Honestamente? As últimas duas temporadas de Arrow não marcaram o melhor momento para a série do Arqueiro Verde. Enquanto o produtor executivo e parte do elenco culpam Flash e Legends of Tomorrow pelos problemas enfrentados durante o terceiro e quarto ano, é de senso comum entre os telespectadores que os pequenos desvios criados para impulsionar as novas produções da casa foram os menores dos problemas enfrentados. Com um roteiro pouco flexível e algumas decisões questionáveis, a série que a grande maioria mais ama odiar está de volta e dessa vez com a proposta de voltar às origens, sem superpoderes e com os dois pés plantados no chão – ou o máximo que um universo compartilhado em que viagem no tempo e homens que soltam fogo pelas mãos existem possa oferecer.
E para continuar mantendo a honestidade com vocês, eu até que gostei deste primeiro episódio. Legacy não representa a força que a série um dia já teve e está bem distante das duas primeiras temporadas, mas aquela pequena luz no fim do túnel começou a brilhar. A série ainda tem muito o que provar, novamente, para voltar a representar a força que tinha durante o seu segundo ano, de longe o favorito do público e ainda defendido como a prancha de salvação da série. Contudo os problemas criados pelo terceiro e quarto ano ainda existem e permanecem sugando uma boa quantidade de ar do roteiro, deixando-o, por vezes, quase sufocado na tentativa de correção do trajeto. E apostar na imagem do ‘Legado’ foi a saída mais fácil para justificar algumas mudanças.
Entrando dentro do episódio encontramos Oliver Queen dentro do mesmo problema criado após a morte de Laurel e o ataque de Damien Dahrk. O time não existe mais e o Arqueiro Verde está, sozinho, lutando para proteger Star City, tanto burocraticamente como prefeito, quanto heroicamente como Arqueiro Verde. É uma dinâmica muito interessante, especialmente por causa da possibilidade de trazer uma interação maior do Oliver com o restante do mundo, tirando da série a imagem claustrofóbica e com apenas um tom que ela adotou no passado. Tanto que um dos melhores momentos foi a decisão de criar uma força tarefa especial dentro da polícia de Star City, garantindo também uma cena realmente tensa no final do episódio e de relevância. Mas principalmente o que mais enriqueceu Legacy foi poder ver o personagem lidando com problemas que não eram apenas seu, minando o egocentrismo e deixando o protagonista com cara de super-herói de verdade.
O maior problema, porém, é a reversão de Oliver para um ponto que eu já imaginava superado. Seu comportamento de voltar a matar vilões é um retrocesso muito grande para a história, especialmente porque o tema foi muito debatido e discutido na série. Por causa da morte do Tommy, Oliver deixou de matar os bandidos da cidade. Após o assassinato de Laurel, ele decide voltar. O que acontecerá na próxima vez que um inimigo ceifar a vida de algum integrante do time? O discurso moral precisa ser mais forte, especialmente porque nós perdemos tempo acompanhando este discurso ser definido. E realmente se transforma em perda de tempo ao ver o trabalho de anos sendo redefinido após a constatação de que a série está sem foco e precisa, de certa forma, trazer a aura que a fez respeitável no passado, com a imagem de sangue e o som de pescoços se partindo.

A série ainda mantém elementos que fazem dela uma grande promessa. Ela tem em sua estrutura pontos que transforma Arrow em uma adaptação com grande potencial, mas que está sendo desperdiçado porque alguém decidiu o rumo que a produção deveria tomar, independente do resultado. E a maior prova desta constatação é a presença dos flashbacks, ainda existentes graças a obrigatoriedade criada pela contagem de cinco anos que o herdeiro da família Queen ficou ausente. Apesar de um pouco melhor ambientado neste ano, com a Rússia, a fórmula simplesmente não funciona mais como deveria. Imaginar que mais uma vez estaremos visualizando um paralelo entre passado e presente é pedir muito da audiência. E estes elementos que não funcionam, não precisam existir. Toda a ambientação, o clima clube da luta, a busca pela justiça através de qualquer meio necessário, não é algo novo, nós já vimos. Casa bem com a trama atual, mas demonstra um período estacionário.
