Supergirl volta a tratar assuntos importantes através de alegorias em “Welcome to Earth”.
Durante sua primeira temporada Supergirl atacou, quase literalmente, os problemas envolvendo o machismo e o tratamento da mulher nas mais diversas esferas da sociedade. Utilizando a temática de uma super-heroína, o aspecto central da série em seu ano de estreia foi o do empoderamento feminino, a sua importância e também a luta para seu reconhecimento. Por alguns episódios o roteiro não poupou esforços para demonstrar a bandeira que estava levantando, para o desagrado de alguns. Lentamente a série foi deixando de lado o discurso mais agressivo e buscou incorporar a luta que estava representando através de um subtexto, em alguns casos bem nas entrelinhas. Em seu terceiro episódio, de uma já muito competente segunda temporada, Supergirl voltou a abordar temas importantes, com mais maturidade, mas ainda se aproveitando do seu habitat natural, de super-heroínas e alienígenas, para passar sua mensagem.
É notória a nova carga de confiança que Supergirl desenvolveu como série em seu segundo ano. Por esse exato motivo o tema de imigrantes mascarado em uma abordagem de alienígenas não pareceu, em nenhum momento, como algo forçado ou sem justificativa. Também é importante perceber como o atual período norte americano influenciou Welcome to Earth. Enquanto políticos defendem a criação de um muro para barrar a entrada de imigrantes ilegais, outros assistem sem nada fazer enquanto centenas morrem afogados em barcos no oceano. Substitua o muro por um DEO, um barco por uma nave espacial, e a discussão de Supergirl passa a representar um espelho da nossa sociedade atual. Dentro da proposta de uma série ambientada em um mundo fantástico, a pegada mais politizada é o ponto mais forte da produção, assim como outras séries e outras mídias também já se aproveitaram do seu universo para abordar tais assuntos, como por exemplo, Star Trek, Battlestar Galactica e X-Men.

Mas claro que um dos grandes destaques do episódio foi outro e precisamos falar sobre Lynda Carter, sua importância para a mitologia da DC e também a relevância de termos em uma série tão engajada no empoderamento feminino, uma presidente mulher em 2016. Para nós brasileiros pode não parecer muita coisa ter uma mulher como chefe de Estado, mas para o público norte americano é, especialmente hoje enquanto eles passam por um dos cenários políticos mais caóticos já vistos, graças a participação do “outro babaca”. A série não poupou esforços para aproveitar o máximo possível de Carter, forçando Melissa Benoist a explorar toda a sua veia cômica nas interações entre as duas.
É notável como a série abraçou a oportunidade de ter a Mulher Maravilha dentro de um episódio centralizado em colocar nas mãos da presidente do país a decisão de abraçar imigrantes, independente de seu planeta de origem. Também é através dessa abordagem que a profissão da Kara como repórter finalmente demonstrou todo o seu potencial. No passado teríamos Kara agindo como assistente e heroína, hoje já podemos vê-la acompanhando os mais diversos assuntos, incluindo a trama recorrente do episódio, de maneira mais aberta. Limitar CatCo foi o passo mais importante que a série deu durante sua transição de emissoras, mesmo que James Olsen ainda continue sem muito o que fazer ou qualquer motivo para existir na série, o que é uma pena.

Quem também conseguiu um destaque maior neste episódio foi Alex, assim como a sua recém-explorada sexualidade, algo muito importante para todo o contexto da série, que trata e sempre tratou dos mais diversos tipos de mulheres em um mundo habitado por super-heróis e vilões. Graças a inclusão de Maggie Sawyer (Floriana Lima), tivemos não apenas a introdução de uma personagem saída da importante mitologia da Batwoman, heroína lésbica da DC e que quase protagonizou um casamento gay na DC Comics, mas também a inserção de uma mulher latina em uma série que até então só possuía protagonistas brancas.
E dentro do novo prisma criado pela série que conseguimos um panorama maior para uma personagem tão relevante, mas que até então só estava funcionando como apoio para a Supergirl. Alex começou a série como uma pessoa disposta a qualquer recurso para proteger a irmã e desempenhar o seu trabalho no controle de ameaças extraterrestres. Hoje a personagem já possui novas nuances e o roteiro tratou de explorá-las. Ao incluir Maggie, uma policial latina e gay que se identifica com o tema de isolamento devido ao status de “diferente” imposto pela sociedade (alienígena também é o nome utilizado para imigrantes nos Estados Unidos), a série expandiu e muito as possibilidades para ambas as personagens, tanto a veterana quanto a novata. E eu não poderia estar mais orgulhoso da produção. Também é evidente que a energia de Lima casou muito bem com a de Leigh, promovendo uma nova faceta para uma mulher até então tão séria e que só mostrava um lado menos soturno ao lado da irmã.

