Todo clima de season finale em mais um forte episódio de Supergirl.

Para os desavisados este realmente era para ter sido o último episódio da primeira temporada de Supergirl. Ou pelo menos ele havia sido pensado como tal antes da CBS encomendar mais episódios para o debut de Kara Zor-El na televisão. Por esse exato motivo For the Girl Who Has Everything foi cheio de surpresas. Como adaptação da obra de Moore vários deslizes foram cometidos pela equipe da série, mas como um gancho para a reta final de episódios julgo que o resultado foi muito competente. Em mais uma ótima sequência para a série e com um destaque especial para Alex, apertamos na reta final até a conclusão da primeira temporada de Supergirl.

For the man Who has everything, história criada por Alan Moore para o Superman, a imersão é bem mais complexa e carregada. A HQ é uma verdadeira viagem dentro da mente de Clark Kent, uma que aprofunda e muito a vida do herói, além de misturar aspectos e anseios de seu eu “humano” com a fantasia criada em Krypton. Infelizmente a de Supergirl foi um pouco mais rasa e não fez justiça ao material de origem. Aquele mundo perfeito não chegou a criar o impacto necessário. Talvez pelo orçamento mais apertado e dedicado para cenas de ação e efeitos especiais do Caçador de Marte, ou pela necessidade de apresentar aquela que deveria ser a conclusão de toda a temporada, amarrando a trama de Astra e do DEO com o restante dos personagens.

Eu havia comentado na review anterior que não existe nenhum problema em pegar histórias criadas para o Superman e ter a adaptação na série da Supergirl. Contudo, eu não estava contando com uma abordagem tão limitada assim. Existirão sempre aspectos positivos e negativos dentro de cada interpretação, mas dividir o foco entre alucinação e a luta contra Astra e Non quebrou muito do que poderia ter sido uma verdadeira dimensão paralela da vida da Kara na Terra. O potencial para criar uma mudança brusca na personalidade de todos aqueles personagens kryptonianos era imenso. Infelizmente ficamos limitados a algumas cenas incompletas em que nada realmente foi além do esperado. Este é um defeito aparentemente dominante em quase todas as produções de heróis. A vida privada recebe pouca atenção, exceto quando o vilão da temporada demanda tal linha de pensamento.

A trama da alucinação misturada com a realidade não é novidade nenhuma no mundo das séries. Este artifício já foi utilizado em Star Trek, Smallville e até Buffy a Caça Vampiros, no episódio intitulado Normal Again. O problema com a versão de Supergirl é não ter nada novo, nada que termine o conflito com a possibilidade de que a fantasia seja a realidade, ou alguma marca mais forte na psique de Kara. Teria sido muito mais interessante, por exemplo, se os personagens da Terra tivessem ganhado uma contraparte em Krypton, como foi com a animação em que os dois amores do Clark, Lois e Lana, viraram Loana. No quesito mundo perfeito em que nada é questionado a planta black mercy foi bem misericordiosa.

Saindo do espectro da comparação entre o que a série poderia ter feito e o que ela realmente fez, existiu sim uma força muito grande neste décimo terceiro episódio da série. Muito pode ser atribuído ao fato de que a equipe julgava estar escrevendo o último episódio da temporada e não mais um. No entanto não é a posição, ou o que este seria em um futuro alternativo em que a CBS não encomendou mais episódios para série, mas sim o avanço na trama e aprofundamento de mais uma personagem dentro de Supergirl.

Já ficou mais do que óbvio que esta série é uma produção sobre mulheres e como elas funcionam em um mundo de empoderamento. Um lugar em que heroínas são protagonistas e não coadjuvantes. Nesta construção não existe espaço para o drama de homens, pelo menos não de forma definitiva, ou que retire o destaque de Kara, Alex e Cat. Tivemos sim um belo episódio dedicado para a história de J’onn, além de certo envolvimento com a história de Winn, mas foram, novamente, para servir de base para os problemas da heroína. Alex é então a escolhida do momento para demonstrar do que Chyler Leigh realmente é capaz. Para quem acompanhou Greys Anatomy não é segredo nenhum ter a atriz demonstrando um alto controle de sua atuação. Para aqueles que só conhecem a atriz através de seu papel como Alex, é um deleite poder acompanhar tamanha fragilidade e sentimento vindos de uma mulher muito competente. Todo o envolvimento da atriz com o roteiro é o casamento perfeito entre uma boa escrita e uma boa atuação. Ocasionalmente acompanhamos séries que possuem atores bem mais fortes e terminam por segurar o texto. Não foi o caso e não é o caso de Supergirl, em que sua equipe acompanha perfeitamente aquilo que o texto quer passar, até para o James.

