Riverdale mostra definitivamente ao que veio com Body Double.
Após um segundo episódio que intrincava ainda mais as relações dos personagens e abordava suas psiques, temos agora um panorama geral da frágil construção social de uma cidade embasada em aparências. Riverdale trouxe, essa semana, temas maiores que devem ser debatidos sempre, afinal, a discussão é que leva a reflexão e a reflexão traz a mudança.
Body Double se inicia do exato ponto onde parou: Cheryl se declarando culpada. Mas não exatamente do que imaginávamos. Os minutos iniciais do episódio trazem clareza para as palavras da ruiva após o surto na frente de toda a cidade: Jason tinha um plano, a irmã concordou com isso. Trazemos novamente aqui o ponto de que Cheryl, talvez, seja a personagem mais frágil de toda a série, acreditando em um mundo de sonhos enquanto posa como alguém indestrutível. A realidade é que ela não sabe lidar com a vida desconstruindo o castelo dela, tirando-lhe tudo o que é conhecido e seguro, e isso intensifica suas más ações em prol da autodefesa. #PalmasLentas para os roteiristas por pensarem em uma personagem com tantas camadas emocionais implícitas no texto, há muito tempo não encontrava algo do tipo em uma série adolescente.
Ainda sobre o homicídio do garoto de ouro de Riverdale, tivemos Archie mostrando que é o pior mentiroso da face do planeta ao corroborar sobre o tiro disparado e deixar de fora que Srta. Grundy estava por lá com ele (abro aqui um parêntese para dizer que Sarah Habel precisa logo de tempo de cena para se justificar, a personagem tem um argumento bem forte e interessante e, na interpretação da atriz, a cada nova cena, soa forçada demais; queremos seu lado sombrio, e queremos logo!). Tivemos também um vislumbre dos pais dos gêmeos Blossom e da confusão que se passa com os dois, ao ver sua vida sendo completamente dizimada pela morte do filho.
Alice Cooper teve sua cota diária de terrorismo com a filha e aqui preciso dizer o como a personagem é bem construída também. Cada vez mais a personalidade dela fica clara e suas atitudes fazem mais sentido. Alice foi a garota que sofria bullying no colégio, foi a garotinha desprezada pelas cheerleaders, foi a garota invejosa da turma, a garota que desejava mais do que viver na cidadezinha a beira do lago Sweetwater e que não conseguiu. O que a personagem não percebe é que se tornou tudo aquilo que desprezava quando adulta. Que toda a mágoa e ressentimento de suas colegas de classe foram transferidos para a criação de suas filhas. Temos Betty como prova, acredito que não era muito diferente com Polly. Em todo caso, não é justificável a forma como ela age e, felizmente, ela recebeu o que vinha merecendo nos últimos dois episódios diretamente das mãos de Penelope Blossom. Descobrimos em Body Double que ela é a dona do jornal da cidade.

Dito isso sobre o assassinato, podemos falar sobre os problemas sociais que assolam a cidade como um todo. Body Double foi afiado ao apontar e cutucar feridas incomodas do cotidiano da sociedade. Ao tratar de assuntos como bullying, slut-shaming, feminismo, vingança, preconceito, objetificação da mulher e empoderamento feminino, a série mostrou que pode sim lidar com temas mais pesados para uma sociedade que, cada vez mais, deseja enterrar discussões importantes.
Verônica saiu com um rapaz, tudo certo e tudo lindo… para, logo em seguida ser vitima de um slut-shaming, que abriu um precedente para vermos a real face da cidade perfeita. O sujeito em questão? Filho do treinador e professor da Riverdale High. Novo menino de ouro depois da morte de Jason. Quase um dos Kennedy, como bem definiu Kevin em certa altura do episódio.
Tivemos então a primeira cutucada: usar de cyber bullying com a recém-chegada, marcando-a com calda de caramelo, muito usada para comer panquecas nas lanchonetes americanas e propondo que aquilo se trata de uma ‘medalha de honra’. Não é necessária uma analogia mais clara.
Verônica colocou o rapaz contra a parede? Sim, esquentada como é, não era de se esperar menos, entretanto, não surtiu efeito. A banalização de chamar uma mulher de vadia ou vagabunda mostra como nossa sociedade é conivente como o machismo, em como as pessoas não se dão ao trabalho de notar que ações como essa marcam pessoas pelo resto da vida. Que não se trata apenas de uma brincadeira.
Ao discutir a importância do bullying, traçamos um paralelo e vemos que, o resultado de ações como a dos Bulldogs de Riverdale High resultam em pessoas como Alice Cooper, que a banalização de sentimentos pode acarretar problemas de confiança e criação futuramente quando ultrapassam o limite de cada um. É um ciclo pejorativo que corrompe as pessoas.
Voltando ao caso de Verônica Lodge, quando a garota parece sem idéias surge Betty. E vemos que a loirinha se mostra cada vez mais a protagonista da história. Pelo segundo episódio seguido Betty teve mais tempo de tela, maior desenvolvimento e um arco narrativo melhor que os outros personagens. A faceta perigosa, a necessidade de se provar para si mesma enquanto tenta lidar com seus problemas de confiança estão tornando Betty uma pessoa um tanto instável, principalmente porque, cada vez mais, ela parece não saber quem é. O perigo da garota se perder dentro de si mesma e ser consumida pelos sentimentos que reprime estão, cada vez mais, dando sinais claros. Todo o plano para a confissão sair da mente diabólica por trás da face angelical da garota torna-a cada vez mais interessante, principalmente quando está vindo um surto. No mais, Verônica ter notado isso já mostra que teremos um plot a ser desenvolvido sobre o assunto.
Não acredito que se trata de dupla personalidade, acredito que seja mais um distúrbio psicológico que veremos daqui para frente.

