Transformando leis monótonas em um incrível espetáculo televisivo.
ATENÇÃO: Essa review cobre os dois primeiros episódios de Show Me A Hero exibidos em sequência pela HBO na noite de 16 de agosto. Farei uma separação no texto para facilitar a vida de quem assistir um por vez, e escreverei cada parte antes de assistir o próximo episódio.
Como estudante de Direito eu tenho acesso a certas informações, normalmente transmitidas pelos meus professores, que infelizmente não chegam ao conhecimento da população. São temas importantes e que têm vasta influência sobre a vida de todos, mas mesmo assim nem a mídia e nem os políticos se sentem na obrigação de informar-nos sobre sua existência.
Um deles acaba por coincidir com o tema principal de Show Me A Hero. É o chamado planejamento urbano, uma ferramenta de organização espacial que previne a transformação de qualquer cidade em um caos desgovernado. É o tal de planejamento urbano que faz a cidade de Curitiba ter sua fama de local limpo e organizado (isso até os protestos dos professores contra Beto Richa, devo acrescentar).
O planejamento urbano (ou zoneamento urbano) é determinado pelo Plano Diretor, uma série de regras definidas pelo município que tentam controlar o crescimento de uma cidade de forma coordenada, proteger o meio ambiente e separar bairros habitacionais de grandes indústrias. A construção desse mapa por parte do governo é tediosa e aguerrida. Não que a população se envolva. Poucos sabem, mas as reuniões de deliberação sobre o Plano Diretor são abertas ao público. Na minha cidade, inclusive, esses procedimentos ocorreram alguns meses atrás.
O que acontece em Show Me A Hero, e aconteceu na vida real na cidade de Yonkers, é que um juiz decidiu pôr a mão na massa e determinar a construção de casas para pessoas de baixa renda em áreas comumente destinadas à população de classe média. Nesse momento, subitamente, o povo ganhou interesse no tedioso quebra-cabeça que é “montar” a estrutura de uma cidade. Afinal, agora estamos falando de segregação racial e social.
David Simon se dedica e consegue com maestria transformar esse assunto aparentemente monótono em um piloto explicativo, interessante e fácil de se acompanhar. O diálogo expositivo está espalhado pelo episódio, mas é perdoável considerando o resultado final. Simon sempre se preocupa em mostrar todos os lados da luta, de forma que também conhecemos algumas das famílias de baixa renda cujo destino está em jogo.
Na esfera política conhecemos nosso protagonista, o vereador e candidato a prefeito de Yonkers que atende pelo nome de Nick Wasicsko, interpretado pelo brilhante Oscar Isaac. Seu desenvolvimento no piloto é intrigante e misterioso, de tal forma que sequer sabemos sua opinião sobre a matéria do zoneamento. Ele inicia uma campanha e involuntariamente ganha o apoio da população de classe média quando todos culpam o prefeito Angelo Martinelli (James Belushi) pela “invasão” da classe baixa nos bairros tradicionais. Wasicsko se aproveita dessa situação para garantir o cargo de prefeito após seis mandatos consecutivos de seu rival, e mais: usa seu voto na apelação do caso do juiz para assegurar vantagem política, mesmo sabendo que o caso estava perdido.
A apelação é perdida e o episódio termina com Wasicsko questionando se o eleitor terá a capacidade de discernir que ele não tem interferência na decisão da Corte. Provavelmente não. Entretanto, esse não é o pior problema. O desafio que Show Me A Hero propõe em seu piloto é que um prefeito recém-eleito tente controlar os efeitos de uma decisão judicial irrevogável que mistura rico com pobre, branco com negro e latino em uma cidade profundamente acostumada com a segregação.
Apresentando essa proposta a série nos oferece apenas vislumbres do restante do elenco. A fofíssima Carla Quevedo recebe mais destaque, mas nomes de peso como Alfred Molina, Winona Ryder e Jon Bernthal ainda não mostraram a que vieram.
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Já no segundo episódio a tensão atinge níveis máximos. Direção, atuação, roteiro, tudo contribuiu para criar um espetacular senso de urgência. Há algo extremamente talentoso em transformar uma série com esse tema em algo tão urgente e eletrizante. Wasicsko carrega nas costas o restante dos membros do Conselho e tenta realizar seu trabalho, mas a sentença do juiz Sand não deixa lugar para o meio-termo. Os advogados de Yonkers querem sair do caso porque ele traz má publicidade, o cardeal volta atrás em sua decisão de ceder terreno da igreja para as casas quando vários fiéis deixam de pagar o dízimo em protesto, os próprios membros do Conselho praticamente preferem ir para a cadeia do que aceitar a construção das habitações…
O conflito é ensurdecedor e as reuniões do Conselho, barulhentas, ofensivas, angustiantes, quase assumidamente rascistas, são o epicentro desse episódio. Oscar Isaac nos conduz por esse show de horrores com uma atuação que lentamente revela um brilho singular e vai dar o que falar nas premiações de 2016. O elenco de suporte é espetacular, carregando a trama mesmo sem ter momentos individuais de brilhantismo. Há um poderoso senso de desastre iminente em Show Me A Hero, de protestos cada vez mais violentos, de ataques pessoais, de atentados terroristas até. Tudo por causa de um único juiz.
Esses momentos de pesadelo são contrastados com a vida de alguns moradores das partes mais pobres de Yonkers. Essa parte da série me deixa em dúvida: ao mesmo tempo em que não vemos nenhum avanço ou conexão dessas tramas com o restante dos personagens, é claro que isso terá importância no futuro. Além disso, há uma ironia inerente ao fato de vermos centenas de pessoas agindo como animais em relação a um assunto cujos maiores influenciados sequer estão representados. Acompanhar a história de Skip, o traficante asmático, e Norma, a senhora que perde a visão em virtude de sua diabetes, é importantíssimo para percebermos que eles não tem voz nesse assunto.
É na última cena do episódio, entretanto, que Show Me A Hero novamente mostra a que veio: Mary(*), uma dona de casa que lentamente se engaja no tema do zoneamento, vai até uma das reuniões do Conselho e se dirige a Wasicsko pessoalmente. Ela o incita a voltar para casa e diz que seu pai teria vergonha do que está acontecendo. Nick a expele da câmara. Mary faz uma ligação para a prefeitura, querendo falar com o prefeito. Ela não quer realmente falar com o prefeito. O que ela espera é ser atendida por uma secretária e talvez dizer algumas palavras de reprovação sobre o projeto todo. Nick atende e ela perde a postura.
(*) Mary é interpretada por Catherine Keener, indicada duas vezes ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante.
Por um momento toda a gritaria e tumulto do dia anterior parece perder o sentido. Wasicsko atende o telefone cordialmente, e longa da turba não é mais aceitável começar a berrar impropérios e ameaças. Isso também vale para Nick. Ambos, num momento de silêncio, entendem a estupidez de toda a situação. Ambos se enxergam como seres humanos, algo que no calor das discussões no Conselho é quase impossível. Há o meu lado e o seu lado, e eles não se cruzam. Infelizmente o problema não é tão preto no branco. Nos últimos segundos do episódio Nick e Mary sentam-se em silêncio e refletem profundamente sobre algo. Subitamente tudo ficou mais complexo, e esse é exatamente o ponto de Show Me A Hero.