Adaptações ocidentais de mangás e animes geralmente acabam por decepcionar, geralmente por se afastarem demais da obra original a ponto de desfigurar todo o conceito que deveria norteá-las. Em Death Note (Netflix, 2017), vemos Hollywood cometer os mesmos erros de outras produções do tipo, a exemplo de Dragon Ball Evolution, que é tido como um pior filme de todos os tempos.

O filme gerou polêmica ao escalar atores ocidentais, mas até aí não vejo problemas, afinal, foi feita a decisão de mover a história para Seattle e fazê-la se passar nos Estados Unidos. Neste momento, fica claro que a intenção maior não é adaptar Death Note, mas sim fazer um filme apenas inspirado no conceito do mangá, onde um adolescente encontra um caderno com o poder de matar pessoas.

Porém, o filme tem dificuldades em abraçar seu lado de obra inspirada e teima em usar pontos específicos do material original, desfigurando-os de um modo que acaba por criar um híbrido monstruoso que não passa de uma tentativa malfeita tanto de adaptar quanto de apenas se inspirar no material de referência.

O protagonista, Light Turner (Nat Wolff), é tudo o que o Light original não é. Ele usa o caderno, de cara, para conseguir vantagens para si e só depois, convenientemente, passa a usar seu novo poder para limpar o mundo de pessoas ruins. Antes disso, porém, faz questão de impressionar a garota popular da escola. É de um distanciamento tão grande do que o personagem original é, que chega a irritar. A facilidade com a qual ele mostra suas cartas para alguém e confia nela tão facilmente é irritante. Além disso, Light é tudo menos discreto, passa longe de ter a frieza de seu equivalente em papel e não é, nem de longe, o gênio que deveria ser. Além disso, ele vinha matando pessoas de forma aleatória, o que não despertaria muitas suspeitas, porém ele mesmo cria a persona de Kira e “aparece” para o mundo, chamando para si uma atenção desnecessária.

E, antes que digam que estou sendo muito purista em relação ao mangá, apenas acho que se você vai chamar o personagem de Light, temos o direito de esperar algo em comum com o personagem da obra original. Se quer fazer algo tão diferente, mude o nome dele, chame de Jack ou de John, inspire-se no original, mas se vai chamá-lo de Light, nos entregue Light.

Death Note
Death Note

O mesmo vale para L (Lakeith Stanfield), que apesar de ser um retrato mais próximo do que vemos nos quadrinhos, com seu vício em doces e seu comportamento estranho, também acaba se perdendo em certo ponto, quando o roteiro o transforma em um maluco obcecado por Kira sem nenhum discernimento e com um comportamento extremamente irracional.

Ainda temos todas as alterações em Ryuk e nas regras do Death Note, que aqui é passado de humano em humano, com o “deus da morte” sendo apenas um guardião que é responsável por transferir a guarda do caderno. Ryuk influencia muito mais as ações de Light e o filme ainda dá a entender que é ele quem executa as mortes. São mudanças bobas, mas que quando somadas a outras maiores acabam por piorar tudo ainda mais.

Além disso, há todo o desenvolvimento do roteiro, que é raso e corrido. O uso de Mia (Margaret Qualley) como um braço direito de Light acaba por enfraquecê-lo, mostrando que ele não é capaz de seguir em frente sozinho. O que reforça o que já é estabelecido nos momentos iniciais, quando ele sofre nas mãos do bully da escola. Com um protagonista claramente fraco, o roteiro precisa fazer escolhas banais, como Mia atacar um agente do FBI e não ser descoberta. Mas o ponto mais baixo de toda essa lambança, o controle de Watari por Light para descobrir o verdadeiro nome de L. É inaceitável que o braço direito do maior detetive do mundo use seu nome verdadeiro (que todo mundo sabe que não é Watari) e que o Death Note funcione apenas com o uso desse nome, um simples nome que nem completo está. O que deveria ser o ponto alto do filme, o encontro entre Light e L, acaba sendo prejudicado por atuações fracas e situações mal desenvolvidas.

Os momentos finais com o baile e a cena na roda gigante pioram ainda mais tudo. O filme tenta passar a ideia de que tudo estava planejado, enquanto se transforma em uma briguinha entre dois namoradinhos que se conhecem há dois dias. Ao mesmo tempo, mais soluções absurdas como a folha com o nome de Light caindo no fogo, são apresentadas. O plano de Light é o único vislumbre de inteligência que vemos dele durante todo o filme, mas nem de longe é o suficiente para redimi-lo.

O final ambíguo com L a ponto de matar Light utilizando um poder que ele não conhece direito e tem apenas uma noção de como funciona foi a cereja do bolo, pois um final em aberto assim não ajuda em nada. Tudo leva a crer que Ryuk mata Light por causa do Death Note e de L, que só faz isso para se vingar por causa de Watari. Ou seja, Death Note se tornou a briga entre crianças querendo vinganças em certos momentos. Light pela mãe, L por Watari, os dois são movidos por vingança. Enquanto isso, temos Mia, que foi seduzida pelo poder e só se preocupa em tê-lo para si. Isso deixa claro um enorme debate moral que o filme poderia levantar, mas apenas ensaia em abordar em pequenas cenas soltas, sem profundidade nenhuma.

Ok. Eu conheço o Death Note original e já disse que o filme é ruim. Mas e se eu não conhecesse? Nesse caso, alguns dos erros do filme acabariam passando despercebidos, principalmente no que diz respeito à construção dos personagens. Porém, o filme continuaria a contar com um protagonista muito fraco, com um roteiro mal desenvolvido e cheio de pontas soltas e que acaba por mudar o tom dos seus personagens drasticamente no decorrer de tudo. Cenas como a primeira aparição de Ryuk na sala de detenção com a reação ridícula de Light desesperado e a perseguição com L usando um carro de polícia continuam sendo absurdas, além do fato de Light querer glória ao fazer de si mesmo Kira.

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Death Note pode sim ser uma experiência interessante para quem não teve contato com o material original, mas mesmo assim é necessário que se relevem diversas falhas graves de roteiro e um elenco que não entrega tudo o que se espera dele. Para quem conhece e gosta de Death Note, meu conselho é para passar bem longe.

REVISÃO GERAL
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death-note-problema-adaptacoesEm Death Note (Netflix, 2017), vemos Hollywood cometer os mesmos erros de outras produções do tipo, a exemplo de Dragon Ball Evolution, que é tido como um pior filme de todos os tempos.