Sobre mães e filhas.
Senhoras e senhores, sejam muito bem-vindos de volta a Litchfield!!! Como de praxe, enfrentamos uma longa espera, mas já estamos de volta à ativa e mais do que prontos para matar as saudades do grupo de mulheres mais injustiçado de que o Emmy tem história.
E começamos com um episódio bastante atribulado, cuja função básica foi ambientar nosso retorno à prisão e às novas consequências dos acontecimentos do último season finale. O mais interessante dessa premiere é que ela oficializa o que todos já havíamos compreendido ao longo da segunda temporada: Orange Is The New Black não é mais sobre a história de Piper Chapman. Orange Is The New Black é sobre um gigantesco grupo de detentas ao longo do qual nossa trajetória vai sendo guiada pelo episódio de estreia, num caminho diametralmente oposto ao dos dois últimos episódios inaugurais, que foram 100% centrados na ex-protagonista.
Eu ainda não estou no time dos que comemoram alegremente essa decisão, mas Mother’s Day consegue vender perfeitamente a ideia de que essa descentralização só fez bem à série. Amarrado por um tema comum a todo e qualquer ser humano (a maternidade), o episódio circula livremente entre diversos núcleos e personagens diferentes enquanto desenrola a comemoração da data, provavelmente o dia mais feliz do presídio feminino de Litchfield. É um formato que cumpre com absoluto sucesso várias missões ao mesmo tempo: nos lembrar um pouco das tramas do ano passado, estabelecer pequenos novos arcos em potencial para este ano e aprofundar minimamente nosso contato e experiência com certas personagens chave.
Quem inaugura o terceiro ano de OITNB é nossa queridíssima Pennsatucky, que, depois do incidente com Rosa, tornou-se a nova Morello e será a responsável por transportar as pessoas este ano. Decisão inteligentíssima, porque daí só pode vir coisa boa, como já veio. Adoro como a caipira consegue ser uma pessoa horrivelmente racista até quando está se esforçando pra ser legal (“Desculpe, afrodescendentes. Crack é coisa de afrodescendentes.”). Não havia como escolher outra cena para ilustrar o episódio, já que o funeral de seus seis bebês abortados (Blake, Bonnie, Boyd, Bethany, Braeden e Buddy Jr.) é de longe a sequência mais poderosa dessa premiere.
Aprovo totalmente a decisão da série de seguir explorando a amizade entre Pennsy e Big Boo – que tem duplamente B como a letra inicial do seu “nome”, vale dizer – justamente porque é uma relação que cria oportunidades para a série discutir temas extremamente polêmicos e interessantes. Melhor ainda, oportunidades de fazer isso com muito bom humor, como foi o absoluto deboche construído em cima do fanatismo religioso que tenta convencer as mentes menos pensantes de que homossexuais e feministas têm planos de dominação e supressão de quem é diferente deles.
Na discussão genialmente introduzida sobre o aborto, porém, não havia espaço para piadas. Gosto de como o texto inverte papéis e humaniza o lado de quem é considerado “contra a vida” (sic) pelos religiosos. Será que Big Boo está certa quando diz que é melhor abortar do que correr o risco de criar uma criança sem estar preparada? Fiquem à vontade para discutir a questão nos comentários, se quiserem, mas não é isso que quero focar. O interessante de tudo isso é que, enquanto o lado “pró-vida” só serviu para encher Pennsatucky de sofrimento e culpa, a perspectiva de Big Boo acendeu nela uma centelha de alegria e de confiança em si mesma, e é bacana pensar que uma corrente de pensamento tão mal vista pode, no fim das contas, ser uma grande fonte de humanidade e positividade. Observação: só não coloquei o rosto de Big Boo na imagem de destaque do post pra não estragar a surpresa para quem não viu a melhor palhaça de festa infantil da história da humanidade. Quase morri quando o vídeo a enquadrou!
