Supergirl impõe um clima mais sombrio para sua heroína.
Uma das características mais fortes de Supergirl como série é a sua capacidade de juntar diversos aspectos diferentes e inesperados e os condensar em uma excelente sucessão de eventos. Lentamente a produção tem ousado ir a lugares pouco comuns a uma produção adaptada de histórias em quadrinhos e atualmente sendo exibida em um canal da TV aberta. Existe um cuidado muito grande durante a construção de cenas, lutas e interações, que expandem o leque de opções para a própria série em curto e longo prazo. Desde o episódio em que um homem inocente foi sacrificado por Mawell Lord, Supergirl tem apresentado sinais de que ela pode ser sombria, quando quer e quando é adequado. Truth, Justice and the American Way é apenas mais um exemplo de que os roteiristas estão dispostos a explorar cada vez com maior força a psique de Kara Zor-El.
Indo completamente oposto ao episódio anterior, o que vemos neste décimo quarto não é uma Kara cercada de amigos e feliz da vida. Como já era esperado, Supergirl está muito mais sombria e fria. Esse comportamento é fruto de sua relação complicada com a tia, morta no episódio passado, além de sua reação para com o conceito de liberdade e justiça. Ver a Supergirl descontando sua frustração em Hank é compreensível, já que a própria força motriz da personagem sempre foi o de procurar um aspecto positivo em qualquer um de seus antagonistas. Durante seu embate com Bizarro a primeira constatação que ela fez foi quanto a inocência de uma garota manipulada por Lord. Dificilmente ela permaneceria impassível ao encarar uma oportunidade perdida. Para Kara existia a possibilidade de redenção para Astra. O que a Supergirl está esquecendo e talvez ela nunca tenha realmente se tocado, é a posição da tia como guerreira em primeiro lugar e membro da família depois. Mesmo assim eu acredito que com uma oportunidade maior a vilã atingiria sua redenção e se eu, como telespectador, consigo visualizar este caminho, imaginem uma garota órfã em um planeta que não é o seu?
As lutas neste episódio também demonstraram uma das melhores coisas existentes na série. Ela sabe lidar bem com o fato de termos uma mulher superpoderosa lutando com superpoderes. Diferente de Arrow em que as coreografias demonstram uma plasticidade muito grande, ou em Flash, em que raramente a ação excede as expectativas, Supergirl consegue traduzir bem o estilo da heroína em sequências totalmente competentes. Com certeza o peso de Lexi Alexander, diretora do episódio e mestre em artes marciais, influenciou o aspecto cinemático das lutas neste episódio. Mas este é um quesito que dificilmente Supergirl decepciona.
O mais interessante foi poder ver o vilão da temporada com uma missão mais clara do que apenas engordar a grade de episódios do ano. O Carcereiro impõe um tipo de comportamento relacionável com qualquer herói e qualquer série existente hoje. Quando você tem o poder, você cria as regras. É o Flash quem julga o vilão adequado para sua prisão secreta, negligenciando qualquer tratamento humano, afinal o bandido aqui não é considerado como tal. E de maneira similar funciona a quase esquecida prisão da ARGUS em Arrow. Claro que o impacto em Supergirl só existe porque o vilão foi reformado e compreendeu o erro de seu caminho, assim como Mawell Lord só ganha a liberdade porque existem provas contra ele e o fato dele ser biologicamente humano o garante um tratamento diferenciado. Contudo, a compreensão veio e até chegarmos neste ponto de convergência, Supergirl expôs bem sua posição dentro daquele mundo. E é por isso que o inimigo pesou positivamente para a série, apesar de não ter conexão direta com a trama geral da temporada.

Gostei bastante da importância dada ao James Olsen neste episódio. Eu ainda não consigo ver o ator como alguém que derruba a qualidade da série, como já li em alguns comentários. Ao contrário, vejo que ele é extremamente importante para o desenvolvimento da Supergirl, e neste quesito ele cumpre bem o seu papel de existir apenas para impulsionar a história da protagonista. É um padrão que ocorre em diversas produções com homens na liderança, onde a mulher existe apenas para motivar o homem principal. Sua atitude de agir como a voz da consciência da Supergirl e de vê-lo desenvolvendo um relacionamento maior com Cat Grant se tornaram ótimos momentos para o episódio e que acrescentam muito para a série. Já o seu desejo de contar o segredo da Kara para Lucy… not so much. A decisão não é dele e por mais que isso esteja o prejudicando com Lucy, como amigo ele deveria procurar outra forma de despertar a confiança de sua noiva. Pressionar a amiga para revelar o segredo que ela nunca o confiou é ser um pouco babaca, ou muito, depende do ponto de vista.
