Eastwatch é o episódio de maior audiência da história de Game of Thrones e também o mais corrido e informativo dos últimos tempos. Não há sequências de ação grandiosas como em Spoils of War, mas a velocidade com que os personagens se deslocam, as tramas acontecem e as revelações vêm à tona, são também de tirar o fôlego. Mas, nesse caso, algumas pausas até fariam bem à história. A pressa com que o episódio se desenrolou (e as consequências disso) é minha principal crítica a Eastwatch.
Nessa 7ª temporada está cada vez mais evidente que a série é uma construção que se ergue nos jardins plantados por George RR Martin.
O autor dos livros que originaram a série, GRRM, sempre se definiu como um ‘escritor jardineiro’, que planta as sementes e vai aparando e cuidando do seu jardim enquanto as plantas crescem sozinhas. Como se sua obra fosse orgânica e criasse vida própria, ele é guiado pelas vozes dos personagens sem saber ao certo para onde está indo. Esse possivelmente é o principal trunfo e o maior obstáculo em sua produção. Enquanto caminha para o inesperado cria uma história bem encadeada, surpreendente e imprevisível. Por outro lado, expande tanto seu universo que se torna difícil limitá-lo e, de tão viva, é como se sua obra passasse a controlá-lo.
As primeiras quatro temporadas da série mantiveram-se bastante fiéis aos jardins plantados por GRRM e uma das maiores qualidades da série era poder acompanhar o germinar e florescer de cada semente plantada. Mas não houve tempo hábil para esperar todas as plantas brotarem. Foi preciso continuar a história à frente de GRRM tentando alcançar parte do cenário final que ele desejava para seu jardim.
Dan Weiss e David Benioff, criadores da série, precisaram dar continuidade à história, sem tempo para plantá-la, mas construindo-a em busca de um esboço final, como se tivessem inserindo plantas artificiais em meio a plantas que já cresciam, outras que estavam plantadas e iam florescer mais à frente… A composição final fica, na maioria das vezes, igualmente bela, mas eventualmente surgem algumas lacunas. A forma de contar a história mudou.
Estou longe de ser uma daquelas leitoras xiitas que passa a série inteira a fazer comparações menosprezando as escolhas televisivas. Aliás, a 6ª temporada tornou-se uma das minhas preferidas de toda série e ela já não contava mais com os livros de GRRM para sustentá-la. O problema com essa 7ª temporada é que na pressa de alcançar certos cenários e resoluções, os produtores não estão se preocupando com a maneira com que as coisas chegam até o destino que eles desejam chegar. Não há tempo para adentrar nos detalhes dos acontecimentos surgindo inúmeros questionamentos, furos e conveniências de roteiro… Afinal nos acostumamos a acompanhar as histórias florescendo lentamente.
A série permanece um das melhores horas de entretenimento semanais, mas é inegável que se por um lado essa temporada é mais grandiosa, reveladora e repleta de aguardados reencontros, por outro, tem muito menos de alguns dos ingredientes que mais enriqueciam a trama, tais como a imprevisibilidade e o encadeamento de sua história. Eastwatch é exatamente o reflexo de tudo isso, para bem e para mal.
CINZAS NA CAMPINA

Eastwatch mostra as consequências da Batalha da Estrada de Ouro e seu resultado mais imediato é cobrir a Campina de corpos mutilados, queimados e cinzas que se espalham por entre os vestígios da guerra. Vemos Tyrion caminhando por entre um cenário extremamente bem produzido, minucioso e que nos transmite o impacto do que aconteceu quando o fogo de Drogon terminou de queimar. O olhar desolado do anão já é o primeiro indício que ele também se assustou com a força de sua Rainha, como se apenas agora – em seu continente – ele tivesse se dado conta da destruição que suas armas podem produzir.
Tal como esperado, tanto Jaime como Bronn sobreviveram à Batalha da Estrada de Ouro. É difícil entender como eles emergiram tão distantes de onde o embate ocorreu e não foram notados. São e salvos após Bronn conseguir lutar contra o peso da armadura de Jaime puxando-os para o fundo do rio. O olhar de Jaime das margens do rio até retornar a Porto Real, carregava a constatação da força praticamente imbatível de Daenerys. O olhar desesperançoso de quem tem consciência que perdeu a guerra e não uma batalha.
