Com Changing, Supergirl continua sua mensagem de aceitação e esperança, quer você seja gay, alienígena…

Estamos vivendo em um período de grande avanço. Na tecnologia, ciência, interações pessoais. A cada ano novos debates surgem, novas discussões são propostas e novas lutas começam. Grupos estão se unindo com cada vez mais força para combater conceitos danosos, por vezes mascarados de piada e liberdade de expressão. O que antes era considerado “engraçado” hoje é visto da maneira que realmente é. Entretanto mesmo dentro deste momento de esperança que está florescendo, com as minorias ganhando cada vez mais espaço e voz, ainda existem aqueles que mantém como principal missão o cerceamento da liberdade alheia. Poder acompanhar uma série como Supergirl atualmente é um enorme privilégio, especialmente pela maneira que ela aborda estes conceitos mencionados, mas sem nunca deixar de lado uma mensagem de que é possível melhorar.

Para um adulto gay ver como o discurso da Alex foi pensado é extremamente relacionável. Todo o medo, o bloqueio de memórias e comportamentos, tudo isso tem um espaço dentro do imaginário de alguém que, em algum momento, já se pegou pensando a respeito da própria sexualidade. A sensação e a noção de que aceitar a si mesmo é um processo bem mais complexo do que sair do armário para o mundo foi muito bem pontuado pelo maravilhoso texto de Andrew Kreisberg e Caitlin Parrish. E realmente, não é a mesma coisa. O processo mais complicado para um homem gay ou uma mulher lésbica, especialmente quando já não estamos mais na fase adolescente, é o de encarar a própria realidade, de frente. Sair do armário para o resto do mundo é opcional, para si mesmo é mandatório e obviamente muito mais difícil.

Chyler Leigh conseguiu pegar o roteiro e transformar cada atitude em cenas muito próximas do real. Changing pode parecer um episódio sobre um parasita alienígena, mas na verdade é a respeito da mudança interna de cada um. É apenas mais uma vez a série mostrando que consegue utilizar elementos da ficção cientifica para trabalhar temáticas do mundo real e com muita sensibilidade. E é tão emocionante. Vê-la quebrada, totalmente em negação de si mesma após sua primeira desilusão é algo tão relacionável, tão compreensível. O arrependimento por ter se abrido o desejo de voltar atrás, mesmo sabendo que não existe mais essa chance e que voltar seria um erro ainda maior, é tudo tão humano. A sensibilidade do episódio foi simplesmente tocante.

E o melhor de tudo, a relação entre as duas irmãs permanece como uma das joias mais preciosas da série. Kara, como alienígena, sabe muito bem o que significa ter que esconder uma parte de si mesma para se encaixar no que é considerado normal. Sua aceitação, os momentos de carinho divididos entre ela e a irmã, fazem pela produção algo que nenhuma outra produção do ramo já conseguiu fazer em termos de um relacionamento entre duas personagens femininas. Apenas sinto pena da próxima atriz que tiver nas mãos a missão de interpretar a Supergirl. Semanalmente Melissa Benoist está entregando uma vulnerabilidade e força tremendas. Amo quando ela coloca as mãos na cintura para demonstrar sua segurança e como ela consegue ser tão doce e emocional ao lado de Alex, assim como suas interações com Mon-El e a visão do que é ser uma heroína e ter uma missão nobre como algo natural. Tão natural que a única compreensão possível para ela, a respeito de alguém com poderes, é o de seguir o mesmo caminho.

Supergirl -- "Changing" -- Image SPG206b_0193 -- Pictured (L-R): Mehcad Brooks as James Olsen / Guardian, Chris Wood as Mike/Mon-El, and Melissa Benoist as Kara/Supergirl -- Photo: Bettina Strauss /The CW -- © 2016 The CW Network, LLC. All Rights Reserved
Supergirl — Changing

Do outro lado, mais uma vez, acompanhamos a fraca história de James Olsen, agora também conhecido pela alcunha de Guardião. Eu não sei exatamente qual o direcionamento Supergirl pretende para o personagem, mas uma coisa já ficou clara, existe uma falta de cuidado bem grande na hora de desenhar o futuro do primeiro parceiro do Superman. Ter o personagem desenvolvendo o desejo de ajudar pessoas é completamente compreensível, afinal, ele esteve ao lado do Superman, viu em primeira mão como um homem comum pode ser um super-herói, mas aqui, em Supergirl, seu direcionamento é extremamente apressado. Não existiu durante a primeira temporada nenhum desenvolvimento aprofundado que justificasse o desejo de colocar uma armadura e se tornar um vigilante. Existiu sim uma preparação bem grande para que Kara aceitasse sua função como heroína, tudo isso através de discursos como o de Human for a Day, proferido por James para uma Supergirl sem poderes. Lá, faria sentido. Aqui? Nem tanto.

