A infância é inalcançável. É inalterável, portanto, já que não há como alterar algo que não se alcança. Esbarro nesse pensamento às vezes quando esbarro naquela pergunta criada por aí sobre o passado: o que você diria para a criança que você foi aos doze anos? Ou aos dez, ou aos onze — as versões variam. Nos círculos mais jovens, há a citação de “dez anos atrás”, mas a proposta é a mesma; sabemos que é a infância que se deseja tocar. A quem interessar possa: no meu caso, eu diria leia mais, descubra o Machado mais cedo, passe menos tempo no computador, visite mais a sua avó. O exercício é inútil, eu sei, porque os frutos do ato não adicionam nada à nossa rotina: fermentam amarguras para alguns, enchem de nostalgia outros. (E o que é mesmo que se dá para fazer com nostalgia?)

Fiquei pensando, depois de minha maratona de final de semana na Netflix, porque eu confesso que o casamento ainda está de pé, mais adiante. Cheguei à percepção de que a infância não é só inalcançável a nós, adultos, mas às próprias crianças, uma vez que é um período no qual não possuem autonomia sobre nada. Ninguém pergunta às crianças as “perguntas importantes”, porque se acredita que é preciso muito tempo nesse planeta para uma resposta encorpada, séria, relevante. No lugar disso, o que se faz é deduzir por elas; deduzir o que pode ser bom, o que pode ser ruim, entre outras coisas. Não só isso, mas a infância é um período no qual nos acumulamos de uma moral que não é nossa, de costumes que não são nossos e de uma educação que ainda não sabemos a quê se destinará.

Vou além, se me permite, e penso que o meio onde se nasce, as pessoas que nos rodeamos, as dificuldades e limitações que passamos, podem ser mudadas e vencidas quando adultos; não quando crianças. Órfãos, por exemplo, têm aquela realidade depositada diante de si e nada podem fazer a respeito. O direito à infância, na nossa concepção de infância, que deveria ser universal, é poucas vezes um direito de fato. Para Cordelia, por exemplo… Digo, para Penélope… Qual é seu nome mesmo, menina? Ah sim, Anne Shirley! Para a menina, cuja memória não acolhe uma relação com os pais, está tudo nas mãos de outras pessoas; esses adultos, seres estranhos e ranzinzas. Mas não tem problema, se o provérbio é “quem tem um amigo tem tudo”, eu diria “quem tem imaginação, tem um amigo”. Ou seja, de qualquer forma, ela tem tudo.

“Eu prefiro imaginar a lembrar”.

— Anne Shirley em Anne With An E.

Escapando do orfanato para viver em lares cujo comportamento abusivo é uma rotina, e voltando ao orfanato porque lares assim não conseguem enraizar um futuro, Anne é escolhida para viajar para o interior e morar com os Cuthberts, dois irmãos solitários, que ao passo que envelhecem e encontram limitações físicas, percebem a necessidade de um garoto para ajudá-los… Pois é, o desejo era por um garoto, e não por uma jovenzinha ruiva, magra, baixinha e que fala literalmente por todas as pessoas no ambiente. Enviada por engano, ela precisa imediatamente convencer Marilla e Matthew a não se desfazerem dela. Entre suas qualidades, vale destacar um estranho conhecimento de literatura e poesia. Ela recita muito bem, e se você já leu Jane Eyre, ambos terão horas para preencherem.

Anne With An E
Anne With An E

Anne é dramática como só algumas crianças conseguem ser. É de uma honestidade e ingenuidade quase preocupantes. Além de passar seus dias imaginando ser uma princesa (imaginando muita coisa, na verdade), vive reclamando de seu cabelo ruivo, suas sardas, ou sobre seu aspecto físico no geral. Não faz muito sentido, já que a atriz escolhida para o papel é linda, mas a gente sabe que muitas vezes a autoestima acaba sendo quase uma construção dos outros, posta em nossa bandeja pronta. Vale destacar também a coragem, a lealdade (eu já falei que ela fala demais?) e um otimismo constante. As características citadas, aqui muito exploradas,  são suficientes para fazerem qualquer pessoa odiar ou amar a protagonista. Aos que amarem, fiquem à vontade, sigam suas tradições de maratona e desfrutem: vocês têm uma ótima série pela frente.