Gostaria de ter visto as forças de Daenerys buscando o corpo de Jaime ou qualquer sinal de seu destino, fosse ele a morte ou a fuga. Jaime era um dos maiores trunfos que a Mãe dos Dragões poderia conquistar após vencer o embate militar. Mantendo-o refém poderia negociar com Cersei em busca de uma resolução mais pacífica, mas não vimos qualquer movimento nesse sentido. Daenerys, Tyrion ou mesmo os Tarly sequer comentam sobre Jaime no pós-batalha.
Sabemos que Tyrion viu o irmão correr contra Daenerys, mas provavelmente não pôde concluir convictamente qual teria sido o destino de Jaime… Queimado, afogado, sobrevivente… Teria o leão dentro de si rugido para impedir Dany de caçar vestígios do irmão? Afinal se ele tivesse a menor dúvida que o irmão sobrevivera, não iria se arriscar partindo para Porto Real para negociar com ele, correto?
Também podemos contra argumentar que, após a batalha, os passarinhos de Varys lhe informaram que Jaime e Bronn sobreviveram e voltaram para a capital… Enfim, ficaremos horas debatendo maneiras de preencher as lacunas criadas por prováveis conveniências de roteiro. Algo que na review do 3º episódio pontuei que já vinha acontecendo e que parece, infelizmente, cada vez mais frequente.
Não me incomoda Jaime sobreviver, fugir e alcançar Porto Real sem sequer ser mencionado por seus inimigos. Mas, sinto falta de uma construção mais robusta para esses eventos. Se não há tempo de vermos o jardim florescer, que os pilares da construção sejam resistentes.

Reunindo as forças inimigas derrotadas, Daenerys discursa ao lado de Drogon ilustrando sua grandiosidade e imponência. É difícil que aqueles soldados reflitam sobre as palavras da khaleesi, principalmente quando ela diz que não está ali para queimar cidades e matar famílias, quando foi exatamente isso que eles acabaram de viver. Eles ajoelham-se porque estão aterrorizados e não pela identificação com sua sina em ‘destruir a roda’. Ao menos, nesse momento.
A decisão de Daenerys queimar Randyl e Dickon Tarly me soa perfeitamente justa e não vejo nessa opção motivo para tamanha preocupação de Tyrion e Varys. A violência de ver um dragão atear fogo contra pessoas e assisti-las gritando sua morte é – certamente – mais impactante e visivelmente mais sádico do que outras condenações à morte. Mas, já vimos inúmeras vezes os lordes e governantes de Westeros punindo seus traidores decapitando-os.
A preocupação de Tyrion me parece mais como um reflexo de encarar um ato tão violento (e que ele não está acostumado) do que em relação à decisão de Dany punir aqueles que não se ajoelham a ela. Se Randyl e Dickon tivessem aceitado a opção de Tyrion em vestir o preto e ir à Muralha e, mesmo assim, Dany os queimasse, a discussão sobre a loucura ou grandeza de Dany seria mais pertinente.
Depois do seu discurso, se ela não os queimasse ali diante de todos, perderia qualquer credibilidade perante seus inimigos abrindo precedentes que poderiam enfraquecê-la. Daenerys não os mata por terem lutado contra ela na batalha, mas por não terem se rendido a ela após a derrota evidente. É diferente, por exemplo, de Joffrey quando condena Ned Stark a morte mesmo depois dele assumir seus crimes e jurar lealdade à Coroa.
Interessantemente, os Tarly pareceram mais fiéis aos Lannister do que foram aos Tyrell. Sem entrar no mérito que a casa Tarly apoiou os Targaryen na Rebelião de Robert Baratheon (não me recordo se isso foi comentado na série), ainda assim os Tarly acabaram de trair a casa Tyrell, da qual foram juramentados por anos, por enxergarem que o lado de Cersei era mais promissor, mesmo os Lannister sendo os responsáveis pela ruína da casa a qual juraram lealdade. Espanta-me o preconceito contra a forasteira Targaryen, em prol de uma causa que acabaram de comprar, ser maior do que seu senso de sobrevivência.
Drogon esteve belíssimo nesse episódio e essa foi a primeira vez que vimos um dos discursos de Daenerys, perante a imponência de seus filhos, sendo feito em terras westerosis. Se o homem que profere a sentença deve brandir a espada, nada mais justo do que Daenerys ordenar DRACARYS contra os homens que condena à morte.
