Os porquês de Noah e Alison estarem juntos.
Eu não vou te resgatar de nada”
– Alison
The Affair conseguiu nesses dois episódios nos manipular em um jogo de gato e rato de forma quase impecável, lançando pistas insuficientes sobre o misterioso assassinato e construindo uma base incrivelmente sólida para o relacionamento de Noah e Alison. Qual é afinal o ponto dessa série? Um mistério nada inovador sobre quem matou quem no pequeno vilarejo de Montauk? Um estudo sobre relacionamentos extraconjugais?
A segunda opção é que carrega essas duas horas de The Affair, e todos os méritos vão para ela ao conseguir nos manter interessados num “simples” caso entre duas pessoas que se sentem aprisionadas dentro de sua própria família, ao ponto de acompanharmos um episódio dedicado inteiro ao passeio dos dois por Block Island sem nenhum vislumbre do restante dos personagens exceto pelas nada explicativas cenas do interrogatório.
Nesse bem aproveitado tempo a série desenvolve os motivos que afastam Noah e Alison de suas famílias e os fazem se aproximar cada vez mais. O processo, entretanto, é turbulento e por alguns momentos chega a ser cansativo de se assistir. Várias vezes eles brigam e reatam, um mais indeciso que o outro dependendo do ponto de vista através do qual observamos suas interações. Essas divergências, entretanto, não me parecem mais ocultações de verdades ou vergonha de admitir alguma coisa. A questão é que quando estamos acompanhando Alison temos uma visão muito mais abrangente do que passa pela sua cabeça, do porquê ela se envolveu com Noah, algo que ele nunca poderia compreender. O mesmo se aplica no caso contrário. No quarto episódio, principalmente, a mudança de perspectiva não é um criador de dúvidas. Ela serve como complemento, de forma que temos a pintura completa de um relacionamento ao observarmos o que Noah e Alison sentem sobre aquilo tudo. É uma forma tão completa e eficaz que ofusca muitos relacionamentos que já vimos na televisão, simplesmente porque eles apenas mostravam um lado da história.
O que Noah sente, então? Um desconforto familiar, principalmente. Seu sogro esnobe e orgulhoso, sua sogra encrenqueira, os quatro filhos que mesmo sendo amados pelo pai lhe dão uma sensação de sufocamento… Tudo contribui para sua enervação. Alison é uma passagem para fora dessa tempestade que só agora ele reconhece como tal, um oásis de tranquilidade no qual ele encontra abrigo e descanso. Por isso ele não pretende abandonar a esposa. Ela a ama, ama seus filhos, mas em certos momentos precisa apenas passar um dia longe daquilo tudo com alguém.
Entretanto, Alison não é o oásis que Noah acredita, como ela bem avisa. Na verdade, ambos se sentem presos em um ambiente familiar que os machuca e encontram no outro um alívio para essa tortura. Há uma parede de morte e pesar entre ela e seu marido, tão alta e impenetrável que até a tatuagem em suas costas a lembra do que aconteceu com o filho. Essa parede não existe com Noah. Ele não conviveu com esse processo, ele não olha para Alison e enxerga uma mãe enlutada.
O problema dessa fuga de si mesmo é que ela envolve outra pessoa. Noah deseja escapar para o oásis de Alison, mas um relacionamento nunca gira ao redor de apenas uma pessoa. Ambos se aproximam em busca de algo, mas colidem em suas incertezas e nas incertezas do outro. É apenas quando ela revela a raiz de seu problema que ambos parecem finalmente entrar em sintonia. O completo entendimento dos motivos pelo qual cada um está ali traindo seu cônjuge é o que finalmente traz paz para uma relação que até agora foi tão turbulenta. Com um toque elegante, essa sintonia é representada através do sexo. Na última cena do quarto episódio é que finalmente vemos um casal minimamente funcional, em total harmonia em seu entrelaçamento sexual.
É interessante notar que o funcionamento do episódio mudou: quando a segunda parte começa, não há um retorno ao começo para que possamos ver os mesmos acontecimentos com os olhos de outra pessoa. Simplesmente vamos em frente, como se as discrepâncias entre as duas histórias não fosse mais expressiva ou relevante. Obviamente, isso também se presta a um propósito mais funcional: eventualmente a dinâmica dos três primeiros episódios iria cansar.
E quanto ao crime em si? A teoria mais aceita por aí é que o irmão libidinoso de Cole foi a vítima. Ou mesmo o chefe de Alison, que no terceiro episódio se envolveu em uma briga por causa do “progresso” de Montauk (numa linha narrativa que considerei pouco interessante, já que não há nada de novo em vilarejos que tentam preservar suas raízes ancestrais). A questão é que Alison parece MUITO mais transtornada com o assunto do que Noah, considerando o modo como cada um deles saiu da sala de interrogatório e fez seu telefonema. Mais esquisito ainda é a discrepância entre o que o investigador conta em cada pedaço do quarto episódio: num deles ele é divorciado, no outro é casado há 25 anos e parece muito feliz com isso. The Affair construiu seu mistério sem pressa, e enquanto isso dá um show de dramaturgia. Eu estou dentro.
Outras observações importantes:
– Dominic West ou Ruth Wilson? Ambos são ótimos atores, mas o peso dramático que a atriz carrega com a morte do seu filho e a insegurança ao se aproximar de Noah conferem a ela, pelo menos para mim, uma atuação muito mais potente e emocionante.
– Se realmente for o irmão de Cole a vítima, que morra logo. Que tipo de idiota se envolve com uma menina de 16 anos? (Uma menina gatíssima de 16 anos, mas mesmo assim…)
– A plot do novo livro de Noah me deixou um tanto desapontado. Aparentemente ele conseguiu começar a escrever depois de ter se envolvido com Alison, o que é simplório e nada original. E a parte “ele a mata no final” é uma premonição extremamente brega.














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