Supergirl decide falar sobre relacionamentos em um episódio divertido, mas perigoso.

Romance, o grande fantasma para a maioria dos autoproclamados fãs ‘raiz’ de histórias em quadrinhos. Mesmo detestado e sempre considerado desnecessário, o romance na verdade é parte fundamental de 9 entre cada 10 revistas. Até mesmo as mais diferentes também recebem uma infusão de relacionamentos amorosos em determinado momento. Superman e Lois Lane, Arqueiro Verde e Canário Negro, Flash e Iris West, ou Kid Flash e Linda Park, é possível fazer uma gigantesca lista de pares poderosos da nona arte. Entretanto este tema ainda é um divisor de águas quando inserido em uma produção televisiva, independente da abordagem escolhida. E em seu décimo terceiro episódio Supergirl precisou abordar o tão temido tema.

Me assusta um pouco que Supergirl, uma série outrora tão focada na quebra de vários estereótipos atribuídos a mulheres e super-heroínas, tenha optado por um relacionamento tão clichê e ruim quanto o de Kara e Mon-El. A história da mulher que está tentando fazer o até então irreparável valentão se transformar em alguém melhor, para depois desenvolver um romance com ele, é extremamente preocupante. Pior ainda, parece ter saído das páginas de 50 Tons de Cinza, um livro que tem em sua concepção o conceito bucólico de que por amor qualquer um pode mudar traços da própria personalidade, conceitos que vieram de anos de crescimento e experiências próprias – algo que Supergirl aparentava estar blindada.

O ponto principal aqui é mostrar que a Supergirl não precisa de um parceiro que rivalize com ela em termos de poder, já que sua verdadeira trajetória como heroína não está atrelada a força, mas sim a sua capacidade para a compaixão e fé. Exatamente por esse motivo o romance mais aceitável dentro do que está sendo proposto não é com Mon-El, mas sim com James. E é aí que outro grande problema aparece. Durante toda a duração da primeira temporada Kara almejou um relacionamento com o colega de trabalho, para então terminar tudo usando a justificativa de que ela precisava encontrar a si mesma. Não faz sentido hoje termos a personagem desviando do próprio caminho como heroína e profissional para ensinar para o Mon-El como ser um homem melhor enquanto desenvolve um relacionamento amoroso com ele.

Em alguns pontos parece que o time de roteiristas está tentando se rebelar contra a proposta de um relacionamento para Kara, forçando sua protagonista a reconhecer de todas as formas possíveis o quanto ele não é um bom potencial namorado. O erro é que mesmo apontando todos os motivos para não ficar com o rapaz, Kara termina beijando-o. Várias bandeiras vermelhas se levantaram durante Mr and Ms Mxyzptlk, de maneira que chego a questionar a vontade (ou falta dela) exposta pelos roteiristas na hora de escrever um episódio centralizado neste casal.

Na verdade este romance me fez lembrar outro relacionamento da Kara, mas nas histórias em quadrinhos. Durante o arco escrito por Joe Kelly, Supergirl terminou se relacionando com o Power Boy, um rapaz aparentemente rebelde, mas com um potencial bom coração e em alguns aspectos muito parecido com Mon-El. Lentamente, porém, ele começou a demonstrar ser bem controlador e possessivo, até chegar ao ponto de agredir fisicamente a Kara em um de seus ataques de fúria. Não sei se o time de roteiristas de Supergirl seria capaz de fazer algo do tipo, mas eles com certeza estão pintando o daxamite com cores que vão além do mero ‘rapaz mimado’. A fala tenebrosa perpetuada pelo personagem neste episódio de que tudo costumava ser mais fácil quando ele objetificava mulheres e não se importava com nada é absurda, independente do contexto – inserida aqui como algo cômico ela se transforma em preocupante. Some este ponto ao ciúme, ao desleal tiro em Mxy e na maneira que ele se portou com a Kara, e talvez o futuro deste casal seja mais nebuloso do que o esperado – mesmo que eu não consiga visualizar o time de roteiristas da série chegando a este extremo.

Supergirl 2x13: Mr and Ms Mxyzptlk
Supergirl 2×13: Mr and Ms Mxyzptlk

Mas vamos deixar de lado o grande desprezo que este reviewer sente pelo casal Kara e Mon-El e tratar do verdadeiro marco de Supergirl na casa dos relacionamentos amorosos, e não, não estou me referindo a Winn e sua nova namorada, mas sim a Maggie e Alex. Quando analiso o que a série está fazendo com Maggie e Alex apenas fico mais certo ainda de que o relacionamento de Kara e Mon-El não está sendo pensando da mesma maneira, já que parece estar sendo escrito por outro time criativo. Todo o relacionamento entre as duas, tão bem escrito e desenvolvido, apenas atingiu o ápice do potencial amoroso em Mr and Ms Mxyzptlk. É um retorno lento e gradual, sem pressa e com muito sentimento, de uma maneira que toda produção da CW deveria pelo menos tentar. Existem conflitos e confrontos, mas de uma maneira condizente com o que foi feito para cada uma daquelas mulheres no decorrer de treze episódios.