O que é mais importante notar é que Kara jamais irá renegar a irmã por causa da morte da tia, especialmente em uma situação de vida ou morte para outro personagem importante para a nossa protagonista. Ao contrário, Kara perdoaria e perdoará a irmã rapidamente. O destaque fica para a história da Alex que vem tomando um caminho mais sombrio desde o primeiro episódio. Eu já havia chamado a atenção para este detalhe e parece que a série está empenhada em dar um nível mais complexo para a primogênita do clã Danvers. Enquanto Kara é uma heroína, Alex é uma soldada – Hank não poderia ter sido mais correto em sua afirmação.

A morte de Astra traz um tipo de abordagem que eu não queria ver na série – ainda não quero. Non não compete nenhum tipo de envolvimento, ele é, para todos os efeitos, apenas mais um kryptoniano dentro da história de dominação do mundo. Astra possuía o envolvimento sentimental e direto com a protagonista, algo que elevaria e muito o peso da dramaticidade de sua morte se ela tivesse vindo através das mãos da Supergirl. Porém, após o gigante backslash sofrido em Homem de Aço, dificilmente teremos o símbolo de esperança da casa El sendo deturpado a este ponto. Não tem como negar que Astra fará muita falta, afinal, ela era mais uma parte desse panorama tão rico de personagens femininas com os mais diversos objetivos. Non not so much!

Com uma morte de um personagem importante para a trama antes do final de sua temporada Supergirl balança novamente o seu status quo e eleva o potencial para os futuros episódios. De maneira geral eu considero For the Girl Who Has Everything em média com o que a série já vinha apresentando. Talvez pela antecipação com a trama de uma alucinação de uma fantasia perfeita eu não tenha aproveitado tanto quanto imaginei, mas pela quantidade de surpresas, por ter assistido Alex dominando a cena e pelas sequências de Melissa Benoist interpretando J’onn J’onz se passando por Kara, eu fico sem qualquer abertura para reclamações. Em determinados momentos a série pode até perder um pouco do ritmo, mas de maneira alguma ela perde o brilho de uma produção extremamente competente em sua proposta: A de ser a série definitiva do que um super-herói realmente deve ser, um exemplo.

Easter eggs e outras informações

– Black Mercy é uma planta que se aloja na parte do cérebro destinada ao prazer, criando alucinações com o objetivo de aumentar a sensação de contentamento. Conforme o hospedeiro percebe a falsidade do mundo criado pela planta ela perde seu controle. Sua primeira aparição foi em Superman Annual #11.

– Outros personagens da DC já sofreram os efeitos da Black Mercy, entre eles Bruce Wayne, Oliver Queen, Hal Jordan e Clark Kent. Abaixo o mundo de fantasia de cada um destes personagens:

– Bruce Wayne (Batman): Em seu sonho seus pais não foram assassinados. Bruce cresceu e casou-se com Kathy Kane, com quem tem uma filha.

– Clark Kent (Superman): A previsão de Jor-El estava errada e Krypton nunca explodiu. Nessa realidade Kal-El é casado com Loana e possui dois filhos. Nem tudo é perfeito e Krypton está passando por um momento de instabilidade política. A prima do Clark, dezesseis anos mais velha do que ele, é atacada por protestantes contra a Zona Fantasma.

– Hal Jordan (Lanterna Verde): A família de Hal nunca morreu e todos vivem felizes. Hal continua como Lanterna Verde e Sinestro não é seu inimigo, mas sim amigo e mentor.

– Oliver Queen (Arqueiro Verde): Oliver é casado com Sandra Hawke e mantém uma ótima relação com seu filho, Connor Hawke. Ele tem outros filhos e sua identidade como Arqueiro Verde é de conhecimento público.

– Kelex – o simpático robô que recebe Kara em sua alucinação – é parte da criação de John Byrne para os anos 80 e também conseguiu uma versão em Homem de Aço.

– Existe uma Myriad na nona arte, mas dificilmente conectada diretamente a série Supergirl. Lá ela foi uma mulher assassinada por Lex Luthor que voltou a vida após contato com uma raça alienígena. Quando voltou, Myriad perdeu completamente a memória e podia copiar traços da personalidade de outras pessoas ao tocá-las.

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