Enquanto gelo e fogo ensaiam um dueto, os Lannisters agem para pagar suas dívidas em The Queen’s Justice, mais um ótimo episódio de Game of Thrones.
Game of Thrones não é nessa 7ª temporada a mesma série que vimos estrear em 2011, com todos os prós e contras que venham com essa transformação. Foi-se o tempo das viagens e deslocamentos que se estendiam por episódios, do desenvolvimento dos personagens em meio às estradas, das estratégias ensaiadas por trás de cada ação. Foi-se também o tempo das justificativas meticulosas ao público. Muitos diálogos, jogos políticos e tramas de desenvolvimento mais lento deram lugar a mais doses de ação, acontecimentos imponentes, muitas respostas e uma história que ao escolher ser mais ágil, deixa algumas lacunas no caminho. Enquanto alguns fãs apontam falhas, outros buscam incessantemente por teorias que preencham essas lacunas.
Os criticados ‘teletransportes’ de personagens não me incomodam e refletem a escolha dos produtores por menos episódios para fechar uma história que percorre continentes, dezenas de personagens relevantes e muitos desfechos a serem concluídos. Não há espaço para mostrar a viagem de barco de Jon e Davos, a não ser que algo de relevante venha daí. É natural o estranhamento, afinal a série não era assim, mas a produção precisava dessa agilidade nesse momento decisivo.
Minhas críticas residem em outras questões que até partem dessa mesma escolha. Se antes o ‘como’ era parte tão importante das tramas e acontecimentos, agora é mais importante alcançar certa disposição de peças, independente de explicações detalhadas das jogadas que as movem até lá. Até aí, tudo bem. Como disse, concordo que não há tempo para se mostrar tudo. Mas algumas explicações plausíveis, mesmo que pequenas menções, poderiam ser adicionadas para justificar algumas das conveniências construídas.
Como entretenimento GoT é certeira e diferenciada, e esse último episódio reflete exatamente isso. The Queen’s Justice é poderoso, ágil e marcante, o melhor episódio dessa nova temporada. Mas (e, por favor, não escutem Ned Stark e não desconsiderem o que foi dito antes do mas!), é também verdade que algumas questões incomodam e aproveito esse episódio que equilibrou o que há de melhor na série com alguns deslizes, para fazer a advogada do diabo.
Incomodam porque, justamente, a série ‘criou’ seu público assim, com um olhar meticuloso e atento aos menores detalhes que cercam suas histórias. Por isso, estranhamos o fato do exército Lannister manter-se tão grandioso mesmo estando em Guerra desde a 2ª temporada e com a família que o sustenta, falida. Estranhamos a facilidade com que o exército comandado por Jaime e Randyll Tarly tomou Jardim de Cima, castelo de uma das Grandes casas de Westeros. Estranhamos a facilidade com que Euron cruza os mares com centenas de navios, sem ser notado. Estranhamos o fato de ninguém ter questionado como Jon Snow desertou da Patrulha da Noite quando o primeiro episódio da série mostrava Ned Stark decapitando um homem que desertou de sua função como patrulheiro (É claro que eu e vocês entendemos que depois de morto ele estava ‘livre’ da Patrulha, mas os lordes nortenhos não sabem que ele morreu e ressuscitou). Estranhamos que não surjam sucessores, ainda que distantes, para assumir as famílias Baratheon, Tyrell, Martell… Aliás, onde está o exército Martell?
Na escolha por agilizar a trama e dispor as peças no jogo como desejado, surgem esses problemas que acabam ofuscados diante da grandiosidade e importâncias dos demais acontecimentos e das consequências desses deslizes. Por exemplo, a tomada de Jardim de Cima é extremamente criticável, no entanto, resultou na excelente cena entre Jaime e Olenna… Acabamos criando teorias ou nos apegando a algumas afirmações como explicações, ainda que pareçam frágeis ou inconsistentes com o mostrado anteriormente. Jon precisava ser o Rei do Norte, então não questionamos que absolutamente todos os lordes nortenhos o aceitem bastardo e desertor da Patrulha, como o homem a liderá-los. Imaginem o precedente que ele abre ao sobreviver sem punições depois de abandonar os homens de preto, ainda que seja uma escolha para liderar o Norte?
