Kato acorda em um quarto de hotel. Este, na verdade, nem sequer está funcionando: está em reforma para o grande lançamento. Machucada e confusa, a jovem caminha pelo lugar até achar, deitado em uma banheira, seu próprio corpo. Desesperada, ela foge e vai para casa, chegando lá com dificuldade. Ao encontrar sua mãe, ela a abraça e tenta se comunicar, mas sem sucesso. Isso porque não é possível que a mãe a veja: Kato foi assassinada naquela madrugada e, aparentemente, é a pessoa mais capacitada para resolver a própria morte.

“Eu me pergunto no que ela está pensando.Esquecida, abandonada, sem amor algum”.

— trecho da letra de “Alone and Forsaken” (Hank Williams) utilizada na abertura em um cover de Mauro Pawlowski e Ciska Wanhoyland.

Para ajudá-la (ou não), temos cinco pessoas que, por motivos desconhecidos, conseguem vê-la. Entre elas, seu pai, sua irmã de criação, uma amiga, o tio do namorado, que por sinal a odeia, e o primo do namorado, que chegou há pouco na cidade e com quem talvez tenha conversado na noite do festival que antecedeu sua tragédia. Sem nunca entender como sua mãe não pode vê-la, mas essas outras pessoas podem, Kato entra em um jogo misterioso de manipulação que revela segredos conforme a investigação oficial caminha.

Hotel Beau Séjour
Hotel Beau Séjour

Hotel Beau Séjour (ou Beau Séjour para os íntimos) estreou na Bélgica em janeiro deste ano e seus dez episódios, de mais ou menos cinquenta minutos cada, foram transmitidos pelo canal Één aos domingos até o começo de março. Depois, transmitida em outros canais, a série chegou ao catálogo internacional da Netflix — infelizmente ainda indisponível no Brasil. A criação da série é resultado da colaboração entre as diretoras Nathalie Basteyns e Kaat Beels, habituadas ao gênero por conta das séries Clan (de 2012) e Jes (de 2009) nas quais também trabalharam juntas. Além de contribuírem para os roteiros, estes ganham força com a participação de Sanne Nuyens, Benjamin Sprengers e Bert Van Dael.

Por mais que pareça muito com a adaptação de algum livro de sucesso, o roteiro é original e inspirado pelo pai de Nathalie, como conta em entrevista, que ficara hospedado em um hotel chamado Boa Estadia (a tradução Beau Séjour). Para destacar a produção dentre tantas voltadas a investigações, foi sugerido adicionar elementos sobrenaturais. Estes são bem-vindos e conseguem cativar o telespectador tão carente de novidade, já que o gênero no qual a série nasce tem sido constantemente abordado.

Falando um pouco mais sobre os cinco escolhidos:

Hotel Beau Séjour
Hotel Beau Séjour

Luc Hoeven (interpretado pelo ator Kris Cuppens) é o pai de Kato, alcoólatra, que tem relacionamentos misteriosos e vive uma vida fracassada, na qual ninguém o leva muito a sério. Alexander Vinken (Johan van Assche) é um policial corrupto que nos é apresentado assim desde o primeiro momento. Ele é tio do namorado da protagonista e mais empenhado na carreira dele no motocross do que em investir na relação com o filho, Charlie (Joren Seldeslachts), que retorna à casa depois de ter ficado internado certo tempo em uma instituição psiquiátrica. O jovem, aliás, também consegue ver a recém-falecida e lhe conta, conforme conversam, que ambos se esbarraram no festival, riram e dançaram.

Sofia Otten (Charlotte Timmers) é irmã de criação, cujo pai casou com a mãe da garota assassinada. Aos poucos, percebemos que ela gosta de algumas coisas que a adolescente tinha, inclusive o namorado, e tem um desejo oculto de ocupar seu lugar. Por último, Ines (Joke Emmers) é uma amiga de Kato, envolvida com esquemas ilegais para arrecadar dinheiro por conta de seu maior segredo atual.

