The Good Place acumulou pontos positivos nessa primeira temporada e o season finale acabou sendo a cereja nesse bolo inesperado e impressionante. Para uma série que nasceu pequena mas conquistou pela criatividade, o capítulo final foi (no mínimo) um belo presente para quem acompanhou a jornada de Eleanor e seus amigos no “Lugar Bom”. Com um público que não estava familiarizado com o trabalho dos desconhecidos Jameela Jamil, Manny Jacinto e D’Arcy Carden os últimos episódios só reforçaram a capacidade deles em criar humor com veracidade e carisma. Já nos papéis principais Kristen Bell e Ted Danson entregaram personagens que dificilmente irão sair do imaginário de quem assistiu até aqui. E quando achei que a série já não poderia alcançar mais nenhum nível… vem aquele plot twist genial que na conclusão de cada episódio fez um nó na minha cabeça e tentar descrever cada pedacinho apresentado é tão prazeroso e desafiador que só me anima a comentar sobre.
Por trás de toda a arquitetura perfeita demais e das paisagens belas, The Good Place ainda resguardava um mistério invisível acerca de como funcionava esse “paraíso” e toda a infraestutura do lugar. No início a diversão restringiu em discutir a moralidade das regras presentes na vizinhança criada por Michael. Parte do humor gerado vinha da interação social ora artificial ora burlesca. Mas o que se revelou no final foi que todo esse teatro aparente era realmente um “teatro aparente” (o sarcasmo sendo inevitavelmente explicado com mais sarcasmo). O Lugar Bom na realidade é o Lugar Ruim, criado através da ideia de Michael em renovar as torturas pós-vida. Essa ideia persistia em colocar num só recinto 4 pessoas (Eleanor, Chidi, Jason & Tahani) para serem testadas nesse ambiente e provar para os superiores que a melhor tortura é a psicológica/social. Sem dúvida um dos melhores plot twists que já presenciei numa série de comédia e que dirá nesse ambiente em geral!

O interessante é que dois personagens foram colocados ali com a “mentira” sendo mascarada da verdade. Tahani por exemplo chegou ao Lugar Bom acreditando que realmente merecia fazer parte dali. Entretanto sua vida filantrópica era somente motivada pra se vingar dos pais e da irmã que cada vez mais alcançava um nível de bondade extraordinário. Chidi – que apesar de toda vida baseada na moral/ética humana como regra religiosa – se perdeu dentro de suas escolhas e com isso arruinou todas as oportunidades de criar uma relação saudável com as pessoas a sua volta. Eleanor e Jason eram literalmente as péssimas pessoas que seriam colocadas como suas alma-gêmeas para tentar desvirtuar ainda mais a situação do lugar e gerar toda essa tortura bagunçada. E foi o que aconteceu.
Na primeira parte do finale a corrida de Eleanor ganhou força e centrou basicamente na sua presença no “Lugar Médio”, onde vivia a (viciada) medíocre Mindy St. Claire. Esse plot serviu apenas para intensificar as incoerências das regras presentes naquele lugar e ajudou um pouco a Eleanor descobrir como tudo realmente funcionava. Acontece que a oportunidade foi perfeita para transformar a fuga numa espécie de acordo entre Eleanor e o Juiz, que solicitou o retorno dela e Jason em troca da eterna tortura dos amigos para o Lugar Ruim. Eleanor decide voltar. Confesso que até aqui a presença do Jason não era um incômodo, mas nesse episódio acabou explodindo toda a minha paciência com a imaturidade do personagem. Acho perfeito ter um personagem “burro” no meio de tanta irracionalidade e decência, o problema é que Jason (e talvez o ator que o interpreta) beira ao ridículo e não consegue criar um humor natural. Uma pena, pois a proposta do show em si é ótima, e seria excelente ter um personagem desse tipo realizando coisas um pouco mais leves.
Já na segunda parte tivemos Eleanor, Jason, Chidi Tahani (e até mesmo a real Eleanor) lutando para decidir quem iria para o Lugar Ruim e quem ficaria no Lugar Bom. Todos realizando um trabalho que teoricamente pertencia ao Juiz. Ou seja… Mais uma forma de tortura psicológica resultado da parceria de Michael e o Juiz.
Até que…
Eleanor descobre todo o esquema revelando o sorriso mais maligno e desdenhoso da história da televisão americana. Ted Danson manifestou a verdadeira face de Michael, o arquiteto que remodelou o Lugar Ruim e usou 4 pessoas de Cobaias para seu experimento social. Como é demonstrado nos flashbacks de Michael – que foi brilhantemente editado para nos enganar imaginando que o mesmo seria um grande idealizador amante da humanidade – o aspirante a arquiteto apenas teve a brilhante ideia de colocar 4 seres humanos regulares para se torturarem mutualmente através de seus defeitos e insegurança. Os melhores plot twists merecem uma revisão completa da temporada (como o que aconteceu com Westworld por exemplo), e acredito que aqui não será diferente. Provavelmente a ideia de rever a temporada com essa visão ampliada dos fatos deverá ser uma experiência bem interessante. Sem falar que tivemos um Vilão ao nosso lado durante esse tempo todo sem necessariamente se mostrar como um grande Vilão.

Por fim, The Good Place conseguiu fazer um backup de todos os acontecimentos através da habilidade de Michael em apagar as memórias dos personagens para testar tudo novamente. Acontece que Eleanor, apesar de ser a mais irreversível do quarteto, é também a mais esperta. Ela escreve um bilhete para ela própria com a esperança de ter alguma luz na próxima tentativa. Luz essa que se chama Chidi e sua capacidade em ajudá-la a ser uma pessoa melhor. Pronto. Ciclo fechado com sucesso! Eleanor no começo tinha subestimado o ensino do seu parceiro, sendo que agora essa habilidade é a única chance de sair o mais rápido possível daquele lugar. Chidi foi o que melhor definiu a jornada da nossa protagonista até aqui: “Ela mudou, trabalhou, estudou duro e se tornou melhor”.
The Good Place passou a ser muito mais do que uma série de comédia. O roteiro mostrou que estamos o tempo todo dentro dessa caverna, cegos com as nossas falhas, tentando viver uma mentira. Enquanto que ao nosso redor pessoas são luzes e passam a nos guiar por um caminho melhor, alegre e radiante. Já não seria a nossa vida uma mentira, sendo que a realidade provavelmente está mais próxima do que imaginamos?
> Desventuras em Série: Crítica!
What The Fork 1: Finalmente pudemos ver como Eleanor morreu! Já sabíamos pelo relato de Michael mas foi interessante iniciar o finale como esse “finale” da vida da protagonista. Ainda mais com toda a aquela edição e trilha sonora.
What The Fork 2: Ainda no flashback tivemos Tahani na capa de uma revista do supermercado.
What The Fork 3: Poderiam trocar o Jason por qualquer outra pessoa que não faria diferença. Personagem irritante!
What The Fork 4: Tivemos a Bad Janet nesse episódio e foi incrivelmente hilário! Queria mais tempo de tela. =/
What The Fork 5: E assim se encerra a primeira temporada de The Good Place. Obrigado a todos que acompanharam até aqui. Torcendo para a renovação. Caso contrário terei que me contentar de estar vivendo no Lugar Ruim esse tempo todo…