A força de Daenerys precisava ser desestabilizada para equilibrar a guerra contra Cersei, e agora os fãs teorizam a respeito de um traidor em Pedra do Dragão que explique como a Coroa manteve-se sempre um passo a frente dos planos da Rainha dos Dragões. Mas eu acredito que não há qualquer traíra e sim uma necessidade do roteiro em tornar a disputa mais equilibrada e mesmo que algumas coisas não fiquem tão bem explicadas, ‘é em prol de um rumo importante e interessante para a série’.
A sensação é que o esmero com detalhes vinha dos livros de GRRM e depois que a série precisou seguir seu caminho sozinha, seguiu outra direção. A 6ª temporada foi épica e essa caminha para segui-la à mesma altura, mas os detalhes por trás de cada um dos questionamentos que coloquei poderiam enriquecer ainda mais a produção.
Na minha avaliação final, eu termino os episódios bastante satisfeita com o que vejo, extremamente conectada e empolgada com a história. Os questionamentos surgem porque a própria série nos ensinou a pensar e o bom disso é que o público irá exaltá-la nos seus acertos – como nos bons diálogos dessa temporada, no encontro de Jon e Dany e no desenvolvimento de Cersei – mas também irá criticar suas escorregadas, como por exemplo, a tomada de Jardim de Cima.
O REENCONTRO DOS BASTARDOS

A tão aguardada chegada do Rei do Norte ao lar da Mãe dos Dragões disparou o maior número de referências por cenas já contabilizado na série.
Em cinco minutos temos o agradável reencontro do bastardo de Winterfell com o anão de Rochedo Casterly (agora como cunhados não é mesmo?) menções às cicatrizes e percalços que passaram até chegar ali, opiniões compartilhadas sobre a esperteza de Sansa e a recordação de uma das últimas vezes em que se viram, na Muralha.
Vemos inclusive o primeiro encontro ‘cara a cara’ entre dois dos protagonistas da Batalha da Água Negra: Tyrion que defendia a Coroa (lutando do lado de Cersei) e Davos que lutava por Stannis. E, agora, eles não podiam se encontrar em situações mais diferentes… Tyrion luta contra a irmã que assumiu o trono após usar a arma verde que ele mesmo ‘desenterrou’ para Batalha da Água Negra, o fogovivo que matou os filhos de Sir Davos. E este tem um novo ‘príncipe que foi prometido’ para seguir.
Independente de ser ou não tal figura profética é extremamente interessante que a chegada de Jon à Pedra do Dragão também represente o retorno de mais um com sangue de dragão a antiga sede da família. No momento em que ele, Davos, Tyrion, Missandei e demais caminham em direção ao castelo e o anão comenta que os Starks não deveriam ir ao sul, Jon brada ‘Eu não sou Stark’ no exato momento em que um dos dragões sobrevoa-os assustando-os. Uma bela simbologia, ainda que como bastardo ele não seja nem Stark nem Targaryen, apesar de ter ambos os sangues.
A química entre Jon e Tyrion é resgatada instantaneamente fazendo-nos relembrar das poucas, mas boas interações que eles tiveram lá na distante 1ª temporada. Não lembro de ver Tyrion tão bem em um episódio há algum tempo. Humor ácido e com bom timing, além da mente aguçada e estratégica, evidenciando mais uma vez que seu talento na estratégia política – vide o conselho para Dany cultivar uma aliança com Jon permitindo-o minar vidro de dragão – ainda não foi refletido em táticas de Guerra.
O segundo encontro dos dois é ainda mais interessante. Do alto de um penhasco, mimetizam a cena da 1ª temporada na qual os dois contemplavam os mistérios do Norte, do alto da Muralha. Jon tem um poderoso desabafo com o anão, evidenciando como se sente confortável na presença dele, sobre todas as contestações que recebeu ao decidir ir a Pedra do Dragão e constatando que talvez tenha cometido o mesmo erro do avô e dos tios (Ned e Brandon) quando foram ao Sul e encontraram a morte. Mas Tyrion admira Jon e dali nasce a alinça que seria possível naquele momento, entre os irredutíveis Rei do Norte da Khaleesi. Permitir que Jon e seus homens tenham acesso à obsidiana é uma excelente estratégia para plantar a semente de uma relação de confiança. Ainda que Dany e Tyrion não tenham convicção no que Jon diz, ele já entra ‘devendo um favor’ nessa provável aliança.