Anne é uma produção canadense, criada pelo canal CBC, que ganhou o mundo ao entrar no catálogo da Netflix com o título de Anne With An E — mais singular e mais parecido com sua protagonista. A base para a história vem do romance Anne of Green Gables de 1908 escrito pela autora Lucy Maud Montgomery, também do Canadá. Publicado por aqui como Anne de Green Gables, talvez você já tenha esbarrado nessa história por aí, afinal, além de vender milhões de cópias, a mídia em geral se apropriou da obra, adaptando para filmes, filmes para a tevê, peças de teatro, séries de televisão, séries de rádio, entre outros conteúdos. Além disso, a escritora tratou de criar uma série de livros que acompanhassem sua heroína pela vida.

Anne With An E
Anne With An E

Com uma bagagem tão completa, é natural perguntar-se o que há de tão apelativo nessa história. Antes de mais nada, o público infantil abraçou o livro. Por mais que seja uma história para todas as idades (algo que se evidencia na série), há um forte apelo que justifica o acolhimento das crianças e a decisão dos pais de lhes repassarem o clássico. Como não li o livro, meu foco fica em falar sobre a série e a boa experiência que eu tive ao escolhê-la como companhia em uma madrugada qualquer.

“Eu decidi aproveitar essa viagem. Por experiência própria, sei que você pode, quase sempre, aproveitar algo se você se decidir a isso com firmeza”.

— Anne Shirley em Anne With An E.

Há um senso de ensinamento, de moral, durante os episódios, como se a série fosse uma fábula. Às vezes a moral é evidente, didática, como nas histórias clássicas. Às vezes nós precisamos fazer algum esforço — e é sempre positivo quando uma produção nos requer algum esforço. Ao abordar histórias como essa, há sempre três caminhos para seguir: amadurecer o enredo e falar com os adultos, infantilizar o enredo e falar com as crianças ou uma mistura dos dois. Dessa forma, enquanto para alguns a série pode oferecer uma companhia (semelhante à geração Harry Potter), para outros pode ser nostálgica. De um jeito ou de outro, todos os públicos são contemplados.

Não ache que o telespectador será poupado, entretanto. O roteiro não fala apenas da bravura e ingenuidade infantil, mas da crueldade; porque sim, crianças podem ser cruéis. Sendo assim, esbarramos em bullying, em solidão, em exclusão social, em trabalho infantil, em preconceito, em abandono, em abusos diversos, além da já citada autoestima. Algumas cenas são difíceis de assistir, e talvez doam aos adultos, mesmo que passem despercebidas pelos menores. Presente também está o feminismo direto, afinal, pelo contexto, Anne é criada enquanto o termo começa a ser espalhado em reuniões íntimas; ou o discurso feminino indireto, na boca de Anne, inconformada com o que pode e o que não pode fazer. Pode parecer fora de lugar, mas os discursos da garota fazem sentido não só para a personagem, mas na história feminina em geral, uma vez que mulheres como ela precisaram existir para que a realidade da mulher hoje em dia fosse melhor do que na época da narrativa. Como a música da abertura diz, ela está à frente por um século. (Completa a ideia a forte presença feminina não só no roteiro, mas na direção e produção).

Anne With An E
Anne With An E

Dividida em sete episódios (ou oito se você considerar que o primeiro é duplo), a série tem uma boa produção, uma boa fotografia e um bom roteiro. Algumas vezes a edição toma decisões estranhas e nos últimos episódios há um problema que se resolve de forma apressada, assim como surge de forma apressada, mas nada que prejudique. (O segundo episódio é um pouco atrapalhado, e o quarto episódio tem uma sequência de incêndio inacreditável, vale acrescentar.)

Os atores estão ótimos em seus papéis, sendo o trio principal o grande destaque. Amybeth McNulty foi escolhida entre milhares para o papel principal. A impressão, pelo contrário, é de que toda a série existe por ela e em função dela, sendo o roteiro escrito para ela. O premiado ator R. H. Thomson faz um Matthew Cuthbert comedido, melancólico e cansado, crível em todos os momentos. A atriz inglesa Geraldine James tem momentos emocionantes e reflexivos, sabendo conduzir sua Marilla do grito ao choro de forma que pareça sem esforço.