Em termos de air time, o arco que dominou o episódio foi mesmo o de Daya e Bennett, que agora além de tudo vai contar com a atenta vigília de Caputo – isso sem contar com sua sabedoria milenar, que nos dá pérolas como “Eu faço o que todo homem decente desde os primórdios faz quando fica tentado: bato uma.” Eu ainda não consigo deixar de simpatizar com o carcereiro, mas pra mim esse casal já cansou. A esta altura, estou muito mais interessado na absoluta falta de escrúpulos e de amor de Aleida, já que a série não mede esforços para nos mostrar que a mulher é uma péssima mãe e um péssimo ser humano, mas lança um curtíssimo flashback para nos provocar dizendo que não foi sempre assim.
Em terceiro lugar em termos de pequenas tramas mais interessantes, decreto um empate entre Red – que logo começará a ligar os pontos e perceber que Piper mentiu pra ela, o que gerará mais um delicioso confronto entre as duas – e Poussey, que em meados do ano passado tornou-se oficialmente a minha personagem favorita da série e continua não decepcionando com sua gigantesca dose de humanidade. Pode ter sido piegas para alguns, mas achei seu flashback com o “I love you, mommy!” o momento mais tocante da premiere. Estou interessado em ver como o interesse de Poussey pela espiritualidade pode render ao longo da temporada. Não sei o que esperar, mas, diante do cuidado e carinho já demonstrados pela personagem no passado, dela eu sempre espero coisa boa. Só dispensaria mesmo o exagero que foi vê-la se deparando com a mesmíssima tirinha do Calvin que ela leu com a mãe na cama. Tudo bem que proporcionou um momento bastante tocante, mas que bruxaria desnecessária é essa, roteiristas? Poderia pelo menos ser outra tirinha do mesmo personagem, não?
Maria Ruiz também merece uma menção aqui, já que foi quem mais sofreu nessa premiere. Incrível como um dia que parecia perfeito pode se tornar infernal de repente, e incrível como a série consegue nos entregar momentos como esse, porque, convenhamos, quem estava se importando com Maria Ruiz até assistir a esse ato visceralmente cruel que ela sofreu em pleno dia das mães no final do episódio?
Mas, no fim das contas, eu não resisto à necessidade de retornar à nossa querida Piper. Pensando um pouco melhor, talvez a série ainda tenha, sim, reservado um lugar de destaque a ela nesse episódio, já que sua pequena trama foi a única completamente deslocada da celebração de dia das mães que aconteceu no presídio. É curioso como, neste momento, Alex Vause é o lado vulnerável da relação destrutiva das duas, e Piper, o lado forte, sacana e mentiroso. Parece que o jogo virou, não é mesmo?
Como é de praxe em Orange Is The New Black, estamos diante de um primeiro episódio muitíssimo bem-sucedido, que nos trouxe de volta a Litchfield, resgatou nossa afeição por praticamente todas as personagens e núcleos da série, e nos deixou ansiosíssimos pelo que ainda há por vir. Além de tudo, pra nós, aqui no Brasil, que vamos ser “obrigados” a passar o dia dos namorados enclausurados porque seremos incapazes de abandonar o presídio de Litchfield no dia de hoje, a série aproveita para amenizar nossa situação e mandar um recado: antes de reclamar do dia dos namorados, olhem só o que essas mulheres passaram no dia das mães! É, diante dessa perspectiva, não dá pra reclamar. O jeito vai ser estourar a pipoca e, quem puder, convencer o amor a fazer uma visita conjugal, mesmo. Diante do clima instaurado por essa premiere, definitivamente my body is ready. E o seu?
Observações:
– Ok, estou tendo dificuldades de voltar para o modo Maritza quando vejo Diane Guerrero depois de Jane The Virgin. Se eu a chamar de Lina em alguma review, me perdoem antecipadamente.
– Big Boo ganhou muitos pontos comigo ao recomendar Freakonomics, de Steven Levitt. Concordemos ou não com as teorias pra lá de controversas que o livro apresenta, definitivamente é uma ótima leitura.
– Ainda não sei se a temporada vai conseguir chegar a algum lugar com Morello, mas adorei o que vi dela neste episódio e, com ou sem van, necessito de algum destaque para essa personagem.
– Só eu adorei a aula infantil “ioga feat. o mestre mandou” de Yoga Jones?
– RIP Veebora. Já estou sentindo falta de te odiar.
– Sdds, Larry e Polly. Só que não.















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