Existe uma geração de pessoas, na qual eu me incluo, que fazem ode ao saudosismo. Pessoas que ficam presas em um passado de memórias afetivas e se perdem em um emaranhado de teias de lembranças de caráter muitas vezes oníricas, que faz com que estas pessoas tenham certas dificuldades em se abrir para o novo ou o atual. É fácil identificar essas pessoas, pois normalmente elas começam as frases com sentenças do tipo “no meu tempo as coisas eram assim…”, ou “quando eu era criança, os brinquedos eram muito melhores”. A mesma premissa serve para programas de televisão. Aposto que vocês já ouviram alguém falar “quando eu era pequeno(a) existiam desenhos de verdade, não essas porcarias de hoje em dia…”. Eu mesmo já pronunciei algumas dessas frases, e conheço um número suficientemente grande de pessoas que dizem coisas do gênero para saber que não é um comportamento tão pontual assim. O que muitas vezes eu e estas pessoas não entendemos, é que o mundo e as coisas dentro dele evoluem, e nós temos que evoluir juntos, para não nos tornarmos seres anacrônicos.
Assim como nós tendemos a achar que as coisas “do nosso tempo” eram muito melhores, não podemos descartar a possibilidade de o inverso também ser verdadeiro. Sim, existiram muitas pérolas quando éramos mais novos, que sempre serão clássicos, mas não devemos esquecer que também tiveram muitas coisas esquecíveis. E para abrir os olhos dos românticos saudosistas que existe conteúdo bom sendo produzido atualmente, é preciso falar sobre um dos melhores desenhos feitos nas últimas décadas: O Incrível Mundo de Gumball. A premissa do programa é tão simples quanto maluca: A história gira em torno de Gumball, um gato azul de 12 anos de idade, de seu irmão adotado – que no passado foi seu peixinho de estimação, Darwin – e do restante de sua família e amigos que vivem em uma cidade fictícia chamada Elmore.
A estrutura das histórias é simples, e o ritmo é bastante dinâmico. Contando com apenas dez minutos cada episódio, não há muito espaço para enrolação ou longas introduções. Mesmo assim, o que faz com que O Incrível Mundo de Gumball seja realmente tão bom e se destaque em relação a tantos outros desenhos atuais é que ele possui algo que parece cada vez mais faltar no setor audiovisual: Conteúdo. Gumball não é apenas uma casca oca sem nada a oferecer. Por baixo da camada bobinha (e até fofa) do design da maioria dos personagens e por trás das histórias simples contada nos episódios há uma verdadeira pérola a ser descoberta. O desenho é feito para fruição através de camadas. Desta forma, ele permite que seja acompanhado por toda a família junta, pois as mais diversas idades terão entendimentos diferentes sobre o que está sendo mostrado em tela.

E muito mais do que uma metáfora de nosso tempo, o desenho representa nossa realidade de forma bastante fiel e ácida. Não é raro os personagens estarem presos dentro de algum dilema moral, por exemplo. Os temas abordados em cada episódio são relevantes e contundentes. Repito: por baixo da casca bobinha há verdadeiras preciosidades sobre o comportamento humano. Uma das coisas mais interessantes sobre O Incrível Mundo de Gumball é que ele consegue trazer temas difíceis e complexos, dentro de uma linguagem acessível para os mais jovens, mas sem jamais subestimar a inteligência de quem está assistindo. Primeiro amor, ciúmes, depressão, o sentido da vida, totalitarismo, intolerância, anarquia, anti-consumismo, tempo de vida perdido com bobagens na internet. Esses são apenas alguns dos exemplos de assuntos complicados que já foram abordados dentro dos episódios.
Se algo só se preocupa com sua forma, é fútil. Se algo só se preocupa com seu conteúdo, é técnico. Uma boa obra sabe o perfeito equilíbrio entre forma e conteúdo. E nisso a série também acerta. O estilo de desenho surpreende ao misturar diversas técnicas para compor seus personagens e cenários: 2D, 3D, live action e stop motion se misturam para compor esse universo que carrega a palavra “incrível” no título não à toa. Além disso, Gumball e seu criador Ben Bocquelet parecem bastante cientes de que ao longo de seus quase seis anos no ar seu público alvo amadureceu, de modo que as histórias e o próprio traço da animação também evoluíram gradativamente ao longo desse período. Isso mostra que o desenho não apenas sabe o que, mas também para quem está comunicando.
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O Incrível Mundo de Gumball tem o raro potencial de se comunicar com pessoas das mais diversas idades. Pode agradar os mais pequenos pelo visual lúdico e os marmanjos pelo conteúdo. Pode agradar os mais pequenos pelo humor físico e palhaçadas e os marmanjos pelas diversas referências e easter eggs da cultura pop dos últimos anos. Se você, eventual leitor, assim como eu, faz ode ao saudosismo (porque no fundo a gente sabe que na nossa época as coisas eram melhores), deixe seus preconceitos de lado e dê uma chance a esse desenho. Tenho certeza que você vai se surpreender. O Incrível Mundo de Gumball passa na Cartoon Network e tem três temporadas disponíveis na Netflix, então se você nunca viu nada desse desenho, corre lá para conhecer.