PENHASCO DAS REFLEXÕES
Não são apenas Tyrion e Jon que refletem e conversam no penhasco de Pedra do Dragão.
Apesar de curta, a conversa entre Varys e Melisandre suscitou diversos questionamentos… Mel reconhece os próprios erros e sente-se culpada por seus atos escabrosos, evidenciando que ela não é mais a mulher presunçosa que circulava por Pedra de Dragão com Stannis. O lugar está realmente mudado, Davos. Ainda assim ela diz ter cumprido sua missão, ao reunir gelo e fogo – Jon e Dany – sem desconfiar que Jon pode ser, sozinho, a simbologia dos dois elementos.
Antes de encontrar Jon ou Davos, Melisandre avisa a Varys que está partindo para Volantis e os motivos dessa viagem habitarão nossas teorias por algum tempo. A cidade livre localizada em Essos é onde está construído o gigantesco Templo do Senhor da Luz, descrito como três vezes o tamanho do Septo de Baelor. Melisandre poderia estar a caminho de Volantis para se reencontrar com sua religião, em busca de novas informações sobre a profecia do príncipe/princesa que foi prometido(a)? É um palpite.
Ela também profetiza que retornará a Westeros, onde encontrará sua morte. Da mesma forma, Varys também morrerá no velho continente, revelação a qual desperta bastante desconforto no personagem. Se é apenas em razão da sua repulsa a magias e profecias ou se há mais mistérios na vida do Aranha, ainda não dá para dizer.
GELO E FOGO

Numa temporada marcada por tantos reencontros, a expectativa pelo primeiro encontro de Jon e Dany vinha disparando altas doses de ansiedade no público e, enfim, 63 episódios depois, ele aconteceu. Personagens que percorreram caminhos tão diferentes – mas que analisando a luz da sabedoria das palavras de Davos e de tantas outras recordações – compartilham mais do que o sangue Targaryen em suas histórias.
Revolucionários a sua maneira, corajosos e obstinados, pioneiros em tantas de suas ações… Humilhados, desacreditados… Despertaram a lealdade e admiração de seguidores, o ódio de traidores, perderam seus primeiros amores… Reviveram os mitos e lendas que habitavam as histórias antigas abrindo os olhos de Westeros para o que foi esquecido há centenas de anos… A magia dos dragões e dos White Walkers. Fogo e Gelo.
Há tanta poesia nesse reencontro e no que os dois personagens representam para a série. Dois dos pilares mais importantes de sustentação de toda essa história… Quando Ned Stark “protagonizava” a 1ª temporada, ambos ainda eram tão imaturos e subestimados… Jon abandonava os Starks sentindo-se o bastardo deslocado e juntava-se a Patrulha da Noite. Dany era a moeda de troca de seu irmão, a égua reprodutora em troca de um exército de Dothrakis… Agora ele é o Rei do Norte e ela a Khaleesi. Quanto precisaram percorrer para abrir os olhos dos Sete Reinos de seu protagonismo, como se eles precisassem de todo esse processo para enfim se encontrarem. E em ‘The Queens Justice’ eles finalmente estiveram face a face. Sobrinho e tia.
E como esse encontro fica ainda mais interessante quando nossos olhos acompanham as sabendo que Jon é filho do irmão que Daenerys tanto admira… Dessa vez não é só Jon… The last Targaryen know nothing!
Inclusive, o mais interessante nas circunstâncias desse encontro é que, justamente, eles não sabem praticamente nada sobre o outro, desconhecendo todas as semelhanças que compartilham e enxergando apenas as diferenças que o separam. Dany é arrogante, fala alto, clama por seu Reinado. Jon não se exalta nas discordâncias que se estabelecem, mantém-se sóbrio e aponta as contradições do discurso pronto de Dany. Eles são realmente fogo e gelo.
