Carrie e Big Boo. Quem é a personagem fantasiada e quem é o ser humano real?

A principal riqueza da dramaturgia é sua capacidade de, com o mesmíssimo material, atingir de maneiras tão diferentes as pessoas com quem entra em contato. Isso acontece, claro, porque temos bagagem, temos toda uma vivência anterior à experiência de assistir algo que faz com que esse contato gere diferentes interpretações e diferentes tipos de impacto.

Finger in the Dyke – cuja “tradução” oficial para o português gerou o título “A caminho da redenção”, mas que na minha cabeça é “Dedo na Sapatão” e pronto – tem sua origem na historinha do menino que vê um vazamento no dique e tenta tapar com o dedo, contendo o vazamento em curto prazo, mas não compreendendo o real problema. Put a/one/the finger in the dyke é, portanto, uma expressão em inglês com correspondência próxima ao nosso “tapar o sol com a peneira”.

O episódio foi com tranquilidade um dos que mais me impactaram em toda a série, e é um sério candidato ao meu preferido de Orange Is The New Black (pau a pau com o da galinha, que eu não consigo parar de repetir que amo como se não houvesse amanhã). Tudo isso graças ao enorme carisma de Lea DeLaria, que, com o apoio de um excelente roteiro, empresta sua alma a Big Boo ao longo de todo o episódio.

Ainda que em fases diferentes, os flashbacks de Boo – ou melhor, de Carrie – estão sempre associados a um conceito central: a recusa da personagem de se entregar à autodepreciação que todos à sua volta insistem que ela tem a obrigação de sentir. Seu pai pede para que ela se vista de menininha para agradar a mãe “só hoje”. Sua peguete se mostra incomodada com o fato de ela ser um estereótipo de sapatão machona ambulante. Sua mãe supostamente prefere morrer sem vê-la a contemplá-la novamente vestida como hominho em seu leito de morte. E, no presente, um arrogantíssimo pastor vem com o nariz lá em cima dar a lição de como pessoas como ela necessitam sentir vergonha e ódio por si mesmas para tentar “alcançar o paraíso”.

Porém, nada disso realmente derruba as convicções de Big Boo, o que a eleva à personagem mais digna de admiração aos meus olhos (ok, ainda perde por pouco pra Poussey). Carrie decidiu que não deve explicações por ser quem ela é, e que não interessa se ela cair em todos os milhões de estereótipos negativos que nossa cultura homofóbica padronizou para as lésbicas. A verdade é que Big Boo está muito longe de ser uma fantasia que Carrie simplesmente decidiu vestir, como seu pai passou a vida inteira dizendo. Muito pelo contrário: se existe uma fantasia, essa fantasia é Carrie, a filha que cedia e ia à escola de vestido para agradar à mãe.

A teoria preconceituosa daquele pai de que “nenhum de nós tem o privilégio de ser ele mesmo o tempo todo” seria perfeita, e é perfeita na cabeça daqueles que não desprendem esforço para compreender o mundo que os cerca, ao ponto de chamarem a aceitação da homossexualidade de “privilégio”. Não dá pra dizer que ele não tem razão ao afirmar que pouquíssima gente gosta de vestir terno e gravata todos os dias para ir trabalhar. O erro desse pai, porém, é menosprezar o clamor por aceitação da filha ao ponto de achar que essa comparação é aceitável.

Um gay que finge ser quem não é veste, sim, seu terno e sua gravata metafóricos para ir trabalhar – e pode ser que prefira vesti-los porque sabe que homossexuais notórios tendem à estagnação em carreiras corporativas porque são preteridos em promoções para cargos mais altos -, mas o que ele não tem é a prerrogativa de poder retirar esse terno e essa gravata quando chega e casa e convive com a família. O que os pais de Carrie exigiam dela não era passar 8 ou 9 horas por dia de terno e gravata. Era passar os dias, as noites, as madrugadas. Era dormir de terno e gravata, de sapato, acordar com a vestimenta, tirar para o banho e vesti-la novamente. É arriscar sair com uma roupa mais casual de vez em quando, mas deixar o terno e a gravata sempre na mala pra vestir correndo sempre que for necessário se esconder. E o fato de ninguém ter o “prívilégio” de ser quem é 24 horas por dia não dá às pessoas o direito de exigir que outros abram mão totalmente da própria individualidade pelas mesmas 24 horas diárias.

Aceitação é exatamente isso. É dizer “do meu lado, você pode tirar o terno e a gravata. Do meu lado, você pode se sentir confortável e seguro.” E foi por ter passado a vida inteira sem ouvir isso que Big Boo optou por afastar-se de todos aqueles que ela amava. A série não nos dá material suficiente para afirmações mais específicas, mas por que não especular que a aceitação poderia ter impedido Carrie de seguir para a vida do crime? Ao meu ver, é bastante realista acreditar nisso.