COMO TREINAR O SEU DRAGÃO DA SUA TIA

Eu gostei muito da cena da interação de Jon e Drogon. O dragão estava incrivelmente bem feito, trabalhado nos menores detalhes e, a tensão foi construída satisfatoriamente. Da mesma forma, ver a apreensão sendo quebrada nos dois protagonistas desse encontro, Drogon amasiando e Jon tremendo, mas tocando-o – e o que isso representa diante dos fatos que descobrimos – foi uma das minhas cenas preferidas no episódio.
Drogon e Dany tem a complexa e intensa ligação do réptil com o humano que o monta, mas restam dois dragões e, pelo menos, mais um Targaryen vivo para montá-los. Se isso vier mesmo a se concretizar (e torço por isso, sim!), eu aposto em Jon montando Rhaegal, o dragão nomeado em homenagem ao seu pai, Rhaegar.
UM FANTASMA EM WINTERFELL
No episódio em que Jon Snow sorri ao saber que Arya e Bran estão vivos e em Winterfell, rusgas de um passado conturbado são revividas pelas meninas lobas.
A tensão que surge entre Arya e Sansa é plausível ainda que desagradável para nós que acompanhamos e conhecemos tudo que ambas as personagens passaram. A última visão que Arya faz de Sansa, é de uma lady apaixonada por Joffrey e admiradora de Cersei.
Por mais que saiba que a irmã mudou, ela não tem dimensão dessa transformação e de como ela foi construída, e então ao perceber a irmã governando, dormindo nos aposentos de seus pais e não confrontando aqueles que questionam a escolha pela liderança de Jon, o reflexo do passado de Sansa – daquilo que Arya viu e viveu – projeta uma sombra maior do que essa nova Sansa que ela conhece há poucos dias.
Eu acho que é uma desconfiança plausível, em um primeiro momento, ainda que amplificada de forma exagerada. Não gostei de ver Arya clamando pelas cabeças dos lordes que questionaram Jon. Soou impulsivo, estúpido, algo que vai contra os aprendizados e evolução de sua personagem. Da mesma forma, eu compreendo esse impasse entre as irmãs, mas não gostaria de vê-lo estendendo-se.
As duas irmãs precisam conversar e compartilhar suas histórias e pensamentos, antes que suas próprias deduções umas sobre as outras aliadas às persuasões externas as contaminem. Eu acredito que um embate inicial é plausível, mas diante de tudo que elas passaram para estar ali, não aceitaria que essa faísca explodisse entre duas mulheres fortes que amadureceram o suficiente para perceber que compartilham os mesmos desejos de manter a matilha Stark.
Aproveitando-se dessa instabilidade que floresce entre as duas, vemos Mindinho fazendo os seus jogos de persuasão. Ele faz com que Arya o siga e acompanhe seu diálogo com o meistre Wolkman (‘Tem certeza que é a única cópia? Lady Sansa agradece seus serviços’) para que a menina veja a carta que ele deixou nos aposentos de Sansa. Carta que Sansa escreveu ainda na 1ª temporada quando Ned Stark estava preso e Cersei a induziu a solicitar ajuda a Robb:
“Robb, escrevo com o coração pesado. Nosso bom rei Robert está morto, em decorrência de feridas durante uma caçada a javalis. O pai foi acusado de traição. Ele conspirou com os irmãos de Robert contra o meu amado Joffrey e tentou roubar seu trono. Os Lannisters estão me tratando muito bem e me provendo com todo o conforto. Eu te imploro: venha a Porto Real, jure lealdade ao Rei Joffrey e previna qualquer desavença entre as grandes casas Lannister e Stark”.
Na época, Catelyn e Robb souberam ouvir a voz de Cersei na letra de Sansa e espero que Arya seja capaz de fazer o mesmo.

FRIENDZONE NEVER ENDS
Enquanto a ligação de Dany e Jon se fortalece cada vez mais, Jorah Mormont retorna para junto da khaleesi que ama. E como eu prefiro as cenas sutis da Daenerys de Emilia Clarke! Mais uma vez a interação entre sua personagem e Jorah me emociona, agora no reencontro aliviado deles.
A possibilidade de Jon interagir com o filho de um dos homens que tanto admirou (e um dos primeiros a confiar em sua competência) – o antigo comandante da Patrulha, Jeor Mormont, também é bem interessante. Daquelas interações entre personagens de núcleos que nos acostumamos a ver tão distantes e que soariam impensáveis a algum tempo.