Claro que não podemos deixar de falar dele, o duende Mxy, interpretado com maestria pelo competente Peter Gadiot. Peter entregou o que nenhuma outra versão live action de Mxyzptlk teve, charme. É um desvio bem grande da aparência real do personagem, mas ao mesmo tempo conversa com a proposta. Neste caso consigo perdoar a CW por não ter investido em um ator mais velho, já que a ideia central era a de oferecer um “risco” para Mon-El, algo que apenas alguém com o charme de Gadiot conseguiria. Existe uma divisão entre o aceitável e o preocupante para o personagem, que também ajuda a compreender a lógica de um relacionamento abusivo. Mxy é interessante, bonito, capaz de mover montanhas (literalmente) por sua amada, mas acredita piamente que o caminho para o coração é através da coerção. Mxy é o boy que te leva para jantar, paga tudo e depois joga na sua cara quando não tem seu desejo atendido.

O capítulo também trouxe uma conexão forte entre a Kara Zor-El da série com a personagem das histórias em quadrinhos. É bem comum ver a Supergirl salvando o dia com seu cérebro ao invés de seus poderosos músculos kryptonianos nas páginas das revistas. Apesar de ter vivido até a adolescência em Krypton, na nona arte, mas ter saído ainda criança do planeta natal, na série, Kara teve uma parte da sua educação no avançado planeta Krypton, que já havia dominado a viagem entre planetas e até mesmo a colonização espacial. Ter a personagem utilizando sua inteligência para lidar com seus inimigos é algo que a distancia muito de seus companheiros de Arrowverse, que usualmente optam por algum mentor melhor preparado, ou apenas a força bruta.

Mr and Ms Mxyzptlk é um episódio divertido e com vários ótimos momentos, como por exemplo a estátua do tio Jor-El criando vida, mas também é um dos episódios de Supergirl com o maior distanciamento do que a série já propôs para sua personagem. É fato que Supergirl não consegue lidar bem com um relacionamento amoroso, independente da emissora, mas em se tratando de mais adequado, é doloroso perceber que o parceiro ideal realmente mora em James Olsen e nunca em Mon-El. Uma pena que Melissa Benoist e Mehcad Brooks não conseguiram o destaque que Melissa Benoist e Chris Wood conseguiram.

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Easter eggs e outras informações

– Mr. Mxyzptlk teve seu debut na revista Superman #30, de 1944. O personagem, nos quadrinhos representado como uma espécie de duende, agiu primariamente como um vilão, mas também já teve participações como um anti-herói. Seus poderes são exatamente conforme explicado na série, através daquilo que pode ser considerado na terceira dimensão como magia, ou tecnologia da quinta dimensão. Mxy tem o poder de dobrar a própria realidade, criando o que bem desejar.

– Mxyzptlk já teve participações em outras mídias. Sua primeira aparição fora das páginas foi na animação As Novas Aventuras do Superman, da década de 60/70, no episódio Imp-Practical Joker. Ele depois apareceu em Super Amigos e avançou até a série animada do Batman, dos anos 90, assim como em Superman: The Animated Series. Mxy também apareceu em Batman: The Brave and the Bold e Justice League Action.

– Já em versão de carne e osso, Mxyzptlk esteve na série do Superboy, interpretado por Michael J. Pollard, em Lois & Clarl: As Novas Aventuras do Superman, por Howie Mandel e Smallville, com Trent Ford.

– Mr. Mytzlplyk também apareceu em alguns games da DC, o último na versão LEGO, em Lego Batman 3: Beyond Gotham.

– A nova namorada do Winn diz que veio do planeta Starhaven, que nas histórias em quadrinhos tem uma conexão com a Legião dos Super-Heróis. O planeta já havia sido mencionado antes na série, no episódio Truth, Justice and the American Way, na primeira temporada. Lá a Supergirl também repete o que foi dito por Winn, que o ar tinha cheiro de canela.

– “Que tipo de coisa a Maggie gosta?” “Sei lá. Armas?”

– Mxyzptlk quase cantou a música “A Whole New World”, do Aladdin. E eu até queria ouvir o resto. Já sinto o cheiro do crossover musical.

– A cena em que o Mxy paralisa os bandidos e coloca armas apontadas para eles é referenciada como algo que ele assistiu em um filme. Poderia ter sido o primeiro X-Men?

– O duelo no teatro guardou uma menção ao musical Hamilton.

– A frase dita pela Kara ‘”You wanna get nuts? Let’s get nuts!” é saída diratemente do filme do Batman de 1989.

– E por fim, o momento em que Mxy chama a Kara de “nasty woman” é obviamente uma conexão com o debate presidencial entre Hillary Clinton e Donald Trump, em que Trump chamou Hillary de ‘such a nasty woman’.

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