Depois de ver tudo por que essa mulher passou, cortou o meu coração ter que assistir-lhe submetendo-se às desprezíveis afirmações do pastor por um punhado de grana semanal. Mas o mais agradável desse processo foi o orgulho que senti ao ver o sangue da personagem fervendo aos poucos na mesma medida em que o meu, do outro lado da tela, fervia por certos disparates que o velho ia dizendo.

E, por menos recomendável que seja citar Coríntios 69 e dizer que Jesus era bicha porque disse “eis o meu corpo” aos apóstolos sempre que se deparar com alguém com preconceitos oriundos de religião, não se pode censurar a atitude agressiva de Big Boo. Essa é a defesa de quem passa a vida inteira sendo atacado nessa mesma medida (ou pior). Esse erro, ainda que incômodo e barulhento, não é nada menos que a consequência das feridas abertas por pessoas que usam a religião e suas histórias e imagens para incitar o ódio e marginalizar socialmente um grupo específico por conta de absolutamente nada. Condenar a reação, como a peguete de Boo fez na rua, é fácil. Difícil é ter sabedoria e civilidade para analisar o cenário completo e parar as ações que a geraram.

O melhor mesmo é ver na prisão de Litchfield uma amizade maravilhosa se tornando cada vez mais sólida, ao ponto de Pennsy dizer “ainda estou pegando dinheiro dos filhos da puta”. Porque, sim, tem gente que merece, mesmo. Observação: qualquer semelhança com um ou outro notório pastor brasileiro é mera coincidência, não só pela diferença entre o nível de agressões verbais proferidas por aqui como também porque no Brasil esse negócio de dar dinheiro pra pecador é fora de moda, aqui o negócio é cobrar o dízimo mesmo.

Ainda que a reflexão sobre Big Boo nesse maravilhoso episódio tenha roubado praticamente todo o meu espaço da review, preciso falar brevemente sobre dois outros assuntos, sendo o primeiro deles a situação de Piper e Alex, que pra mim já está começando a cansar. Como a série decidiu que não é mais sobre Piper e que a personagem não é mais nossos olhos e nossa representação dentro da prisão de Litchfield, a ex-protagonista perdeu completamente a função dentro da série, e acaba sobrando um pouco em meio a tantas boas histórias. Somemos a isso o fato de a mulher ter resolvido sair do armário para a família justamente num episódio com uma história sobre homossexualidade do calibre da de Carrie e fica fácil concluir que a saída do armário de Piper desapareceu completamente no meio de tudo isso. Ainda foi uma cena relativamente boa, mas perdeu totalmente o impacto na comparação.

Quem continua valendo a pena é nosso caríssimo Caputo e sua luta para vender a prisão e, assim, salvá-la de ser fechada. Todas as outras histórias eram permeadas pelo passeio turístico dos visitantes, e foi divertido ver os apertos que o personagem passou para tentar impressionar a todos – incluindo aí um velho com as mesmíssimas perguntas e observações misóginas (subtraindo o narcisismo, claro) que Rafael Cortez usou em sua famigerada entrevista que quase fez Natasha Lyonne (ídola!) voar pra cima dele.

No fim das contas, a prisão acaba sendo vendida, e essa possivelmente será a nossa espinha dorsal da temporada, cuja definição eu vinha aguardando. Afinal, o que muda com isso? Como a privatização afetará as detentas e os funcionários da prisão? Não faço ideia, mas mal posso esperar pra ver.

Observações:

– Todo o meu amor e respeito pela ousadia da cena da cueca com dildo. Adorei.

– Ver a relação de Gloria com a família é lindo. Poesia pura, ainda que muito triste. Perder o controle da criação dos próprios filhos e vê-los entregues ao mesmo sistema que te colocou na cadeia é só mais um entre milhares de malefícios de estar na prisão.

– Não deixa de ser interessante ver Crazy Eyes, Taystee e Poussey lidando, cada uma à sua maneira, com a morte de Vee. Foi bacana e era importante, mas já deu. Está na hora de a terceira temporada chegar para o núcleo negro.

– Que Bennett é um cagão a gente está cansado de saber, mas essa coisa de tentar vender que ele fugiu e não volta também já deu, né? Tá na hora de acabar com esse primeiro de abril.

– Que me desculpem os shippers (e eu me choco em saber que eles existem), mas Red é e sempre será muita areia para o caminhãozinho de Healy, e me incomoda a direção em que esse dois estão seguindo. Não aprendemos nada com arcos de romance entre uma presa e um carcereiro?

– Claramente estamos sendo preparados para um episódio centrado em Norma. Já estou ansiosíssimo!

– Não querendo puxar o saco do Boss, mas já puxando, já viram as ótimas entrevistas que o nosso caríssimo Michel Arouca fez com Uzo Aduba, Natasha Lyonne e Samira Wiley? Então CORRE e clica aqui.

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Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.