Diferenças que já ficam evidentes na hilária e maravilhosa apresentação de ambos na câmara de audiências. Daenerys coleciona uma dezena de nomes enquanto Davos quase se esquece da ‘única’ alcunha de Jon. Mas se o bastardo recebesse um ‘título’ para cada um dos seus feitos, não teria tantos nomes quanto sua tia?
O encontro foi enriquecido com diversas referências históricas, daquelas que os fãs adoram. Daenerys esperava reviver os feitos de seu antepassado, Aegon I, que desembarcou em Pedra do Dragão com seus dragões e conquistou e unificou o continente. Como ela disse, Torrhen Stark foi o último Rei do Norte, antes de Robb Stark, o Rei que se ajoelhou e prometeu lealdade a Aegon. Por outro lado, Jon relembra a Daenerys sobre a violenta tortura a qual o Rei Louco submeteu Brandon e Rickard Stark. Aliás, se Jon tivesse feito mais uma referência em específico, o público entraria em êxtase… Não seria marcante vê-lo enumerar entre as violências dos Targaryen para com os Starks o fato de Rhaegar Targaryen ter sequestrado e violentado Lyanna Stark? Pelos Sete, como eu adoraria ter visto isso!
Enquanto Daenerys quer obediência do Norte e o Trono de Ferro para si, Jon ressalta que eles ali são apenas crianças chorando por regras que julgam injustas. Por isso soam como dois teimosos que não dão o braço a torcer, Daenerys do alto de sua já conhecida arrogância quando se encontra em situação favorável e Jon mostrando uma teimosia que não lhe é exatamente comum, mas que é condizente com um homem que já falhou e esbarra em diversas dificuldades para provar a importância do inimigo que anuncia. Tal como Tormund dissera em outro momento, Jon passou tempo demais com os selvagens para se ajoelhar novamente.
Também é extremamente difícil para qualquer um em Westeros acreditar na veracidade de White Walkers, criaturas, Rei da Noite e a Grande Guerra. O continente respira os transtornos de guerras civis, linhagens de grandes famílias extinguem-se e centenas de homens morrem quando surge alguém dizendo que tudo isso será em vão e que o ‘inimigo agora é outro’.
O impasse em que Tyrion se vê é bastante interessante, pois o anão que sempre se mostrou tão racional, tem que colocar sua incredulidade a prova por confiar nas palavras do honrado bastardo de Ned. É como se ele acreditasse em tudo que Jon diz que viu, na esperança que a visão de Jon tenha vacilado. Ele acredita sem conseguir acreditar e incrédulo, acredita. BOOM mental. Tal como ele deixa claro ao falar para Dany ‘Dê algo a ele sem ter que dar nada’, para ele, isso tudo ainda é nada.
As palavras de Davos sobre os feitos de Jon foram sensatas e um dos meus momentos preferidos nessa reunião. Ele sempre foi um dos meus personagens prediletos e gosto de como ele desempenha cada vez mais o papel daquele coadjuvante essencial. E desse discurso nasce o momento em que descobrimos que eles decidiram não contar sobre a ressureição de Jon… Pensando sobre o que acabaram de falar, a história soaria ainda mais fantasiosa se um homem que diz ter ressuscitado alarmasse contra o perigo dos mortos. Acho prudente deixar essa informação apenas para as pessoas certas nos momentos certos.
Talvez o primeiro momento em que Jon tenha identificado alguma semelhança com Daenerys foi quando a khaleesi entoou a mesma frase que ele disse alguns episódios atrás: não se pode condenar os filhos pelos pecados de seus pais. Um princípio que eles compartilham, enquanto tantos nos Sete Reinos pensam exatamente o contrário.

Tenho certeza que aos poucos todas as semelhanças nos princípios que os movem, nas experiências semelhantes que viveram, virão à tona e eles se aproximarão mais. Uma aliança que tem tudo para se tornar bastante sólida, antes mesmo deles saberem que tem o mesmo sangue. Antes que o ‘fogo e sangue’ de Dany ou a ‘honra’ exacerbada de Jon falem mais alto que seus pontos em comum.
