ainda não havia sido renovada, forçando o time criativo a entregar uma espécie de final fechado, enquanto trabalhava para soltar pontas para uma eventual renovação. Este décimo segundo capítulo, contudo, esbarrou em diversos problemas, como por exemplo, o orçamento mais apertado e a existência de mais dez episódios até a conclusão da série, para ainda colocar cenas de ação, computação gráfica e afins. O trabalho, porém, foi bem desenvolvido e acertou em cheio ao abusar do sentimentalismo e da nossa sensação de nostalgia.
O primeiro acerto de The Real Deal foi centralizar o capítulo em Coulson. Nascido antes da série ter entrado no papel, o personagem por muito tempo figurou como um favorito dos fãs. Foi comum encontrar comentários condenando a Marvel por ter matado o personagem Vingadores, assim como a felicidade ao terem anunciado que ele voltaria a vida, seguindo um padrão bem característico de histórias em quadrinhos, e que ainda ganharia uma série “só dele” para alavancar ainda mais a popularidade do personagem de Clark Gregg – que foi muito além do mundo de filmes e séries da Marvel, ganhando além de uma versão nas histórias em quadrinhos, várias adaptações para os jogos de videogame da casa.
Logo o segundo e maior acerto deste centésimo episódio foi o desenvolvimento da importância de Coulson e do seu relacionamento com os outros personagens, em especial Daisy e May. Por muito tempo ele e Daisy (enquanto ela ainda era Skye), se trataram como pai e filha. Quase nunca tivemos acesso ao passado do Coulson e com exceção da violoncelista, mencionada em Vingadores e interpretada por Amy Acker durante a primeira temporada, a informação sobre seu pai, por exemplo, só chegou depois de um bom tempo. Já Daisy nunca chegou a conhecer a sua família enquanto crescia. Abandonada em um orfanato, a hacker sempre manteve o sonho de pertencimento. De maneira similar funciona Coulson. Não é de se estranhar que ambos tenham desenvolvimento um relacionamento de pai e filha. É especialmente lindo quando eles se reconhecem desta forma, indo muito além de nossas suposições. Claro que a ótima química que Gregg e Bennet tem também ajuda – ele já chegou a chamar Chloe de filha no Instagram, o que é ainda mais tocante e explica porque os consideramos desta maneira muito antes deles mesmos terem percebido. Fora que falar de Coulson e May e não lembrar que até agora eles ainda não definiram seu relacionamento, é cruel. Pelo menos ela já deixou bem claro que a decisão também precisa partir dela.
The Real Deal funciona muito mais como uma homenagem e recompensa do que como uma abertura para o restante da temporada. Temos a revelação da fenda que possivelmente pode estar conectada a futura destruição da Terra, mas conhecendo a série como conheço, é bom levar essa informação com certa desconfiança. Lembra de quando eles nos levaram para o futuro e não ofereceram absolutamente nenhuma informação definida quando ao evento? Neste presente, porém, já é possível encontrar várias outras respostas. O mais importante é perceber como a série amadureceu dentro destes 5 anos e como o roteiro de Jed Whedon, Maurissa Tancharoen e Jeffrey Bell realmente expõe este crescimento. A direção de Kevin Tancharoen também é direta ao posicionar estes personagens fisicamente em um estado de alerta e proximidade.
Quando menciono que a série também nos deu recompensas por estes cinco anos estou claramente me referindo ao casamento entre Leopold Fitz e Jemma Simmons. Foram anos acompanhando um romance aparentemente impossível e sempre desafiado pelas formas mais sádicas que estes roteiristas encontraram. Um evento de quase morte, a sequela do Fitz, Jemma indo parar em outro planeta e se apaixonando por outro homem para depois ser arremessada no futuro. Cada um destes eventos testou a audiência e também o casal.

E claro, Agents of S.H.I.E.L.D. sendo Agents of S.H.I.E.L.D., é óbvio que o casamento de Fitz-Simmons receberia, além de uma boa dose emocional, uma cena cômica, com Deke e Deathlock conversando durante a troca de votos e, naquele bom e velho momento de revelação e surpresa, nos mostrando que o rapaz é neto de recém casado casal. É uma clássica cena de Agents, permeada por humor, revelações e felizmente, para nós e para Jemma e Leo, uma surpresinha mais branda e nada mortal. Este momento nos ajuda a criar um laço sentimental maior com Deke, que até então não estava oferecendo muito, mas também nos ajuda a compreender o panorama maior para este que hoje é o casal que mais sofreu dentro da cultura pop.