Contudo eu vejo um esforço grande do roteiro em criar algo diferente para a quinta temporada. O primeiro indicador foi o romance, ou neste caso a falta dele. Nós sabemos que o público da emissora demanda um tipo de história que a série já desgastou, mas existem formas inteligentes de trabalhar o amor entre heróis. Colocar Felicity em um relacionamento com outro homem é um caminho que não soluciona os problemas da série, não faz muito em termos de longo prazo, mas funciona para trazer uma nova dinâmica, assim como o possível surgimento de um novo time.
E por falar em novo time, esta é outra proposta que demonstra um aspecto da série que está ficando um pouco cansativo. Cada vez mais temos a inclusão de novos personagens, tirando o foco do personagem central e o direcionando para caminhos menos interessantes. Por enquanto tudo é apenas uma promessa, mas o legado da Canário, assim como a volta de Laurel Lance em um flashback para amarrar as pontas da promessa que Oliver fez em seu leito de morte, apontam que a série jamais será novamente apenas sobre o Arqueiro Verde e que o manto de tutor continuará existindo, mesmo que a história perca um pouco. E até mesmo a ideia do líder e da criação de uma família ‘Arrow’ é algo que guarda potencial, se bem trabalhada.
Claro que não poderia deixar de falar a respeito do Antagonista, Tobias Church. Anunciado como o responsável por trazer a série de volta para o seu eixo “pé no chão”, Church vem com uma pesada missão, reestruturar a linha de vilões da série. Para um primeiro episódio a sua presença ainda está esparsa, mas imagino que o roteiro irá trazer mais do personagem nos próximos episódios. A impressão é que Arrow está procurando trazer um tipo de vilão inspirado em Demolidor, abocanhando uma parcela do público que clama por uma pegada mais similar a criada pela Marvel e a Netflix. Tobias é muito mais direto e menos misterioso, algo que a série nunca trabalhou com tanta liberdade. Sem um panorama sobrenatural para desenvolver e com um tipo de antagonista que quer dominar o cenário criminoso da cidade, parece que finalmente termos algo diferente para a série neste quesito, mesmo que o tal arqueiro misterioso ainda ameace a estabilidade dessa nova possibilidade.
Se teve uma coisa que Legacy demonstrou e que mostra uma grande evolução para Oliver, é a sua recém adquirida capacidade de mudar do opinião rápido, algo que até então levaria, pelo menos, uns dois episódios. Como retorno para seu quinto ano, aquele que também nos presenteará com o centésimo episódio da série, Arrow voltou com um tipo de abordagem diferente, apesar de ainda demonstrar o mesmo tom. Reitero minha visão de que a série mantém ótimos pontos e possibilidades, podendo se transformar novamente em algo relevante para o mercado e com impacto real no universo que ela criou, o Arrowverse. Existe espaço para o Arqueiro Verde neste mundo, só falta os criadores deste espaço aprenderem a conduzir sua própria cria através deste atraente mar de meta-humanos e alienígenas.
Easter eggs e outras informações
– “Você quer ajudar? Faça uma doação para o departamento de polícia”. Oliver Queen mais bem humorado e soltando frases menos engessadas. Gostei.
– Não entendi ainda como funciona a dinâmica do apartamento. Merlyn comprou o loft para a Thea, que depois convidou o irmão para morar lá. Então Oliver e Felicity empurraram a Thea para fora e agora a Felicity mora no apartamento com o novo namorado. Não faz sentido nenhum.
– Trama da bomba nuclear, alguém lembra?
– Tivemos o retorno de Lonnie Machin, o Anarquia, um dos melhores vilões que a série teve na quarta temporada e o pior utilizado, de novo.
– O personagem que apareceu com máscara do Jason de hockey é conhecido como Wild Dog. Criado em 1987, sua história é parecida com a de outro personagem que está na série, Curtis Holt. Jack Wheeler foi um estudante universitário com uma bolsa de estudos recebida por causa do futebol, mas precisou abrir mão de tudo após um ferimento, se tornando um mecânico. Sua trajetória é repleta de perdas e tragédias, algo que o forçou a tomar ação e se transformar em um vigilante.
– Tivemos também outro nome conhecido das histórias em quadrinhos, Konstantin Kovar. Kovar é pai do Estrela Vermelha.
– O homem que Felicity se refere como “senhor óculos de ski” é na verdade o Vigilante. Um anti-herói criado para as páginas de Novos Jovens Titãs.
– As cidades Hub City e Bludhaven foram mencionadas. Nos quadrinhos elas são, respectivamente, lar do Questão e do Asa Noturna.














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