Emilia Clarke e Kit Harrington não são grandes atores, mas fiquei satisfeita especialmente com a performance de Kit. Clarke sempre parece acima do tom quando Daenerys veste-se de arrogância e daqueles discursos para mobilizar seus súditos. Suas melhores cenas sempre são as mais sutis, como na despedida de Jorah e quando nomeou Tyrion como sua mão na última temporada.
Por isso, o segundo encontro entre os dois foi ótimo… Os últimos Targaryen na sede da casa dos dragões, mas despidos de seus nomes reais, tronos e conselheiros, quebrada a expectativa de uma primeira impressão, soaram muito mais naturais um com o outro, mais sinceros, menos inflexíveis. Há certa cumplicidade em uma cena recheada de simbologias, uma amostra que a química entre os personagens flui bem.
Viserion e Rhaegal sobrevoam o mar e quando Dany conta que os nomeou em homenagem aos seus irmãos, eles percebem mais uma semelhança que os une: ambos perderam dois irmãos. Ainda que pensem que no caso de Jon, são Robb e Rickon, e não Aegon e Rhaeynis Targaryen, os filho de Rhaegar com Elia Martell.
CERSEI PAGA SUAS DÍVIDAS

Como esperado, Euron Greyjoy retorna a Porto Real carregando o presente que prometera a Cersei: a assassina de sua filha, Myrcella.
O caminho percorrido até a Fortaleza Vermelha é marcado por mais uma cena de selvageria do povo de Porto Real, cuspindo, xingando e humilhando Ellaria, Tyene e Yara. Parece contraditório que as mesmas pessoas que há algum tempo ridicularizaram e humilharam Cersei, agora o façam contra suas inimigas. A verdade é que a população comum da capital de Westeros sempre foi mostrada dessa forma, governante que fosse. Nós os vimos clamando pela decapitação de Ned Stark, revoltando-se contra o Rei Joffrey, o que quase resultou num estupro a Sansa, além da traumatizante Caminhada da Penitência de Cersei. Tenho a sensação que as pessoas que vão acompanhar esses eventos estejam sedentas pela humilhação de figuras que representam poder, sejam elas quem forem, tal com Jaime e Euron comentaram.
As teorias que Cersei arquitetou a explosão do Septo, e ocasionou a morte da adorada Rainha Margaery, certamente circulam do Beco das Pulgas à Fortaleza Vermelha, por todas as estradas de Westeros (vide Torta Quente no último episódio). Pergunto-me se esse não seria aquele tipo de evento que desperta medo de Cersei aliado a certa fascinação por seu poder, de forma que eventuais revoltas dos amantes de Margaery fiquem silenciadas. Posso estar aqui divagando para preencher as lacunas do roteiro que comentei no início desse texto, mas essa gana e prazer pela humilhação alheia – especialmente de pessoas poderosas – me parece o tipo de espetáculo que o povo realmente se reúne para ver.
A cada episódio que passa o Euron de Pilou Asbæk me conquista mais, com seus sarcasmos, provocações a Jaime e sua vilania tão evidente. Ele acertou no tom dado ao personagem.
Mas quem rouba a cena em Porto Real é ela. A primeira Rainha dos Sete Reinos está reinando absoluta. Estratégica como não imaginei vê-la, está utilizando como mantra a frase que disse a Ned Stark na 1ª temporada ‘No Jogo dos Tronos, você vence ou você morre’ e enquanto três Reis morreram ao seu lado, bem como seu pai e seus filhos, ela sobrevive cada vez mais fria, mais endurecida e vingativa.
Primeiro, ela ainda não aceita o pedido de casamento de Euron e condiciona-o à vitória na Guerra, mas valoriza o presente dado nomeando-o Capitão de sua frota marítima.
De posse de seu presente, Cersei escreve mais um capítulo de sua vingança com a justiça da Rainha que se tornou, embalada pela marcante trilha sonora que marcou a explosão do Septo de Baelor. Light of the seven é o hino da Rainha Cersei e a cena que vimos é aquela vingança desenhada e assinada pela Rainha Lannister. Atuações irretocáveis de Lena Headey e Indira Varma trouxeram a carga emocional que a cena pedia, dentro de todas suas contradições. Duas mães que amam seus filhos, duas assassinas que não poupam em suas represálias.
