Já escrevi alguns textos sobre este assunto e muitos dos comentários que chegam até os campos são simplistas: “isso sempre foi assim” ou “você está sendo pessimista”. Este são alguns dos exemplos de respostas à minha opinião sobre remakes, como se acompanhar TV com um olhar mais crítico há mais de 25 anos fosse só uma questão de pessimismo ou negligência em diferenciar convicções de achismos. Escrever dá trabalho, o fundamento da escrita precisa estar avaliada não apenas pelas experiências de vida de quem escreve, como não se deixar apenas contaminar por uma predileção. Ao mesmo tempo é preciso ter feeling para analisar um objeto e observar o contexto para não cair na esparrela de achar “tudo perfeito” ou “tudo ruim”. Feita essa introdução, vamos falar um pouco sobre a proposta da FOX de transformar o blockbuster noventista “Máquina Mortífera” em série.

Homenagens e equívocos, tudo na mesma medida.

Parceiros de polícia que são antagonistas; um mais conservador, rezando na cartilha dos bons procedimentos (good cop) e o tira maluco, que posa de anti-herói, visa os resultados para justificar suas atitudes e atenuar seu perfil insano (bad cop), que mistura remédios, álcool e sandices. Essa ideia não é apenas de “Máquina Mortífera”, mas de zilhões de filmes e séries que tornaram o gênero policial bastante popular lá nos anos 80. Se na década de 70, séries como S.W.A.T ou Carro Comando (do mesmo gênero) apostavam nas ingênuas tramas urbanas, os anos 80 invocavam o humor e as relações mal resolvidas dos protagonistas, em vários ambientes e aspectos. Por isso não dá para não achar que “Máquina Mortífera”, a série, repete fórmulas já conhecidas do grande público, onde não haveria nenhuma necessidade de buscar um sucesso do cinema como referência estética. O piloto faz homenagens e referências ao filme que fez sucesso com a dupla Danny Glover / Mel Gibson e peca ao querer mesclar a dose minúscula de humor que Damon Wayans carrega por seus outros papeis, com o drama mexicano que o ator Clayne Crawford não tem talento de executar.

Como fazer amizade? Em algumas séries partindo das impossibilidades.

Quando a esposa do agente Riggs (Crawford) morre grávida do primeiro filho após um acidente de trânsito, Riggs resolve entrar numa jornada de autodestruição. No outro lado do córner, Murtaugh (Wayans) depois de pausar a carreira para cuidar da saúde, resolve voltar à rotina de trabalho na delegacia de polícia de Los Angeles. O que ele não sabe é que terá que redobrar seus cuidados com a saúde porque um sujeito com perfil suicida passará a ser seu parceiro. Nada mais do que isso. Não tivesse a paradisíaca fotografia da California, verão o ano inteiro, teríamos problemas para não darmos “aquela” cochilada nos longos 40 minutos do episódio piloto. Com cenas de sangrar os olhos como as que dão conta de uma perseguição com tiros onde as rajadas cessam para dar lugar a uma conversa telefônica ou mesmo quando no meio da noite, Riggs resolve voltar à casa da esposa da vítima e, do nada, descobrir que a viúva está sendo monitorada. Sem explicação, sem uma cena anterior que ajudasse a entender, sem uma motivação mais intensa. Nada didática, nada compreensível.

… E espero que não tenha sido apenas eu quem achou patética a fala de Murtaugh pedindo de presente de aniversário uma sessão de sexo oral da esposa, como se pudesse receber o carinho íntimo apenas quando comemora anos, como deu a entender nos últimos minutos do episódio. Você junta esses ingredientes, pega dois atores que não passam qualquer tipo de sinergia e taí o piloto de Máquina Mortífera.

Proposta obsoleta: flop certo?

A FOX pode ter dado um tiro no pé ao apostar numa fórmula batida de entretenimento, uma vez que este gênero não tem mais público como há alguns anos. Séries que apostam em procedurais, normalmente capricham um pouco mais em termos de produção e num roteiro melhor escrito. Minha gente, não estamos falando de uma temporada e sim do piloto, fraco, sem graça e longe de poder atrair mais gente. Talvez se tivessem escalado atores mais cascudos e talentosos, eles salvassem a premissa e quem sabe até convidaram, mas como aceitar uma furada dessas?

Ou eles mudam a estética escolhida e partem para um outro tipo de abordagem, com um texto mais redondo e menos forçado ou não passa da primeira temporada, nem com todo o otimismo do sol californiano.

FOX vacila e a busca por remakes aponta crise de roteiristas

Um canal gasta milhões de dólares para apostar no que já deu certo um dia no cinema, sem qualquer tipo de “garantia” (eu sei, isso é muito relativo) que o sucesso de 30 anos trará algum odor para o presente. Mais: chama dois atores fracos para um projeto que poderia dar certo com um elenco carismático e um texto enxuto. Mal comparando, “A Hora do Rush” vinha exatamente com a mesma pegada: investir num sucesso da telona, cujo o formato não vinga mais entre a audiência. Se a NBC cancelou a série, não me surpreenderia que sua co-irmã faça o mesmo com “Máquina Mortífera”.

Há uma crise de criatividade muito maior do que em outros tempos, especialmente nos canais abertos americanos. Não deve ser em vão que muita gente esteja migrando para a Netflix – não apenas por todas as facilidades que o canal de streaming popularizou – mas pela qualidade quase inquestionável das suas produções. Até quando aposta em uma homenagem (“Stranger Things”), faz do jeito certo e conquista o planeta.

Por último: nem toda série precisa ser um arrebatamento como muitas são. Muitas vezes tudo o que a gente quer é sentar no sofá e parar de pensar alguns minutos, se divertir, dar umas risadas (ou mesmo chorar) sem fazer elucubrações muito profundas sobre o enredo, mas o que dizer de uma série que não te causa sensação alguma? Pois é.

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