Contudo confesso que é interessante vê-lo agindo como algo além de um interesse amoroso e o mesmo vale para Winn. Só que novamente a série peca com seus dois personagens ao encontrar histórias que simplesmente não se encaixam com o caminho traçado por cada um. Qual o motivo para retirar Winn da CatCo, colocá-lo no DEO apenas para fazer dele, mais uma vez, o cara que abandona o emprego que tem para ajudar um herói em ascensão? É necessário que o roteiro faça mais, mas mesmo assim é interessante ver a ótima química de Mehcad e Jeremy em tela, ambos tem um potencial bom para cenas mais cômicas e de amizade.

Changing é a prova definitiva de que as chamadas séries de super-heróis podem e devem ser mais do que apenas releituras de histórias em quadrinhos, cujo destaque é a ação e efeitos especiais. Por trás de cada página, da televisão, de uma grande tela de cinema, existem pessoas. De certa forma existe uma conexão que vai muito além do mero escape do mundo real. A necessidade de se conectar é bem grande e produções do gênero também podem convergir assuntos sérios e reais para sua audiência. Amo estar vivendo em uma época em que uma figura feminina é empoderada, em que meninas e meninos, homens e mulheres, independente da raça e orientação sexual, poderão enxergar a si mesmos dentro de um mundo de fantasia e ter a noção de que apesar de existirem muitos parasitas espalhados pelo mundo, ainda é possível encontrar algo bom. Supergirl continua me surpreendendo semanalmente e a mensagem que a série passa é o verdadeiro símbolo a ser seguido.

> O futuro da Marvel depois de Doutor Estranho!

Easter eggs e outras informações de Changing

– Winn e James se chamam de ‘Superamigos’. Superamigos é o nome da animação da DC em parceria com a Hanna-Barbera.

– Guardião foi criado por Jack Kirby e Joe Simon, em 1942, na revista Star-Spangled Comics #7. Durante os anos vários adotaram a alcunha de Guardião. O mais conhecido atende pelo nome de James Jacob ‘Jim’ Harper e é um clone de James Harper. Jim trabalhou ao lado de Superman e também como chefe de segurança do projeto Cadmus. Fazendo a conexão com a série, o debut de Jim foi em Superman’s Pal, Jimmy Olsen #135, de 1971.

– Existem três versões do Parasita na DC Comics. A primeira é a de Raymond Maxwell Jensen, criada por Jim Shooter e Al Plastino. Sua primeira aparição foi em Action Comics #340, em 1966. Raymond trabalhava em uma estação de pesquisas quando decidiu abrir um container, achando que lá existia algo valioso. Acontece que no recipiente existia lixo tóxico coletado pelo Superman durante suas viagens no espaço. A cada toque ele conseguia absorver memórias e poderes de suas vítimas.

– Também temos a de John Ostrander e Joe Brozowski, que atende pelo nome de Rudolph Jones. Seu debut foi em Firestorm #58, de 1987. Jones trabalhava como zelador no laboratório S.T.A.R. Manipulado por Darkseid, ‘Rudy’ abriu um recipiente e foi contaminado por uma estranha radiação, se tornando o Parasita.

– E por último a dos Novos 52, de Aaron Kuder. Joshua Michael Allen foi introduzido no reboot em Superman V3 #23.4 em 2013. Joshua trabalhava como entregador em Metropolis quando uma gripe alienígena o conferiu os poderes do Parasita.

– “Eu vou pegar o alienígena. Você a garota”.

– Alex chorando sua primeira desilusão amorosa pós compreensão da própria identidade sexual. Não chora, Alex. Você chora eu choro.

supergirl-2-06-img2

– Essas garotas Danvers adoram partir meu coração.

– Por outro lado, compreendo Maggie completamente. Geralmente a ideia é de que alguém na fase da Alex quer descobrir o mundo, beijar todas as bocas. A insegurança para começar algo sério é bem grande mesmo.

Artigo anteriorJane the Virgin 3×05: Chapter Forty-Nine
Próximo artigoThe Vampire Diaries 8×04: An Eternity of Misery