Deuses-humanos e androids-mortais.
Jonathan Nolan caminhou em direção ao carro, observando Lisa Joy. Os dois com sorrisos tímidos após terminarem a filmagem do piloto, já imaginando como seria o final daquele dia: uma partida de golfe com a equipe e uma pequena viagem ao redor de Sweetwater, a cidade que eles construíram para a série Westworld. O sol provavelmente preenchia todo o cenário como um visitante introvertido, marcando o início de mais nove episódios, mais nove grandes momentos na vida desse casal. Na concepção real? São apenas duas pessoas apaixonadas por um projeto grandioso que ambos criaram. Na concepção artística? Os deuses daquele lugar.
Deus vs Humanidade. Westworld é intertextual até mesmo na sua criação. A série é fruto da mente por trás de Lost, J.J Abrams, e da audácia que o casal Jonathan Nolan e Lisa Joy transcreveram para a repaginação do filme de 1973, escrito por Michael Crichton. Todos citados são pessoas, comuns pela cerne humana e limitados fisicamente. Mas só com o fato de verbalizar a criação deles (somado ao roteiro de Westworld) é interessante imaginá-los como donos de tudo e todos. O irônico é que a série decorre disso, da ideia de que nós somos capazes de nos endeusar pelo simples fato de criar algo, de permanecer cientes de que o entretenimento – principalmente a televisão – é conivente dessa ironia da criação de uma “realidade” usando a nossa realidade de molde. Assistir o primeiro episódio (pelo menos pra mim) foi um bombardeio de ideias/críticas sobre o limite da moral que tanto criamos, e como isso pode (num futuro distópico quem sabe) ser a nossa ruína.

A moralidade já caminhou por diversos campos de análise. Seja na história da humanidade, em contos/fábulas, na filosofia e etc. O principal governante do Egito era o deus-vivo intitulado Faraó, filho do Sol (Amon-Rá) e encarnação de Hórus (deus falcão). Centrado nesse raciocínio ele controlava escravos, construía pirâmides e administrava funções diversas (rei, juiz, sacerdote, tesoureiro e general). A religiosidade foi algo que permeou constantemente na ciência do espírito daquela época. Já na Idade Média a concepção teocêntrica da Moral atingiu um patamar de vício e supervisão. Os governantes eram representantes divinos e a sociedade obedecia uma ilusão religiosa bastante rígida: com valores sendo martelados a cada esquina e rebeldes do sistema queimados vivos. Muita coisa mudou de lá pra cá. Mas será que estamos caminhando para uma ascensão humana ou para o declínio da mesma? Ou não seriam estas duas ideias, marchando juntas em passos tecnológicos com a moral se atualizando a cada segundo; até que no sentido de nos entreter seja extinta por completo? Já não estaria ela extinta no subjetividade de cada factoide / história / e universo que criamos?
Anfitriões & Clientes
A ciência do espírito é algo que a moral (aquela filosófica de Hegel) insiste em revisitar. No universo de Westworld esta ciência fica mais nítida (veja que irônico) nos anfitriões, androids programados para povoar um cenário de Velho Oeste, a terra sem lei. Eles recebem os clientes ou novatos, e realizam o que o script de sua persona condiz. Os clientes – pessoas que pagaram para estar neste mundo – podem fazer o que bem entender. Se divertir é literalmente sentir, e por isso que o lifelike de início é assustador. Estamos acostumados a tratar violência em jogos com mais frieza, mas não compreendemos o impacto disso (ainda). Principalmente quando o jogo em si reproduz de forma quase exata a nossa realidade. Os personagens de Westworld não são reais, mas são palpáveis, possuem cheiro, conversam com o mais infinito vocabulário e expressam sentimentos proporcionais aos gestos que nos identificam. Eles são – numa comparação sarcástica – os mortais da mitologia grega, sujeitos a decisões de seres divinos que os enxergam do alto, visitando o mundo casualmente para extravasar atrocidades. É nessa perspectiva que a série se apresenta desde o primeiro minuto e as coisas começam a ganhar uma cor surpreendente.
Ao mesmo tempo que que a moral orienta, ela controla. As mesmas palavras que remetem ao poder absoluto de um príncipe, também decidem sobre a vida/morte de seus súditos. E no meio de toda essa filosofia que a narrativa apresenta temos Dolores. Uma das mais antigas anfitriãs do parque, com um script comum e clichê: camponesa, filha única de fazendeiros, que vai todo dia para a cidade comprar mantimentos ou pintar quadros a beira do rio. Não consigo imaginar outra pessoa interpretando-a além de Evan Rachel Wood, que conseguiu ao mesmo tempo mostrar inocência (aquela robótica universal) e instigar desejo intelectual apenas com olhares.