Para completar a história desses irmãos, dos quais pouco sabemos, ganhamos pistas conforme os episódios. Percebemos que são pessoas amarguradas, acostumadas com uma vida que pouco floresceu e abatidos por perdas irreparáveis. São aqueles que nunca perceberam a solidão porque a companhia nunca foi uma possibilidade. Quando essa garota excêntrica chega, fazendo barulho pela casa, é que percebem o buraco em suas rotinas. A história é, então, sobre pessoas que se escoram em corpos alheios para que não caiam.

Vale dizer que os dramas abordados trazem momentos engraçados em seus recheios, e a série é tão divertida quanto promete ser. Anne é atrapalhada e desengonçada; cativante, no fim das contas. As outras crianças complementam bem a turma mirim que se forma, principalmente Lucas Jade Zumann, que interpreta Gilbert Blythe, aquela criança que tem sobre si um charme apelativo que chama a atenção de outras.

Anne With An E
Anne With An E

Por enquanto, não há notícias sobre uma segunda temporada. Mês passado, a atriz  Amybeth escreveu justamente isso em seu twitter. Ao que parece, a roteirista  Moira Walley-Beckett gostaria de ao menos cinco temporadas. Como os livros seguem Anne até a fase adulta, história é o que não vai faltar. A temporada se conclui, mas deixa espaço para continuidade com um final que pode ou não ter colocado os protagonistas em situação de risco. Como acredito que a segunda temporada faria uma boa exploração do que ainda há para ser contado, fica a torcida.  A boa recepção pela crítica desde o lançamento é o incentivo inicial.

Passeando pela internet, noto que, enquanto a crítica se mostrou favorável, os fãs mais antigos da personagem e dos livros estão divididos. Muitos acusam a nova adaptação de corromper uma história inocente com realismo e pessimismo. Eu, que me lembro vagamente de um filme por conta daquela cena na classe de aula, talvez não possa dialogar diretamente com essa realidade.

O que eu acrescentaria à discussão, entretanto, é que a ficção intocada e não realista não condiz com nossos tempos. Faria sentido deixar histórias infantis nesse grau sagrado, se nós estivéssemos fazendo de tudo para que a infância de todos fosse sagrada e imaculada. A série, no entanto, nos faz perguntar o que estamos fazendo com as crianças atualmente. Estamos criando seres independentes, ou passando receitas para que ocupem nossos lugares e assumam nosso palanque quando não pudermos mais gritar nossos discursos? A ideia de inocência sobre a infância não casa com o desrespeito geral visto nos jornais. A quem achar que Anne é uma personagem inspiradora e deve se manter assim, sinto dizer, mas em nada nos vale personagens fantasiosos e que não refletem as dificuldades reais, presentes desde aquela época e adaptadas nos dias de hoje.

Aos indignados, fica o alerta de que talvez o roteiro queira explorar problemas que sempre estiveram aí, ao lado das crianças, mas foram mascarados pela Literatura — que já fez isso muitas vezes. Assim como Anne recorre à imaginação, muitas crianças recorrem, e é dessa forma que sobrevivem. É dessa forma que, em nosso país, escapam todos os dias de serem exatamente aquilo que o Estado as cria para serem. Além de companhia, imaginação é um escudo, uma forma de escape. Lembro-me disso com carinho quando vejo crianças pelas ruas combatendo inimigos invisíveis. Faz-me perguntar onde está a imaginação do adulto, mas essa já é outra história.

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Mesmo sendo voltada ao público em geral, é evidente que a série não vá ser bem recebida por todas as pessoas. Minha dica é assistir ao primeiro episódio, que resume bem a produção. Caso não goste, sinta-se livre para largar a série. Aos que se encantarem, bem-vindos a Green Gables. Primeiro a gente escala uma árvore, depois a gente conversa. Anne With An E é uma alegoria sobre a infância, imperfeita como a infância é; mas atual, relevante — e alcançável, como a infância jamais será.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
anne-with-an-e-algo-dizer-sobre-infanciaAnne With An E é uma alegoria sobre a infância, imperfeita como a infância é; mas atual, relevante — e alcançável, como a infância jamais será.