Muita coisa importante aconteceu em Welcome to Earth, de um jeito que apenas Supergirl consegue fazer. A presença de Mon-El, a revelação de que seu mundo já não existe como ele se lembrava e toda a sua relação com Kara, potencializaram a carga dramática necessária para os próximos episódios da série. E toda a dicotomia entre Kara, uma kryptoniana que mantém memória de sua passado em outro planeta, mas que viveu a maior parte do tempo na Terra, com um homem que não tem nenhuma empatia pela Terra, demonstrará um contraste interessante. Não bastando a inclusão de uma nova personagem feminina para um potencial par romântico com Alex, a série também tratou de incluir em seu universo uma das personagens mais amadas pelo público mais jovem da DC, a sobrinha do Marciano, Miss Marte. Com a saída de Cat e a nova posição mais “escondida” de James Olsen, a série optou por começar a aprofundar sua trindade de personagens, Kara, Alex e Hank/J’onn.
O terceiro episódio da série mostrou não apenas a capacidade de Supergirl de permanecer relevante, interessante e divertida sem a presença do primo mais famoso, mas também o de amadurecer seu roteiro, apresentando uma abordagem já característica, mas de uma maneira bem mais centralizada e sutil. A direção de Rachel Talalay e o roteiro de Jessica Queller e Derek Simon discutiu temas importantes, mas sem deixar de lado o charme da produção, ou a sua alegria em detrimento de um assunto mais sério. E o resultado foi um episódio importante, bem balanceado e fundamental para a segunda temporada de Supergirl, aquela do autoconhecimento e descobertas pessoais.
Easter eggs e outras informações
– M’gann M’orzz, também conhecida como Miss Marte, é o nome da personagem criada por Geoff Johns e Tony S. Daniel, para Teen Titans Vol 3 #37, de 2006. A personagem ganhou grande legião de fãs por causa da animação Young Justice. Nas histórias em quadrinhos ela é uma marciana branca, uma raça de guerreiros responsável por dizimar os marcianos verdes e levar o planeta Marte ao status de deserto. Em Justiça Jovem ela é sobrinha do Marciano/Caçador de Marte, J’onn J’onzz.
– Lynda Carter, ou como é conhecida em Supergirl, Presidente Olivia Marsdin, é a atriz mais importante para a história da DC Comics na televisão. Durante os anos 70 ela interpretou a Mulher Maravilha na série homônima, por quatro anos. A atriz também já fez uma participação em outras produções da DC para a televisão. Em Smallville ela interpretou Moira Sullivan, mãe de Chloe, a melhor amiga de Clark Kent.
– Maggie Sawyer é a primeira personagem fora da mitologia do Superman e com grande relevância a ser introduzida em Supergirl. Sua versão mais conhecida na nona arte é aquela apresentada em 2011, nas páginas de Batwoman Vol 2 #1. Sua primeira aparição, porém, foi em Superman Vol 2 #4, de 1987. Nascida em Star City, Margareth Sawyer trabalhou como policial em Metrópolis, cidade do Superman, mas foi transferida para Gotham. Em Gotham Maggie se envolveu romanticamente com Kate Kane, a heroína mascarada conhecida como Batwoman.
– Em sua primeira história nos quadrinhos Maggie estava sendo chantageada por Lex Luthor, que a ameaçou de revelar sua orientação sexual para o mundo. Interessante como hoje uma abordagem do tipo soa como algo ridículo frente aos avanços que já fizemos, mas de uma maneira triste, ainda pertinente em muitos locais.
– “Você precisa ver o meu outro jato”. Eu vi o que você fez aí, Lynda Carter.
– Quando Kara é atingida pelas rajadas de fogo ela gira rapidamente para apagar as chamas. Essa foi uma referência a maneira que a Mulher Maravilha se transformava em sua série.
– Este foi o primeiro episódio da série a não ter Cat Grant (Calista Flockhart).
– Além de Supergirl, a diretora de Welcome to Earth, Rachel Talalay, também dirigirá um episódio de Legends of Tomorrow e The Flash.
– “Como alguém ainda votou no outro cara?”.
– “Eu voei aqui… em, em um ônibus”. Ainda melhor em guardar sua identidade secreta do que Barry Allen.