Na primeira impressão a idealização por trás dessa personagem é bem rasa. Mas começa a ganhar uma proporção gigantesca. Dolores foi programada para receber os clientes com otimismo, mostrar que aquele universo é lindo, vasto e vivo. Mesmo após os scripts abordarem horror em sua vida, ela amanhece todo dia com o mesmo humor. A catástrofe virou seu hábito, reforçado pelo reset de memória que os androids recebem ao comando dos superiores. Os clientes visitam o mundo de Dolores com sede de liberdade, enquanto que no discurso dela este mundo livre (e violento) pode ser visto de forma bela e glamurosa. Acontece que após uma atualizaçao geral nos dados dos androids, o sistema é “infectado” por uma semente misteriosa, alterando o comportamento dos robôs e principalmente nos scripts deles. O pai de Dolores é (dentro desse cenário) um dos mais atingidos. Ele observa uma fotografia de uma visitante (humana), posando sorridente no Times Square, alimentando dúvida, entrando em conflito com seus antigos personas e dilatando à “evolução pecaminosa” daquele mundo. Seu desespero como pai – em proteger Dolores – dissemina uma pequena dose de ceticismo nela, perto de descobrir a mentira que entorna sua existência. Antes ela afirmava que não seria capaz de destruir uma simples criatura, agora ela reage instantaneamente para matar uma mosca indefesa. A consequência disso pode ser incalculável e (quem sabe) transformar pra sempre a relação criador/criatura de Westworld.

Aliás, essa dinâmica de reset dos androids contribuiu e muito para a minha perspectiva filosófica em relação ao primeiro episódio. Deixando-o muitas vezes denso e com material demais para recapitular o que foi brilhantemente exibido. Os scripts predefinidos foram em diversos momentos (acredito eu) decisivos para a libertação do show sobre comparações com Game of Thrones, que usa e abusa de storylines. A diferença aqui é que Westworld metaforiza nossa humanidade com veemência em robôs, já que são as nossas histórias que nos fazem ser quem somos. E são os scripts que dão vida aos anfitriões, entregando-os um definido propósito àquele mundo. O que aconteceria se você descobrisse que sua existência é supervisionada? Ou já não seria ela controlada por um sistema invisível e usurpador?
Westworld nesse sentido promete ser lindo. Não dá para esperar um nível altíssimo como a HBO fez de Game of Thrones, mas com toda certeza é possível se entreter com a linha de crescimento estarrecedora que o gênero possui. É uma produção legítima em sua filosofia – como acontece em The Leftovers – e dramática na medida crível. Tão crível que enriquece o apreço que o público possui pelos trabalhos de J.J. Abrams.
É possível em poucas cenas sentir a superfície de algo mais profundo do que apenas um parque de diversões recheado das criações de Ford (notavelmente interpretado por Anthony Hopkins), tudo na verdade é uma estratégia corporativa que aos poucos será revelada com sutilezas. Dá pra ficar horas especulando sobre, mas por enquanto o público possui as futuras oportunidades de revisitar este universo apenas nas telas de seus dispositivos. Estamos longe dessa realidade e ao mesmo tempo muito próximos. Um casal criou uma série televisiva que fala sobre deuses-humanos e androids-mortais, mas a verdade é que esse futuro distópico já está acontecendo: com você assistindo tudo na sala da sua casa ou com seu vizinho jogando GTA na madrugada. Há muitos desdobramentos para a série nesse curso, entretanto fica o questionamento plantado em Dolores como reflexo de que – a nossa existência – pode ser facilmente refutada. Estamos nos tornando deuses de nossas próprias criações, mas ainda não sabemos lidar com as consequências desse efeito. Só nos resta um pouco de Shakespeare, visualmente citado na série com as moscas pousando nos anfitriões:
“Um pouco de razão ainda conserva, sem o que mendigar não poderia. Na noite que passou, da tempestade, vi um sujeito assim, que ao pensamento me trouxe que o homem não é mais que um verme. Lembrei-me de meu filho, muito embora dificilmente, então, amigo dele meu espírito fosse. Depois disso aprendi muito. O que para os garotos são as moscas, nós somos para os deuses: matam-nos por brinquedo.”
William Shakespeare (Rei Lear)
PS: Hoje completo 1 ano de contribuição para o SM. Cada dia mais feliz de fazer parte desse site maravilhoso! Espero que tenham gostado do texto que é apenas um presente, as reviews da série ficarão por conta do Daniel Barcelos daqui pra frente. Abração! o/