Sentimos toda a dor de Cersei ao confrontar a assassina de sua herdeira condenando-a por tal atrocidade. Mas agora é Ellaria quem sofre com o cruel destino que Cersei lhe condena, muito pior que a morte. As duas não hesitaram ao condenar filhos pelos pecados de seus pais e lhes deram o beijo da morte.

Na visita do banqueiro de Braavos, Cersei enuncia o lema de sua família ‘Os Lannister sempre pagam suas dívidas’ e promete que irá pagar os débitos da Coroa, ainda que seja com o dinheiro alheio. Os Tyrell são seus inimigos, mas nada impede que o ouro deles seja sua salvação. Ela ordena que Jaime lidere suas tropas à Campina e tudo indica que o ditado dos Lannister será mais uma vez confirmado.
Cersei é uma personagem que me fascinou desde o início da série, capaz de cometer as mais vis atrocidades para proteger os filhos e a si própria. Um personagem que veio evoluindo, saindo aos poucos dos bastidores, cometendo erros em suas estratégias, que conheceu o auge da humilhação e aos poucos galgou seu caminho ao auge do poder. A Cersei da série tem uma evolução admirável e essa sua nova faceta estratégica e inteligente, com tanto de seu pai Tywin Lannister, a coloca ainda mais como uma personagem indispensável para a série. Vida longa à Rainha Cersei!
ESCOLA DE MEISTRES DE HOGWARTS DA CIDADELA
Está se tornando impossível assistir a trama de Sam Tarly na Cidadela sem que nossa mente nos remeta as aventuras de Harry Potter em Hogwarts. O sermão do arquimeistre Ebrose condenando Sam por desobedecê-lo, ao mesmo tempo em que o exaltava pelo grande feito, parecia um discurso saído dos livros de J.K Rowling. A verdade é que, no final das contas, o arquimeistre só não expulsa o patrulheiro porque ele é da Grifinória (ba-dum-tss!).
Brincadeiras e comparações à parte, tudo indica que Jorah Mormont está curado do escamagris o que soa como mais uma conveniência de roteiro na trama de Sam. É bonito vê-lo salvando o filho do homem que já o salvou antes, claro. Também entendo que ele não descobriu a cura, mas se arriscou em um determinado protocolo proibido que se mostrou extremamente perigoso. No entanto, não é incompreensível que tantos outros meistres e aprendizes também não tenham ficado curiosos e obstinados em busca da cura da doença e apenas Sam (e mais um ou outros dois casos de sucesso), com uma precisão cirúrgica admirável, tenha concluído a tarefa com tamanho sucesso e facilidade?
Diante disso, eu ainda acredito que Jorah não tenha sido curado. Sam pode ter sido brilhante ao regredir sua doença a níveis não contagiosos, mas como se tivesse um câncer, não duvido que Jorah possa ter uma recidiva. Como se Sam tivesse retirado o tumor, mas ainda restasse algum nível de contágio, mesmo que seja interno. Se até o final da série ficar provado que Jorah está realmente curado, por favor, dêem o Nobel de Westeros a Sam, obrigada!
Ainda que eu não esteja convencida sobre a cura, a cena em que Sam estende a mão para cumprimentar Jorah foi bem bonita, carregada de significados. Apesar de completamente inconsequente, sejamos sinceros.
A nova tarefa que Ebrose passa a Sam, de fazer cópias de manuscritos antigos me soa como mais uma sorte no destino do patrulheiro. Quantas coisas importantes poderão estar naqueles papéis antigos e mofados… Será que Ebrose continua com um modus operandi a la Dumbledore e queira exatamente que Sam descubra algo ali?
CORVO-DE-TRÊS-OLHOS EM WINTERFELL

Bran Stark deixou Winterfell fugindo e em uma obstinada missão em busca do Corvo-de-Três-Olhos. Agora o menino retorna para sua casa como o próprio Corvo e não podia estar mais diferente…
Sophie Turner e sua Sansa Stark estiveram muito bem nesse episódio, comandando com sabedoria e humildade, atenta às palavras de Mindinho, mas não entregue às suas persuasões, ao menos, por enquanto.