Esse plot do slut-shaming de Verônica também trouxe um forte discurso da mesma contra Cheryl, com sua mania de chamar as garotas de vadia desde o primeiro episódio. Aqui temos a base de discussão de que garotas são tratadas da forma desrespeitosa por alguns rapazes pois elas mesmas se tratam de forma desrespeitosa, o que se torna um convite para que façam o mesmo. Muito bem feito colocar isso em voga, afinal, quem nunca viu a competitividade excessiva que algumas garotas têm entre si?
O ‘livro do arraso’ feito pelos rapazes do time de futebol foi outro tapa na cara de Cheryl e um gatilho para a insanidade de Betty. A primeira que acreditava piamente no irmão perfeito e a segunda ao perceber que a irmã tinha muito mais segredos. Além disso, vimos como as garotas eram classificadas, como se fossem nada, como meras peças, desde “a menina gorda” até “a garota nova”. Essa objetificação é tão enraizada em nossos costumes que não percebemos e, trazer isso para um público adolescente é um acerto sem tamanho da produção, é um alerta de como não tratar um ser humano.
A resolução do plot por meio de uma vingança pessoal soa como um alerta para as autoridades. Duas vezes no episódio temos Ethel Muggs apontando que foram feitas denuncias sobre as práticas dos rapazes do time de futebol e que o diretor Watherbee nada fez sobre o assunto. Essa foi a deixa para a participação especial da atriz Shannon Purser, que outrora fez Barb (aquela que foi esquecida no churrasco do Mundo Invertido) na série Stranger Things.

Tivemos também um pouco mais das Pussycats e da persona que é Josie. Temos nela uma Cheryl 2.0, cheia de si, com prepotência na mesma medida do talento e, aparentemente, um histórico de intimidação das companheiras de banda. Ela manda e isso é claro com a luz do sol. Vimos também a faceta de Riverdale sobre a diversidade, de como é difícil ser uma garota negra em uma cidade interiorana dominada por homens, em sua maioria, brancos. Vimos como a mesma é relutante com Archie pelo fato de que ele é a maioria absoluta e bem aceita e vimos também que a garota e a mãe enfrentam o preconceito dia após dia, mesmo com ela sendo eleita prefeita da cidade.
A última discussão que Riverdale trouxe está ligada a intolerância, mesmo que não tenha sido plenamente desenvolvido, temos uma pontinha sobre o porte de armas nos Estados Unidos da América. O tiro dado nas primeiras horas da manhã na floresta foi disparado por Dilton Doiley, chefe dos Escoteiros de Aventura, o que encontrou Cheryl sentada na pedra. Ao longo de Body Double vimos como o rapaz e psicologicamente abalado, seja em uma cena onde está claramente bêbado e mostra-se relutante com um ‘eles’ não especificado, seja em sua agressividade contida, seja convencendo os outros de que se não se protegerem sozinhas, ninguém o fará por elas. Isso soa familiar a certo discurso extremista e protecionista que vemos todos os dias nos jornais…
Quais consequências horríveis a mudança no esquema hierárquico da Riverdale High pode trazer para a cidade e para o convívio social? O que um esquadrão de valentões do time de futebol americano podem fazer? Teorias?
Riverdale entregou seu melhor episódio e segue numa curva ascendente de qualidade narrativa, assim como em seus números (que aumentaram entre o episódio 2 e 3). Vamos ver o que nos aguarda em Chapter Four: The Last Picture Show.
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Segredos a beira do Rio Sweetwater em Body Double:
– #Berônica is real, já foi até canonizado o shipp.
– O #JusticeforEthel foi a roteirista brincando com o #JusticeforBarb que bombou no twitter.
– Fico tão feliz em ver a série com uma unidade visual forte, definindo bem os personagens até por suas vestimentas. Essa conversa entre direção de arte e fotografia faz tudo saltas aos olhos ao associar determinados tons de cor aos personagens.
– Capitão América fica feliz ao ver a referência a Twin Peaks na narração de Jug. Para quem não sabe, Twin Peaks tem um filme além de suas duas temporadas. O subtítulo do mesmo é Fire Walk With Me (Caminhe comigo no fogo).
– Falando em Jug, é bom vê-lo se envolver mais com os demais personagens que não apenas Archie. Proatividade é o que há, mesmo que a interpretação de Cole Sprouse seja infantil e caricata.
– O precedente para descobrirmos sobre Srta. Grundy foi aberto e o caso começa a se desdobrar cada vez mais agora que temos uma testemunha, além de Archie, que coloca o carro da mesma na cena do crime.
– Não tivemos triângulo amoroso nesse episódio e isso me deixa feliz demais. Continue assim, ninguém precisa morrer de amor do Archie.
– Por falar nisso, a seqüência da peruca de Betty em destaque com a fotografia dela e Archie no fundo nos dão pistas que vem mais da versão dark da loirinha.