Senti falta de ouvir Jorah Mormont contar sobre o patrulheiro que o curou na Cidadela, seria interessante vermos Jon orgulhoso e esperançoso dos feitos que o amigo estava a construir. Por outro lado, o incômodo de Jorah à presença de um novo interesse amoroso de Dany ficou bastante evidente. Mas espero que a série não caminhe na direção de dar espaço a conflitos decorrentes desse triângulo amoroso.
Na Câmara da Mesa Pintada de Pedra do Dragão, o conselho de Daenerys se reúne para discutir os próximos passos diante da vitória na Campina e da carta vindo do Norte que relata a visão de Bran sobre o exército dos mortos estar marchando em direção a Atalaialeste do Mar. E então vemos o florescer de algo, mas infelizmente de um dos planos mais sem sentido da série. Para provar a veracidade dos whights, Tyrion sugere que eles levem uma das criaturas a Porto Real para que Cersei aceite negociar um armistício diante da ameaça do Norte.
O envolvimento de Dany com Jon é cada vez mais evidente e ela não consegue mantê-lo aprisionado em Pedra do Dragão. A interação positiva de Drogon com Jon pode ter contribuído para a confiança que se estabeleceu entre eles, dois estranhos que precisaram confiar uns nos outros. Não mais tão estranhos assim…
LEÕES EM PORTO REAL
Aproveitando as habilidades de contrabandista de Davos, ele e Tyrion partem para Porto Real na tentativa que o anão possa persuadir Jaime a fazer Cersei ouvi-los.
Com uma abordagem extremamente rápida, vemos Davos e Tyrion aportarem em Porto Real como se a fosse a ação mais fácil do planeta. Mais um dos exemplos em que o roteiro sabia onde eles deveriam chegar, pouco se preocupando com a forma que os levariam até ali. Se o público ganha uma trama ágil, por outro lado, perde minúcias que enriqueciam e diferenciavam a produção.
Acredito que a aproximação dos dois ocorrendo à noite traria mais verossimilhança à trama, com a escuridão lhes dando a cobertura necessária para não estarem visíveis no mar quando se aproximavam e partiam, e enquanto percorriam as ruas de Porto Real, tal como Davos fizera com Melisandre para invadir o acampamento de Renly na 2ª temporada (quando Mel pariu a sombra, lembram?).
Da mesma forma, mal eles aportam em Porto Real, já vemos o reencontro de Tyrion e Jaime dentro da Fortaleza Vermelha (!!!) auxiliado por Bronn. Tal reencontro, que carrega uma enorme carga emocional, poderia ter sido ainda mais impactante se não ocorresse de forma tão abrupta e simples. Ainda assim, a atuação consistente de Peter Dinklage e Nikolaj Coster Waldau reflete toda a emoção do momento em que os leões se revêem em lados opostos.
Quando Jaime apresenta os termos do armistício a Cersei, ela já parece bem consciente de tudo que se sucedera e instiga o irmão sobre a traição de Bronn. Um acordo de paz é a melhor opção para Cersei, quando uma derrota contra Dany parece tão inevitável. A melhor forma de derrotar sua inimiga talvez seja justamente nos meandros de um cessar-fogo, quando Dany volta sua atenção ao inimigo do Norte, Cersei pode aproveitar-se de eventuais descuidos para apunhalá-la silenciosamente.
