Uma ideia. Tudo em Bright, novo filme da Netflix, se resume em uma simples ideia: Juntar seres mágicos tradicionais da literatura fantasiosa ao nosso mundo atual, dentro de um filme policial. O único problema dessa ideia, é que ela é impossível. Me entenda bem, até seria possível, se o roteiro se esforçasse minimamente para criar argumentos racionais que viabilizassem essa ideia.

Filmes de fantasia precisam estabelecer regras para os seus universos, regras que sejam verosimilhantes. Que soem como lógicas dentro do mundo que está sendo desenvolvido e apresentado. Infelizmente, não é possível a evolução do nosso séc. XXI ter acontecido da mesma maneira que aconteceu dentro de um mundo que contém Orcs, Fadas, Elfos e varinhas mágicas.

A humanidade não tem como se desenvolver do mesmo jeito, quando há 2.000 anos uma guerra entre nove espécies detém o lugar histórico da evolução social, religiosa e moral. Nada seria igual. Os prédios, os carros e até as relações não seriam as mesmas. O próprio Estados Unidos não seria colonizado por ingleses, se as religiões não tivessem o mesmo peso na história. Tudo seria tão diferente que diante da preguiça do enredo em justificar a mitologia do filme, é só impossível imaginar esses seres nos mundo de hoje.

Bright
Bright

Mas é claro que dá pra suspender essa descrença, e se você conseguir fazer isso, Bright pode ser muito divertido. Pra curtir, você precisa aceitar as coisas como são. O roteiro não perde tempo tentando construir a mitologia daquele universo e só pede que você aceite. Os Elfos não serão tão poderosos como deveriam, serão somente arianos ricos com dentes e orelhas diferentes, que são muito consumistas. Os Orcs também não usarão sua super força pra quase nada, principalmente durante as cenas de luta. E as fadas? Só aceita que dói menos.

Em alguns momentos, Bright usa a expressão “Conto de fadas”, mas o que isso realmente significa em um mundo onde as fadas são tratadas como pragas? Não faz sentido ver uma raça mágica tão poderosa e cheia de oportunidades sendo rebaixada a insetos irritantes. E esse tipo de decisão tosca, permeia toda a trama e deixa marcas profundas. Teria sido muito melhor, deixar as fadas de fora.

A fantasia se torna pobre e mal trabalhada, mas a ação está lá e o filme tem muito potencial de entretenimento. O enredo gira em torno de Daryl Ward (Will Smith e seu carisma que quase não cabe na tela) e Nick Jakoby (Joel Edgerton), o primeiro Orc aceito no departamento de polícia. E o relacionamento entre os dois é a melhor coisa do filme. Em um mundo cheio de preconceitos, a maneira como eles desenvolvem a confiança e a amizade preenche a maior parte dos diálogos. E é ótimo perceber que a trama investe tempo para desenvolver a dinâmica dos dois. Não posso dizer o mesmo de Tikka (Lucy Fry), que nem tem tempo pra falar direito e pra se tornar uma coadjuvante que importe.

E por falar em preconceitos, o filme flerta com a possibilidade de ser uma grande metáfora sobre brutalidade policial e racismo. Porém, na tentativa de ser extremamente didático, a alegoria acaba falando mais alto que qualquer outra coisa e isso mina o impacto dessas reflexões. Encher a periferia de Orcs e imprimir os gestos e as roupas de gangue é tão explicito, que quebra a naturalidade do argumento. Seria triste e angustiante ver o Nick atravessar um corredor de deboches, se não fosse a infantilidade de um papel escrito “me chute” colado nas suas costas. Mas aparentemente, por aqui, precisamos deixar bem claro que estamos falando de bullying.

Bright
Bright

Bright perde a chance de discutir mais sobre o nosso racismo interno diante daquele quadro. Em um mundo dividido por raças mágicas, como os humanos se portariam diante das suas diferenças internas? Porque apesar do protagonista ser negro, os latinos ainda são tratados como grandes ameaças periféricas e nada permite uma reflexão realmente relevante.

Apesar de todos os problemas, a película entrega diversão, ação e violência. O filme tem boa fotografia e excelente maquiagem. As máscaras dos Orcs são tão bem feitas, que você quase acredita na textura da pele. O uso de câmera lenta é raro, mas acontece nas horas de real necessidade. Uma pena a Netflix continuar sua guerra com o Cinema, porque esse é um outro filme que merecia uma pipoca e uma tela grande. Tenho certeza que deixaria o filme mais divertido.

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Dizem por aí que a gigante de steaming gastou quase U$ 90 milhões pra produzir esse filme. Com a força do Will Smith, ele conseguiria se pagar facilmente se tivesse uma distribuição mundial nos cinemas. Mesmo com uma sequência já confirmada, ainda fica a dúvida se o filme vai dar o retorno que a Netflix precisa pra continuar sobrevivendo no mundo real.

REVISÃO GERAL
Nota:
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critica-bright-diversao-violenciaUma ideia. Tudo em Bright, novo filme da Netflix, se resume em uma simples ideia: Juntar seres mágicos tradicionais da literatura fantasiosa ao nosso mundo atual, dentro de um filme policial. O único problema dessa ideia, é que ela é impossível.