Para fechar o quadro de personagens, temos a investigadora Marion Schneider (Katrin Lohmann), responsável por descobrir quem matou a jovem e por quê. Kristel Brouwers (Inge Paulussen, que protagoniza muito bem momentos delicados) é a mãe de Kato, casada com Marcus Otten (Jan Hammenecker), pai de Sofria. Com outras personagens adicionais e que vão contribuindo para a trama complexa, o elenco encabeçado por Lynn Van Royen é muito talentoso e explora bem suas personagens, contribuindo, assim, com o roteiro para que consigamos entendê-las, e não as julgar.

Hotel Beau Séjour
Hotel Beau Séjour

Com grande peso entre as cenas e momentos interessantes, o seriado de língua neerlandesa tem em seus primeiros episódios os momentos mais interessantes. Desde a descoberta do corpo de Kato, encontrado em um lago, às investigações pessoais que vão revelando, aos poucos, quem pode vê-la e compartilhando a informação com o público, o começo é atraente e tem bastante fôlego. Conforme avançamos, entretanto, principalmente no meio da temporada, temos uma protagonista que quase esquece de si, uma investigação que demora para mostrar resultados e revelações inacreditáveis, carentes demais de nossa absolvição.

Um ponto positivo é que para a adolescente presa nessa realidade, as regras ligadas aos sentidos também se aplicam. Ou seja, para ir de um local ao outro, ela precisa utilizar algum transporte; ela sente dor, fome e não atravessa paredes. Este é um bom critério para que o roteiro consiga criar momentos de tensão e colocar em perigo alguém que, tecnicamente, deveria estar acima disso. A fotografia, responsável por explorar a cor e o espaço de Dilsen-Stokkem (Bélgica), região da Flandres, contribui para o sentimento de desolação em momentos cruciais ou para o encanto, quando o roteiro se permite a esperança como possibilidade.

Hotel Beau Séjour
Hotel Beau Séjour

Beau Séjour desenvolve diversos temas e situações pela temporada. Entre eles, destaca-se o egoísmo humano diante de situações em que precisa preservar seus segredos, sua reputação e seu bem-estar. Mesmo com a possibilidade de serem assombrados pelo fantasma da menina, as personagens não se importam com ela e conservam para si detalhes que possam lhes comprometer. Isso pode afastar um pouco o telespectador, uma vez que não há personagens aqui com os quais possamos nos relacionar e criar empatia — a protagonista, inclusive, nos cativa em poucos momentos.

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Como foi explicado pelas criadoras, a série poderia render mais temporadas como antologia. A história de Kato, então, se encerra por aqui e nada de muito produtivo poderia ser elaborado para contribuir com o final exibido. O desfecho é completo e não deixa pontas soltas, revelando quem foi o responsável pelo crime e qual o seu destino. Pessoalmente, não me agradou a descoberta, e é quase como se a série desses dois passos para trás no que diz respeito à originalidade que tenta estabelecer. O que equilibra a situação são os momentos melancólicos em razão da despedida da protagonista, ocupada demais com a própria morte para refletir sobre o que ocorre depois.

Hotel Beau Séjour
Hotel Beau Séjour

Espero que a produção da Eén chegue de surpresa ao catálogo nacional do serviço de streaming, assim como Trapped chegou recentemente, outra recomendação. Focando em perfis que não estamos acostumados, e por mais que às vezes perca tempo demais dando voltas, a história de Beau Séjour é bem elaborada, pensada em detalhes e satisfatoriamente concluída. É mais uma prova de que elementos sobrenaturais, usurpados do horror, são bem-vindos para repensar a tradição de outros gêneros.

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Este post faz parte do segundo ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2016 e setembro de 2017.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
hotel-beau-sejour-sobrenatural-misterioBeau Séjour desenvolve diversos temas e situações pela temporada. Entre eles, destaca-se o egoísmo humano diante de situações em que precisa preservar seus segredos, sua reputação e seu bem-estar. Mesmo com a possibilidade de serem assombrados pelo fantasma da menina, as personagens não se importam com ela e conservam para si detalhes que possam lhes comprometer.