A grande revelação no núcleo de Porto Real está no ventre de Cersei. Informação que vai contra a profecia feita por Maggy, a Rã, que revelara que Cersei teria três filhos, o que gera uma série de teorias… Podemos teorizar que a informação de Cersei a Jaime é falsa e ela está usando-a para controlar Jaime. Ou então, o bebê não sobreviverá ao parto que também será a causa da morte de Cersei, o que corroboraria a outra parte da profecia que diz sobre o valonqar (irmão mais novo) ser o responsável pela morte da Rainha…
O RETORNO DE GENDRY
Enquanto os Lannister se multiplicam em Porto Real, Davos caminha pelas ruelas da cidade e reencontra um dos personagens que os fãs mais desejavam ver de volta à série. O bastardo sobrevivente de Robert Baratheon, Gendry! Davos o encontra tal como Ned o encontrara na 1ª temporada da série, forjando armas em Porto Real…
Gendry foi um personagem central a alguns dos principais eventos da série, ainda que tenha sido coadjuvante… O bastardo foi essencial para Ned perceber que ‘a semente Baratheon é forte’ e os filhos de Cersei não eram do Rei. Após a morte de Robert, Gendry decide-se juntar a Patrulha da Noite e encontra Arya no grupo de recrutas. O envolvimento de Arya e Gendry foi bem marcante e durou até o bastardo ser levado por Melisandre para Pedra do Dragão, onde a mulher vermelha usou seu sangue real para um ritual visando à morte dos ‘três usurpadores’, Joffrey Baratheon, Balon Greyjoy e Robb Stark. Antes de Stannis e Melisandre sacrificarem a vida de Gendry em busca de um feito maior, Davos o liberta e, desde então, Gendry vinha remando…
Gendry é eternamente grato a Davos e decide segui-lo sem pestanejar, dando provas de sua lealdade já no momento em que eles e Tyrion partem da capital. A arma que utiliza, o martelo, é uma clara referência ao martelo de guerra que seu pai, Robert Baratheon, utilizava. Inclusive, o martelo que Robert usou para matar o pai de Jon, Rhaegar… Curioso quando Gendry e Jon se encontram e ele comenta que ‘seus pais eram amigos’, pensando em Robert e Ned, quando na realidade Robert e Rhaegar eram inimigos declarados e um foi o assassino do outro.
JON STARK TARGARYEN

A maior revelação do episódio e possivelmente da série, passou quase desapercebida… Quem diria que a origem real de Jon Snow seria enunciada por uma selvagem que além de não saber pronunciar corretamente o que lia, não tinha qualquer dimensão do impacto daquela revelação. A informação crucial perdida em meio a relatos sobre degraus, janelas e movimentos peristálticos… Enquanto a consciência de Sam travava um embate sobre permanecer na Cidadela ou partir para a Grande Guerra, ele foi incapaz de ouvir o que Gilly lhe dizia. Ao menos, a sua decisão em deixar a Cidadela me soa pertinente. Os meistres parecem decididos a não acreditar nos relatos sobre os WW e seu Exército e, de posse dos livros que julga importantes, Sam será mais útil fora dali. A Cidadela já ajudou Sam e não parece disposta a ter essa ajuda retribuída…
Para quem ainda não entendeu a dimensão do que Gilly leu, é hora de parar e digerir a informação, pois esse fato pode trazer uma das maiores reviravoltas na trama, revelando que mais do que não ser um bastardo, Jon Snow Targaryen tem legitimidade ao Trono de Ferro. A revelação acaba de colocar mais variáveis a equação R + L = J. Em seus diários, o Alto Septão Maynard teria registrado que anulara o casamento de Rhaegar (com Elia Martell) casando-o no mesmo dia com outra pessoa, que deduzimos ser Lyanna Stark.
ECOS DO PASSADO – DESTRINCHANDO RT + LS = JST
Nunca os eventos que precederam os acontecimentos da série estiveram tão bem costurados, ainda que restem muitas questões. O envolvimento passado de personagens que acompanhamos na série fica cada vez mais claro, bem como a explicação de tantas de suas escolhas atuais. Conhecendo-os mais a fundo fica mais claro entender tudo que aconteceu antes de Jon Arryn morrer e a comitiva real chegar a Porto Real. Como as peças desse quebra-cabeça nos foram sendo fornecidas homeopaticamente ao longo desses anos e muitos as esqueceram julgando-as detalhes do passado, tentarei reuni-las para entendermos a dimensão da revelação que tivemos em Eastwatch…
Rhaegar Targaryen era o filho mais velho de Rhaella e Aerys Targaryen, sendo então, irmão de Viserys e Daenerys e o legítimo herdeiro do Trono de Ferro. Vale pontuar que quando criança, Rhaegar tinha grande apreço pela leitura e foi a partir de algo que leu que então se dedicou obsessivamente em tornar-se um grande guerreiro.
Ele casou-se com Elia Martell (sim, ela mesma, a irmã de Oberyn) com quem teve dois filhos, Rhaenys e Aegon. Elia Martell é sempre descrita como uma mulher de saúde frágil que teve alguns bebês natimortos antes de Aegon e Rhaenys, e que, após quase vir a óbito após o parto de Aegon, foi informada que não poderia mais ter filhos.