Emocionalmente falando, para nossos personagens, o impacto maior ficou com Daisy, que não tem mais ninguém além de Coulson. Sim, o pai dela ainda existe, mas sem qualquer memória a respeito dela. A conversa entre ambos é de cortar o coração, assim como sua reação ao momento racional do Fitz, a forçando a chama-lo de Leopold e a relembrá-lo de que aquela era a S.H.I.E.L.D. e não a Hydra. É uma alusão clara ao novo homem que estamos vendo, um que por um bom tempo foi o cabeça de uma organização criminosa e que ainda luta para conseguir dividir o lado sombrio de si mesmo.
A conversa entre o Mike e Coulson também foi um ótimo momento, especialmente por entregar o destaque para Clark Gregg, que está interpretando este personagem desde 2008, quando apareceu em Homem de Ferro. É um misto de nostalgia e também de futuro, porque Coulson está prestes a morrer. Claro que teria sido melhor ver o Ward como a manifestação do medo do Coulson, conversando com ele e expondo a alucinação, mas também entendo que para tentar fazer Coulson atingir um ponto de dúvida e questionamento, ter a imagem do homem que ele mais odeia o aconselhando a desistir de tudo surtiria um efeito completamente contrário.
Agents of S.H.I.E.L.D. no processo de celebração de seu centésimo episódio também levanta a pergunta: será que a série poderia sobreviver sem Coulson? Bom, o treinamento da Daisy, sua posição como futura diretora da S.H.I.E.L.D., algo que já foi discutido antes, mostram que a produção estaria sim preparada para continuar sem Clark Gregg. Contudo, pensando por um lado prático, sua morte não é necessária para que Daisy progrida. Independentemente do que a série estiver guardando para o restante da sua possível última temporada, os acertos feitos até agora compensaram também os desvios que por vezes enfrentamos. Longe de ser uma produção perfeita, mas cada vez mais próxima de assumir sem questionamentos o posto de melhor produção da Marvel para a TV, Agents of S.H.I.E.L.D. só precisa de um bom vilão e uma sequência de episódios como este de número 100 para coroar um excelente quinta temporada.
Easter eggs e outras informações
– Coulson falou sobre a Daisy assumindo o manto de diretora e isso já aconteceu na nona arte. Lá a Tremor já operou como diretora da S.H.I.E.L.D.
– Na loja que o Deke compra as alianças e o vestido é possível ver, na vitrine, alguns itens que remetem a primeira temporada da série. Lembra da vitrine que o filho do Mike (Deathlok) olha? A máscara do Homem de Ferro, o boneco do Thor e do Gavião Arqueiro…
– Também temos o machado usado para cortar o braço do Coulson e lá no cantinho a xícara do Grumpy cat que o Fitz costumava usar. Também temos um taco de baseball todo assinado. Lembra da Rosalind Prince? Ela também tinha um em casa.
– Agents já trabalhou com outras dimensões antes. A primeira vez foi durante a primeira temporada e a mais recente na quarta, em que o Motorista Fantasma levou o Darkhold para uma. A deste ano é a dimensão do medo.
– Inclusive existe um arco da Marvel chamado Feart Itself, em que os heróis enfrentam uma deidade arsgardiana do medo conhecida como Serpente, que também é irmão do Odin e tio do Thor.
– O episódio usou os vilões icônicos das temporadas anteriores, além das cenas marcantes da série, como o momento em que Ward joga Fitz e Simmons no oceano, o projeto Taiti, a abertura da Daisy na terceira temporada, Lash, Hive…
– Também tivemos uma freira, nos lembrando que Daisy foi criada no mesmo orfanato do Matt Murdock. Defensores terminou com Matt, novamente, neste mesmo orfanato, tendo suas feridas tratadas por uma freira. Falar mais seria entregar spoilers e não vou fazer isso com vocês.
– Como Agents já trabalhou o lance do mundo alternativo, o episódio usou o Mike para um momento bem Whedon. Na sexta temporada de Buffy um demônio a faz acreditar que ela não era uma caçadora de vampiros e que tudo que Buffy viveu em 5 temporadas foi na verdade fruto de uma doença mental.
– E por falar em conexões com Buffy, o Coulson diz estar “five by five” quando perguntado de sua situação. Esta é uma frase de Faith, personagem introduzida durante o terceiro ano de Buffy a Caça Vampiros.
– Tá, mas e o Ward?
– Sobre o casamento Fitz-Simmons, como é bom ver a luz do sol nessa série que sempre esconde seus personagens em corredores cinza e paletas frias.
– Marvel’s Agents of S.H.I.E.L.D. foi a primeira série da Marvel a atingir a marca de 100 episódio.















