Arrow precisa de mais anarquia se quiser manter a qualidade.

Tão próximos do final e com pouquíssimas expectativas para o embate entre Damien e o Arqueiro Verde, Arrow aproveitou o melhor personagem introduzido na sua atual quarta temporada para demonstrar exatamente o que ela precisa para voltar a ser interessante. E Anarquia é a palavra chave. Arrow se transformou em uma série previsível, entediante até. Apenas as cenas de ação não conseguem mais segurar o interesse e elevar a carga dramática de um texto previsível. Com a introdução de Anarquia, Lonnie Machin, além da participação de Ruvé Darhk, a série deixou em evidência exatamente o que estava faltando e que, infelizmente, não deverá retornar tão cedo, a imprevisibilidade.

Como produção televisiva Arrow não está mais conseguindo autogerir sua própria trama. Conceitos rebuscados e complexos demais para a proposta da série estão constantemente embaçando a visão desenvolvida no início. Como esperado, a explosão nuclear não teve o foco merecido e terminou como uma reportagem repetida exaustivamente. Assumir que um evento deste porte teria um tratamento tão leviano é fugir qualquer tipo de bom senso. É muito difícil se conectar emocionalmente quando tudo o que está acontecendo tem peso baixo para o imaginário. Faltou o combustível para movimentar a trama e apenas o encontro final entre Dahrk e Felicity impôs qualquer tipo de ameaça direta para os protagonistas.

Por este motivo inserir um personagem instável como Anarquia foi o passo mais inteligente adotado pelos roteiristas. Caos é o que falta. Mas não apenas a promessa do caos, ou alguma cena caótica claustrofóbica e com a falsa impressão de uma batalha grandiosa, como no ano anterior com a invasão da Liga dos Assassinos em Star City. Machin é uma adição poderosa por garantir o senso imprevisto. Em uma temporada baseada quase inteiramente em uma morte “organizada”, a noção do perigo é o que mais faltou para incrementar a receita. E então caímos no pior erro da produção, pelo segundo ano consecutivo, o antagonista. Em pouquíssimo tempo Ruvé e Anarquia desempenharam uma função bem mais ameaçadora que Damien.

Dahrk começou muito bem, assim como a própria temporada. Cheio de mistério e imponência, sua presença caiu como luva para a crescente exploração do mundo místico do Arrowverse. Foi graças a este bravo novo mundo que recebemos a presença de Constantine e Vixen, algo que só foi possível por causa da existência de uma convergência de forças sobrenaturais para a produção. Entretanto, tão rápido quanto as participações especiais, a força de Damien começou a esvair.

Só que nem mesmo Anarquia conseguiu salvar completamente o episódio. Muito prejudicado pela ação de Felicity e seu pai, o Calculador. Na altura do campeonato, o embate de hackers não acrescentou absolutamente nenhum tipo de gancho emocional. Pior ainda, quando analiso o “peso” da revelação de que seu pai não havia abandonado a família, mas expulso, soa completamente fora do lugar para um período de crise emergencial. Não é o tipo de informação que compete aquele núcleo algo interessante futuramente, ao contrário, a função primordial da interação entre Calculador, Donna e Felicity, é gerar algo relevante para que a personagem tenha um destaque maior do que apenas bater os dedos em um teclado e falar incontrolavelmente por alguns segundos. Arrow errou muito com Felicity dentro de quatro anos. A divisão do protagonismo não funcionou em termos de história, apesar de conseguir entender porque a personagem é uma favorita da maioria dos fãs da série. Este desvio é graças ao texto que não consegue decidir o que é importante e o que é apenas gordura desnecessária.

Tome como exemplo o encontro entre hackers e a presença da mãe da Felicity. Donna age unicamente como alívio cômico. Portanto, suas cenas com peso dramático maior não ajudam muito. O roteiro conseguiu agir de maneira ágil, optando por deixar a briga para depois da missão principal, mas com Curtis ali, além da Felicity, a presença de três alívios cômicos, praticamente, separou a trama em duas, sendo que neste momento o necessário é fazer com que tudo pelo menos soe como unificado. Também não aprovo muito a maneira que Donna Smoak é conduzida pela série. Enquanto trabalha apenas para fazer rir, a Charlotte Ross faz o que quer com o roteiro, mas a partir do momento em que sua tarefa é empregar seriedade, ela termina reprisando vícios da filha dentro da série. Cheia de ultimatos e ameaças, além de muita manipulação sentimental, fica fácil compreender porque Curtis disse estar acompanhando as duas metades de Felicity Smoak enquanto assistia a discussão entre os pais da ex-presidente da Palmer Tech.

Apesar dos problemas, Lost in the Flood é um episódio interessante, e com boa estrutura narrativa. O mérito é claro caiu inteiramente para Anarquia e a maneira que ele conseguiu modificar o status quo do episódio. O erro foi terem escolhido o penúltimo da temporada para fazê-lo. Existe um grave defeito na sala criativa de Arrow, que é não conseguir respeitar a utilidade de seus personagens. Similarmente foi o que ocorreu com Laurel Lance, cheia de potencial, mas praticamente silenciada pela série, até sua morte. Hoje a morte que figurou como um ponto chave para a temporada é tratada como detalhe esquecível. Ninguém ao menos menciona o fantasma da personagem, e imagino que a destruição causada pelo míssil nuclear também terminará da mesma maneira. Uma vez que o roteiro atinge o ponto pensado pelos roteiristas, apenas a história de Oliver e Felicity no passado permanece como parte da série, todo o resto é abandonado. Agora só resta torcer para que as ações de Anarquia representem algo maior para o último capítulo deste arco. E ao contrário do que foi feito em Flash e Lendas do Amanhã, aqui quem recebeu a principal motivação para inferir dor e atingir um objetivo em especifico, foi o vilão. Que pena que demoraram demais.

Easter eggs e outras informações

– Curtis fez uma menção ao filme Jogos de Guerra, com Matthew Broderick e Ally Sheedy. Na trama um adolescente ganha o controle de mísseis nucleares após acidentalmente invadir o sistema norte americano.

– Ivy Town não é apenas o nome da cidade em que o Oliver e a Felicity passaram um tempo. Foi na universidade de Ivy que o Ray Palmer lecionou.

– Pelo visto já temos um vilão e um tema para a próxima temporada, pelo menos para os flashbacks. Foi mencionado o nome Kovar. Leonid Kovar é um arqueologista e super-herói chamado Estrela Vermelha.

– Tevat Noah significa Arca de Noé, em hebraico.

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