No famoso Torneio de Harrenhal, Rhaegar esteve imbatível derrotando os maiores guerreiros à época. Ignorando Elia Martell, ele escolhe Lyanna Stark como a Rainha do amor e da beleza e eis o primeiro sinal do envolvimento entre os dois. Pouco tempo depois os dois fogem para a Torre da Alegria, enquanto notícias sobre Rhaegar tê-la sequestrado espalham-se como o vento.
O irmão de Ned e Lyanna, Brandon – que estava a caminho de Correrio para se casar com Catelyn Tully – vai a Porto Real enfrentar o sequestrador de sua irmã. O pai de Ned, Rickard Stark, segue o caminho do filho levando o exército Stark consigo. Em Porto Real, Brandon e Rickard são violentamente assassinados, como Jon Snow bem lembrou ao confrontar Daenerys nessa temporada.
Aerys Targaryen ordena que Jon Arryn lhe entregue as cabeças de Robert Baratheon, prometido de Lyanna Stark, e de Ned Stark – que viviam no Vale com Jon. Jon Arryn não o obedece e os dois amigos decidem rebelar-se. Tem início a Guerra que culminaria com Robert Baratheon conquistando o Trono de Ferro.
Em algum momento entre o Torneio de Harrenhal e a Batalha do Tridente, o Alto Septão Maynard teria anulado a união de Rhaegar e Elia, casando-o com Lyanna Stark e, assim, legitimando um possível herdeiro… Interessantemente, Rhaegar vem a deixar os melhores guerreiros da Guarda Real escoltando Lyanna em Dorne, enquanto parte para a Guerra contra as forças de Robert.
Na Batalha do Tridente, Rhaegar encontra a morte pelas mãos e martelo de Robert Baratheon.
Enquanto seu marido anula seu casamento, casa-se com outra, renega seus filhos e concebe um novo herdeiro, Elia Martell está de volta a Porto Real, é proibida de deixar a Fortaleza Vermelha (ao contrário de Rhaella, Daenerys e Viserys fizeram) e é brutalmente estuprada e assassinada por Gregor Montanha Clegane após assistir seus dois filhos sendo mortos.
Quantas dezenas de milhares de pessoas tiveram de morrer porque Rhaegar escolheu Lyanna?
Essa é uma frase de Mindinho para Sansa ainda na 5ª temporada da série, quando ainda não tínhamos a confirmação que Rhaegar e Lyanna fugiram dos olhares de Westeros, casaram-se e tiveram um filho, Jon. Hoje, a frase de Mindinho ainda mais acertada e impactante.
Quantos morreram porque Rhaegar escolheu Lyanna, abdicando do seu casamento com Elia e dos próprios filhos? Ao anular seu casamento, seus primeiros filhos tornam-se bastardos aos olhos da lei… O que moveu Rhaegar a tomar uma decisão tão drástica e egoísta? O efeito cascata dessa escolha é marcado por sangue, traições, desentendimentos e embates que ultrapassam a Rebelião de Robert. Uma escolha que trouxe uma Guerra que perdura em Westeros sustentada por mentiras e conclusões precipitadas…
Pobre Elia Martell!
O que moveu Rhaegar a tomar essa escolha? Apenas um caso de amor? Acho difícil, dada sua obsessão com a profecia do príncipe que foi prometido… Talvez ele tenha concluído que seu herdeiro seria o herói profetizado – mas não os seus filhos com Elia – ou que o dragão tem três cabeças e ele precisava ter outro filho… Elia não poderia lhe dar um novo herdeiro e, possivelmente, Lyanna não o faria sem estar casada. A verdade é que precisamos ter mais informações sobre as motivações de Rhaegar e as verdadeiras circunstâncias de sus escolha, pois elas soam bastante egoístas contrastando com a imagem extremamente positiva que os outros personagens fazem dele (tal como Barristan Selmy).
Sabe-se que George RR Martin utiliza alguns fatos históricos como fontes de inspiração para suas histórias e a anulação desse casamento pode basear-se na história de Henrique VIII e sua obsessão em ter um herdeiro homem que o levou a anular o casamento com Catarina de Aragão. Nos livros e principalmente na série, as informações sobre anulações de casamento são escassas… Sabe-se que casamentos não consumados (como o de Tyrion e Sansa) podem ser anulados, mas esse não foi o caso. O Alto Septão poderia ter poder para isso, mas porque uma informação tão crucial ficou perdida nos escritos antigos da Cidadela? Há alguém conspirando para que essa informação não viesse à tona? Houve tempo de Lyanna contar isso a Ned?