Quando a menina foi chamada aos portões de Winterfell, meu coração disparou. Todo e qualquer reencontro dos Starks vem com a expectativa de aquecer nossos corações e nos emocionar. Dessa vez nos vimos novamente emocionados ao vermos o rosto de Bran de volta ao seu castelo e depois ao contemplarmos o olhar de Sansa reconhecendo seu irmão. No entanto a reação completamente apática de Bran causa enorme desconforto e quebra a magia de mais um reencontro Stark.
Desprovido de qualquer traquejo social, como se a transformação no Corvo-de-Três-Olhos e o poder de visualizar tudo e todos a qualquer tempo tivesse afastado suas memórias e sentimentos de menino Bran… Como se sua mente estivesse tão sobrecarregada que não houvesse mais espaço para suas emoções e seu passado. Ele precisava mostrar a Sansa a grandiosidade de seus ‘poderes’ citando algo que só a menina tivesse vivido. Ele opta pela noite de seu casamento com Ramsay Bolton, quando a menina foi violentada. Bran descreve como se estivesse falando de uma pessoa qualquer, como se estivesse acompanhando o desenrolar da história de um personagem distante… A forma como ele diz que a irmã estava linda naquela noite foi bastante creepy e, naturalmente, vemos Sansa ficar completamente desestabilizada.
Vale falar que o antigo Corvo-deTrês-Olhos havia dito a Bran que ele ainda não estava pronto para sua transformação, e por isso, o menino pode estar nesse estado tão frio.
Curiosamente, no dia que Bran retorna como Corvo-de-Três-Olhos e o seu poder de ver todos os tempos e todos os lugares, Mindinho aconselha Sansa que “Lutar em todas as batalhas, em todo lugar, sempre, na sua cabeça. Todos são seus inimigos, todos são seus amigos, todos os eventos possíveis estão acontecendo ao mesmo tempo. Viva desse jeito e nada vai surpreender você”.
Mindinho fala isso para que Sansa cultive desconfianças acerca de absolutamente todas as pessoas a sua volta, precavendo-se de todas as possibilidades que a cercam, incluindo as traições das pessoas nas quais confia cegamente. Torcemos para que Sansa use essa arma contra o próprio Mindinho, mantendo-se sempre à frente dos possíveis passos e planos escusos de Petyr. Que ela preveja suas jogadas e imagine todos os cenários, inclusive aqueles em que ele tenta persuadi-la.
Aliás, o retorno de Bran é um enorme balde de água fria nas expectativas de Petyr Baelish. Interessantemente, ele deve vê-lo como um perigo por ser o herdeiro Stark, o que pode enfraquecer o poder de Sansa. No entanto, seus maiores problemas residem nas visões que o Corvo pode revelar sobre seus atos passados…
O ESPINHO FINAL
Os Imaculados conquistaram Rochedo Casterly, sede da família Lannister, castelo nunca tomado por ninguém, acessando-o pelos esgotos. Esgotos que se tornam cada vez mais poéticos na relação entre Tyrion e Tywin. O quão irônico é o fato de Tywin Lannister ter delegado a função mais baixa na administração do castelo ao filho que renegava… Filho que o assassinou na latrina (!!) e percorreu os caminhos do esgoto para tomar a sede de sua família.
A escolha de termos Tyrion narrando os acontecimentos para Dany, Missandei e Varys, foi um grande acerto no episódio. Vimos o idealizador de todo o plano, conhecedor das passagens obscuras, explicando como vislumbrara sua estratégia. Um dos bons momentos que o episódio trouxe e bastante factível com a história já contada (há em episódios passados referências ao trabalho do anão nos esgotos de Rochedo Casterly). Tudo acontecia tal como Tyrion planejara, exceto pelo descaso que seus irmãos teriam pela sede Lannister.
