Quando anunciaram Taboo, eu fui correndo pedir pra ser o responsável por escrever sobre ela antes mesmo de saber qualquer coisa além do título e do envolvimento do Tom Hardy e do Steven Knight. Não dá pra dizer que o Knight não se envolve em bastante porcaria, mas eu sempre achei Locke um filmaço, inspiradíssimo e uma verdadeira conquista técnica. Então não pareceu que eu tivesse escolha. É difícil dizer, mas acho que tomei a decisão certa. Taboo começa com alguns tropeços, mas parte deles ocorrem porque a série tem uma identidade tão particular e isso não tem como ser ruim.

No ano de 1814, em Londres, James Keziah Delany ressurge, após ser tomado como morto na África durante uma faixa interminada de tempo. Ele encontra o seu pai, Horace Delaney, morto e o seu país em guerra com os Estados Unidos e a França. Os seus únicos interesses parecem ser vingar a misteriosa morte do seu pai e herdar o seu império de navegação, destruindo os planos de Sir Stuart Strange e Companhia das Índias Orientais e da sua meia-irmã, Zilpha e seu marido.

A cold-opening, com todo o seu mistério, descreve muito bem o espírito de Taboo sem se dar ao luxo de esclarecer qualquer tema ou tópico. Você sente que uma neblina grossa de segredos te separa de compreender completamente o que você está vendo, apesar das imagens serem tão claras. E esse sentimento perdura por todo o episódio. Meu palpite é que Taboo se divertirá fazendo isso durante toda a temporada. É bem refrescante, num cenário onde todo piloto de TV parece querer enfiar pela sua garganta porque você deveria acompanhar o programa e o que vai acontecer se você ficar por perto. Taboo não parece se importar. Como piloto, o episódio é bem intimidador, porque ele simplesmente não te permite entrar na mente do protagonista. Quando ele permite, é pra te bombardear com visões desconexas e violentas.

Algumas das minhas coisas favoritas do momento saem do FX. Louie, The Americans, Fargo, You’re the Worst… além do passado do canal ser mais memorável ainda. Uma das coisas que espero quando vou conferir um projeto deles é um texto cheio de personalidade, que foge dos padrões que você teria em algo escrito por qualquer outro canal, por mais semelhante que as liberdades entre eles sejam. E acho seguro dizer que a tradição continuou com Taboo. Assistindo ao piloto, me senti completamente mergulhado na cultura imperial britânica, e o roteiro pareceu flertar com a graciosidade sombria de autores como Charles Dickens. A cena em que os nobres da Companhia das Índias Orentais debatem o passado de James e o roteiro encontra aí a sua oportunidade de exposição, por exemplo, foi muito bem bolada e justificada. Dá pra imaginar Taboo em forma de romance, recheado de artes de alguém como o Hablot Knigth Browne, sendo publicado nessa mesma era em que a série se ambienta.

Quanto ao clima, Taboo acerta de mão mais cheia ainda e o roteiro tem de fazer muito pouco pra conseguir isso. A música é da autoria do Max Richter, o mesmo visionário por trás dos temas mais emocionantes de The Leftovers. Ela é bem dosada, minimalista e destila paranóia, dúvida e tribalismo, enquanto a câmera segue James afundando as suas botas em lama sob um céu escuro. O trabalho de fotografia não é o mais empolgante, mas a cenografia, o figurino e a direção de arte num geral são fenomenais e mais do que compensam por isso. Um detalhe bem minúsculo que tenho a certeza que vai fazer a diferença pra muita gente (que não vai conseguir apontar o dedo pra isso, mas ainda vai sentir algo lá) é a pequena cicatriz no olho direito de James, que só contribui pro ar insano e instável do personagem (junto do cabelo sempre desengrenhado).

Interpretar esse tipo de personagem não é novo no portfólio do Tom Hardy, então já dá pra ir sabendo que ele manda muito bem. James é cartunesco e a intenção jamais é te convencer de que alguém similar existiria, mas sim de enxergar o quão explosivo ele parece ser e imaginar o que deve ter acontecido com ele pra ele se tornar assim. A voz do Hardy aqui é menos peculiar do que muita gente pode estar acostumada e essa voz fina (mas que ainda transmite que ele tem muito em mente que não vai te deixar saber) combina muito mais com o personagem do que qualquer alteração que ele pudesse fazer.

Oona Chaplin em Taboo
Oona Chaplin em Taboo

Já sobre o resto do elenco, eu sinto que ninguém chamou muita atenção, com a exceção do Jonathan Pryce, que pelo jeito vai ser um ótimo antagonista. Aliás, eu pessoalmente me incomodei bastante com o que a Oona Chaplin estava fazendo. Sempre de olho arregalado e parecendo ainda estar no meio da audição pro papel. Mas ainda tem muita gente pra aparecer na série, como o Michael Kelly de House of Cards, que eu pessoalmente gosto muito de ver em ação.

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Taboo parece ser uma adição legal à grade de qualquer um que gosta dos trabalhos do FX. Se você gosta do Tom Hardy e do Steven Knight (cuja mão, eu sinceramente, nem senti ser tão pesada aqui), ela definitivamente tem um lugar nela. A série tem uma pegada literária e tanto mistério que alguns podem até só existir na sua cabeça (eu, por exemplo, senti uma sugestão de uma relação “menos convencional” entre o James e a irmã, se vocês me entendem). Não é tão bombástica quanto alguns de nós assumimos quando anunciaram a produção, mas certamente merece a minha boa vontade pra acompanhar ao menos o ano inicial.

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