Desprezando este momento defeituoso do James e analisando a cena dentro do armazém de armas do DEO, em que ele e a Supergirl conversam a respeito do conceito de justiça e medo, esta é uma ótima forma de estudar o quão distante Kara está se tornando. Existe também na montagem da cena uma luz posicionada em James, ao passo que a heroína está envolta em escuridão. Gosto de ver a construção de momentos como este em que o texto, além de competente, é auxiliado pela própria criação do cenário e iluminação. É basicamente o papel de cada um, com Olsen agindo como a voz da razão e vencendo o discurso. Também é um ótimo exemplo de como está a mente da heroína e para onde todos a sua volta a estão empurrando.
Existe um problema recorrente com a série e já toquei neste assunto anteriormente. A condução dos vilões é, no mínimo, apressada demais. Isso quando não se torna negligenciada em detrimento de outro antagonista da semana. Non não é e nunca será o tipo carismático de vilão de temporada, completamente o oposto de Astra, por exemplo. Por isso, vê-lo não surtiu o mesmo efeito que teria se no lugar do viúvo inexpressivo, tivesse surgido qualquer outro na sala da Kara. A desculpa de duas semanas de luto de acordo com as tradições kriptonianas é a exposição do roteiro para um problema não secreto. Enquanto trata de suas tramas semanais, Supergirl esquece como se trabalhar com o antagonista. O mesmo vale para Maxwell Lord.
Este é o primeiro episódio elaborado após a encomenda de uma temporada completa para a série. Um marco que delimita o caminho que seguiremos até a derradeira conclusão deste ano de estreia de Supergirl. Por enquanto o caminho permanece extremamente válido e o saldo mais do que positivo. Não aprovei muito a entrada de Siobhan e seu ar clichê, mas entendo que às vezes é até bom ter uma antagonista que segue os moldes clássicos de uma história em quadrinhos. Enquanto a série permanecer com seu estilo ousado e competente, não terei reclamações. Para coroar tudo, só um vilão de presença, mas ainda temos um pouco de tempo e talvez Myriad cumpra esse requisito.
Easter eggs e outras informações
– A diretora deste episódio, Lexi Alexander, não é nenhuma novata no mundo das adaptações de histórias em quadrinhos. Alexander já dirigiu o quarto episódio da atual temporada de Arrow e o filme Justiceiro – Zona de Guerra.
– Outra pessoa com conexão ao mundo de heróis da DC CW é a atriz Italia Ricci, casada com o ator Robbie Amell.
– Em determinado momento Jimmy fala sobre “justice is absolute”. Existem duas obras baseadas em personagens da DC Comics com o lema ‘Absolute Justice’. Uma é a HQ escrita por Alex Ross, de 2009 e outra é o episódio duplo, de mesmo nome, na nona temporada de Smallville.
– Durante a cena do funeral da Astra é mencionado o nome Rao. Rao é o nome do sol vermelho de Krypton e também da divindade soberana dos kryptoníanos.
– Enquanto discutiam sobre a possível identidade do assassino de prisioneiros Alex mencionou a possibilidade de um caçador de recompensas vindo do espaço, enquanto Hank complementou falando sobre “ele”. Um dos caçadores de recompensa mais famoso da DC Comics é o anti-herói Lobo, que recebeu uma nova versão durante a ‘Os Novos 52’. Nesta versão repaginada o antagonista lutou contra a Supergirl em: Supergirl número #26.
– Também foi feito o comentário a respeito um prisioneiro com guelras e levando em consideração a quantidade de menções a Atlantis em The Flash, essa poderia ser mais uma ao mundo subaquático do Aquaman – que na Terra-2 não é submerso (vai entender).
– Supergirl falou sobre máscaras em outra cidade. Começa o bolão: Qual cidade e qual mascarado? Dificilmente é Flash, já que ninguém nunca comentou a respeito da presença de alienígenas na série do Corredor Escarlate.
– O Carcereiro teve sua primeira aparição em Superman #331, de 1979. O personagem é responsável pela criação de um presídio desenvolvido para deter supercriminosos. Porém, desde a adolescência ele desenvolveu um ódio muito grande pelo Superman, que sempre aparecia para colher os frutos de seu trabalho. Draper desenvolveu a prisão, mas Superman decidiu movê-la para o espaço, chamando a atenção da imprensa que nomeou o lugar: Prisão do Superman. Após mais um 7×1 Carl Draper decidiu assumir a alcunha de Carcereiro e montou várias armadilhas para o Superman, chegando a sequestrar Lana Lang. Ele terminou preso em sua própria criação. No pós crise Carl é um funcionário contratado do laboratório S.T.A.R.