Desprevenidos, os navios dos Imaculados são atacados pela frota Greyjoy e me pergunto como eles não os viram aproximando-se…
Jaime Lannister reeditou o plano que Robb Stark usou para derrotá-lo na 2ª temporada da série, desviando a maior parte de sua tropa para outro local inesperado. Aguardados em Rochedo Casterly, atacaram Jardim de Cima de surpresa.
Um ataque que soa fácil demais, como já disse. Muitos dos vassalos Tyrell podem até tê-los traído em prol da Coroa, como vimos Randyll Tarly marchando ao lado de Jaime (apesar de que a única bandeira que marchava em direção ao castelo era a bandeira Lannister), mas um Castelo do porte de Jardim de Cima, com um exército numeroso, sucumbir tão rápido sem que houvesse um só dia de cerco, me soa inverossímil e uma grande conveniência de roteiro. O ponto mais fraco do episódio.
Ao menos esses acontecimentos nos reservaram mais um momento majestoso de outra Rainha que reina absoluta. Nenhum personagem morreu com a dignidade de Olenna Tyrell e a verdade é que uma personagem épica, realmente merecia uma despedida à altura. Mesmo após perder seu Castelo, em uma posição subjugada, a Rainha dos Espinhos xinga o filho de seu assassino e humilha a ele e sua irmã/amante. Bebe sua morte em um só gole e por fim, dá sua última espetada, saindo por cima da própria morte. Uma pena ela não ter revelado o papel de Mindinho no regicídio de Joffrey, como prometera que faria, na 5ª temporada, caso sua casa caísse. Ou será que a Rainha dos Espinhos deixou tudo encaminhado para uma espetada post-mortem?
Olenna Tyrell foi uma das melhores personagens da série, daquelas que não aparecia muito, mas sempre o fazia de forma marcante. Falou verdades, foi decisiva em seus atos e morreu como matou. Envenenou um Lannister e morreu envenenada por eles. A diferença é que o sabor de sua morte foi mais amargo para Jaime e Cersei do que para ela.

Vale lembrar do último conselho que ela deu a Daenerys foi para a Rainha ignorar Tyrion e ser o Dragão que é. Não há dúvidas de qual será o comportamento de Dany após acumular derrotas contra Cersei: tomar tudo que é seu com fogo e sangue.
SUSPIROS FINAIS
– Um episódio de riscos desnecessários, não é mesmo? Por que Sam cumprimenta Jorah? Por que Cersei beija Jaime logo após beijar Tyene à morte?
– Melisandre diz que volta a Westeros, onde vai morrer. Na última vez que esteve com Arya, a Mulher Vermelha disse que elas voltariam a se ver… Sabendo que ela está na lista de Arya, será que a Stark vingará a morte de Shireen?
– Difícil escolher quem tem sua melhor Revenge… Arya ou Cersei?
– Barristan Selmy dizia que os homens lutavam e morriam por Rhaegar Targaryen, pois acreditavam nele e o adoravam. Em um mesmo episódio ouvimos Tyrion falando algo muito parecido sobre Dany a Jon, e também ouvimos Davos falando isso de Jon à Dany.
– Quando Jon pergunta a Tyrion a forma de convencer as pessoas a enfrentar um inimigo que não enxergam, fica claro que Dany/Cersei precisarão ver um White Walker ou criatura para acreditar. Sabendo que nenhuma das duas perderia tempo indo ao Norte para tanto, só resta a Jon levar uma criatura ao sul… Será que isso é possível?
– Não, eu não acredito na teoria que circula e diz que Missandei estaria traindo Dany. Por favor! Eu nem acredito que Varys esteja a traindo, ainda que seja muito mais aceitável que Missandei. O diálogo de Davos e Missandei realmente pareceu deslocado e depois de rever algumas vezes acredito que tenha sido apenas para ilustrar a diferença daqueles que habitam Pedra do Dragão agora em relação a época de Stannis.
– Vocês lembram o amigo que dizia a Tyrion ‘Give me 10 good men and I’ll impregnate the bitch’? Sim, ele mesmo, Bronn!
– Seria essa a temporada dos envenenamentos? Tivemos a chacina de Freys por Arya, o beijo da morte de Cersei e a morte da RAINHA da série Olenna Tyrell.