Acredito que uma revelação de tal magnitude merecia uma construção melhor. A forma como nos foi apresentada soou como mais uma conveniência de roteiro da trama de Sam na Cidadela. Eis que, de repente, em meio às dezenas de livros da Cidadela, entre os tantos escolhidos por Sam e Gilly, dentro de tantas informações desinteressantes, surge o relato do que influencia diretamente na política de Westeros. É mais do que achar uma agulha em um palheiro. E o que eles acharam é que a legitimidade de Jon ao trono é maior do que a de Daenerys.
O ESQUADRÃO SUICIDA
Como dito anteriormente, é impossível defender o plano de alguns poucos homens atravessarem a Muralha para enfrentar um exército de centenas de mortos e White Walkers, capturar um wight e levá-lo tão ao sul. Não faz o menor sentido. De todos os possíveis deslizes da série esse é o único que eu realmente sou incapaz de defender e pensar em explicações que possam sustentá-lo. É um plano suicida que pode ser um enorme fracasso. Sabendo que a Muralha também tem magia para impedir que as criaturas a atravessem, eles ainda correm o risco de sobreviver à loucura do plano e não conseguirem concretizá-lo.
Sabemos que na 1ª temporada os Patrulheiros conseguem levar dois corpos para dentro de Castelo Negro e somente lá os mortos revivem como wights. Mas ao que tudo indica, esse fato é uma exceção. Vale lembrar de Benjen Stark ao final da temporada passada que mal quis se aproximar da Muralha enquanto guiava Bran… E mais do que isso, como saber se a criatura conseguirá chegar ‘intacta’ tão ao sul da Muralha, em Porto Real? É um plano extremamente arriscado que envolve variáveis bastante improváveis. Não, não faz sentido algum.
No mesmo episódio, Jon, Jorah e Gendry já chegam a Atalaialeste do Mar – um dos dezenove castelos da Patrulha da Noite na Muralha. O castelo mais ao leste da Muralha tem uma apresentação bastante impactante e diferente do Castelo Negro que nos acostumamos a ver em todas essas temporadas. Incrustado no gelo da Muralha, o castelo encontra-se ocupado por Tormund e seus homens (tal como Jon ordenou no início da temporada). A surpresa – extremamente agradável – está nos prisioneiros das celas geladas.
O inusitado encontro de Jon, Jorah, Tormund, Gendry, Cão, Thoros e Beric é recheado de desconfianças e ironias, evidenciando questões mal resolvidas de encontros anteriores. Ainda que as circunstâncias desse superencontro sejam tão questionáveis, é inegável que eles compões um grupo de personagens bastante interessante. O plano de capturar um wight, que nos soa tão arriscado, é perfeitamente aceitável para esses homens. Mas também, são indivíduos que tem pouquíssimo a perder… Membros da Irmandade sem Bandeiras, um homem que já morreu e reviveu algumas tantas vezes, um bastardo, um guerreiro assassino que busca redenção, um homem recém curado de uma doença fatal… Apenas Jon tem um título, família e uma causa a perder. Mas ele é honrado demais para deixar a missão nas mãos de outros.

SUSPIROS FINAIS
– O comportamento de Drogon com Jon lembrou a interação positiva de Tyrion com os dragões na temporada passada. Será essa mais uma pista sobre a teoria do anão ser também um Targaryen?
– Enfim, vimos o último espinho de Olenna, quando Jaime revela a Cersei que a Rainha Tyrell fora responsável pela morte de Joffrey.
> GAME OF THRONES 😱 Episódio 7×05: Eastwatch | SM Play #62 [4K]
– O diálogo inicial de Jon e Gendry é uma clara referência ao diálogo do reencontro de Robert e Ned no primeiro episódio da série. Veja aqui.
– Como não amar Davos falando a Gendry ‘Achei que você estivesse remando até agora’.
– Como eu queria ter visto Gendry contando a Jon sobre Arya!
– O nosso querido Esquadrão Suicida encarou a tal montanha em formato de seta que o Cão viu nas chamas… E não é a primeira vez que a vemos na série:















